sábado, 22 de março de 2025

O Exército de um Homem só, Moacy Scliar

 O Exército de um Homem só, Moacy Scliar

Um capitão sem tropa, um navegador sem navio, um sonhador de utopias. Assim se pode definir o herói improvável desse livro delicioso, escrito em 1973, e um dos marcos da literatura que mistura o fantástico e a fantasia à realidade, para contar a história de Mayer Guinzburg, um judeu que veio da Rússia ainda menino, no começo do século passado, com sua família, e vai morar em Porto Alegre, no bairro do Bom Fim. Cresce como um garoto rebelde e transforma-se no adulto delirante, que sonha reconstituir a cidade de Birobidjan, a cidade russa de onde ele proveio, como uma utopia socialista de igualdade e liberdade, sob a égide de uma espécie de comunismo mágico. A história é contada com interessantes cortes no tempo, começando em 1970, quando do último delírio de Mayer, o Capitão Birobidjan, como passa a ser chamado, regredindo para 1916 e blocando os capítulos em grupos de anos que correspondem às situações vividas pela personagem, desde os tempos de pobreza, passando pelos anos de prosperidade e novamente pobreza, quando a construtora que ele funda e administra junto com outro amigo judeu vai à falência. É quando ele, tutelado pelo filho, termina numa espécie de asilo para idosos, onde, no seu delírio de fundar uma sociedade igualitária, ele “toma o poder” e a direção da casa de idosos, mas termina sozinho, lutando com seus pequenos demônios interiores. O quixotismo da personagem rende passagens ao mesmo tempo comoventes e hilárias, o que torna a leitura dessa obra realmente importante de nossa literatura um prazer que se desfruta em cada página.

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