A natureza da mordida, Carla Madeira
O relato é recheado de citações. Podem-se reconhecer algumas, não todas. Felizmente a autora nos dá um regalo: ao final do livro, um apêndice com a relação de todas as referências. Mas isso é o menos importante. Vamos à história. Olívia tem um mistério – que parece banal – a resolver na sua vida: porque, aos 16 anos, sua amiga de infância e adolescência, sua melhor amiga, de repente, do nada, rompeu a amizade: “Vai embora. Não volte.” Esse mistério vai-se enlaçar com outro mistério, o da filha de uma amiga recente: por que o pai, marido exemplar, amorosíssimo com a filha, aos 16 anos da garota, vai embora de casa, de repente, sem dizer nada. Simplesmente, some. Os dois mistérios se entrelaçam, e iremos descobrir com a narradora, que um é fruto de mal-entendido moral e o outro, de um motivo também profundamente moral. Não vamos revelá-los aqui, é óbvio. Um resumidíssimo relato do enredo. Aos domingos, no centro de Belo Horizonte, uma feira tem entre seus expositores a barraca de um sebo, cujo dono oferece cadeiras de leitura e café com pão de queijo aos seus clientes, entre eles, uma senhorinha aposentada, muito culta, psicanalista e leitora voraz, que se diz chamar Biá, mas na verdade se chama Emma, que se senta sempre no mesmo lugar. Um domingo, esse lugar está ocupado por uma jovem de pouco menos de 30 anos, muito bonita, que, ali sentada, escreve e chora. Biá aproxima-se, querendo retomar seu lugar preferido, mas aceita compartilhá-lo com Olívia, e ambas firmam uma amizade que prosseguirá por vários domingos, por vários encontros, em que compartilham confidências. Quando Biá adoece, Olívia vai visitá-la e lê para ela toda a história de sua relação com a melhor amiga, num longo capítulo que resume bem a vida de uma cidade conservadora, mas que tem points de reunião onde sua juventude gasta a libido que a sociedade reprime. O capítulo é estranho, parece que a autora caiu num relato de clichês e eu, como leitor, apesar de me divertir um pouco com a narrativa, achei que ela não estava à altura do que prometiam os primeiros curtos e belos capítulos do romance. Ledo engano: é o prólogo para uma aventura complexa, de relações humanas profundas e confusas, onde mergulhamos com a autora na busca de mistérios insondáveis das tragédias humanas e dos mais profundos e inconfessáveis desejos do ser humano, num relato que nos revela a potência de uma escritora que não deixa a peteca cair (para fazer um trocadilho com um dos esportes preferidos dos moradores de Belo Horizonte, pelo menos nos tempos em que se passa a história de Olívia e sua linda e elegante mãe, e a amiga de infância que um dia rompeu com ela; de Biá, a intelectual e “detetive” que dá a pista do mistério, e sua filha Teresa, inconformada com o desaparecimento do pai fotógrafo). Não preciso dizer que é o segundo livro de Carla Madeira que me impactou. O primeiro foi “Tudo é rio”.






