quinta-feira, 19 de março de 2026

Depois a louca sou eu, Tati Bernardi

Depois a louca sou eu, Tati Bernardi



A roteirista da rede Globo e escritora Tati Bernardi escreve uma espécie de autobiografia ficcional, ou seja, baseia-se em experiências pessoais para criar os textos desse livro, mas exagera os fatos, com intenção satírica e humorística. O resultado é bastante interessante e até agradável de ler. Não é, no entanto, uma narrativa sequencial: são crônicas praticamente independentes umas das outras, mas que acabam formando um todo. Tema do livro: dependência química de remédios tarja-preta, como forma de superar crises do pânico. A autora conta experiências de crises desde a infância, agravadas pouco a pouco durante a adolescência e a fase adulta, só superadas com muito esforço e muita terapia, mas principalmente por uma vontade férrea de se livrar dos medicamentos, o que ela narra no último texto do livro. As crises de pânico provocavam nela efeitos catastróficos para a vida diária, como manina de organização, cabeça fervilhante de pensamentos absurdos, mãos trêmulas, falta de ar, falta de vontade de viver, desmaios, fobias, como viajar ou sair de casa ou pegar um avião. Em reuniões de trabalho ou sociais, as crises forneciam motivos para vexames e afastamento de amigos e colegas de trabalho, e ela tinha de fazer esforços inauditos para participar das reuniões de trabalho. Até mesmo a vida íntima e sexual era afetada, e ela conta que teve inúmeros namorados que não davam certo porque vários também tinham problemas semelhantes e depois a louca era sempre ela. Bem, se parecem engraçadas para muitas pessoas as situações narradas, tenho para mim que são mais trágicas e complexas, já que se trata de situações que, embora contadas de forma exagerada, provocam muito sofrimento. Apesar disso, eu acredito que a leitura desse livro nos leva a não mais pensar, como muitas pessoas pensam, que é “frescura” o sofrimento psíquico, por pura falta de conhecimento e de empatia. O leitor pode até divertir com as situações narradas pela autora, mas não deixe de, também, refletir que crises de pânico e tantas outras síndromes de origem psíquica provocam muitos transtornos na vida dessas pessoas, com consequências às vezes trágicas, então que não fique apenas no divertimento, ok?


terça-feira, 17 de março de 2026

Kim, Rudyard Kipling

Kim, Rudyard Kipling


Um livro para se ler com vagar e atenção: uma viagem cheia de detalhes e pequenas narrativas pelas várias regiões da Índia, com seus usos e costumes, sua cultura e suas crenças, suas paisagens, estradas e caminhos e sua cultura, no final do século XIX, provavelmente no período de 1893 a 1898. A personagem central é Kimball O'Hara, um menino branco, talvez o “mais pobre dos brancos”, órfão de pais irlandeses que morreram na miséria. O garoto vive pelas ruas, mendigando e aplicando pequenos golpes, para sobreviver, quando consegue um emprego com um comerciante de cavalos, Mahbub Ali, um paquistanês (pashtun) agente do serviço secreto britânico. Faz amizade com um lama tibetano que está tentando libertar-se da “roda de coisas”, um conceito budista que se refere ao fluxo da vida, do nascimento até à morte, do qual só se consegue escapar pela iluminação. E a iluminação desse monge está no encontro de um determinado rio milagroso, por cuja procura ele viaja por todo o país, agora com o seu “chela” (discípulo), o jovem Kim. Ao ser incumbido por Mahbub Alli de levar uma mensagem ao chefe dos serviços secretos britânicos em Umbala (uma cidade do norte da Índia), Kim acaba por ser recrutado e enviado para estudar numa grande escola, onde fica por mais ou menos três anos e, depois, volta a ser o “chela” do lama tibetano. Acaba se envolvendo em espionagem e no roubo de documentos secretos dos russos (que estão tentando minar o domínio britânico da região), viaja com o lama por inúmeras regiões e a amizade entre os dois se aprofunda de tal forma que, ao final, mestre e discípulo terminam encontrando juntos o rio da “grande iluminação”. Apesar de tantas peripécias por que passa o jovem, dentro de um contexto político complexo e cheio de traições, perseguições e atentados, o que nos comove em sua trajetória é o amor que ele nutre pelo velho monge, o lama que o conduz pelos caminhos do conhecimento e da vida. Publicado em 1901, está entre os grandes romances do século XIX, sem dúvida ainda uma leitura prazerosa, mesmo hoje, em pleno século XXI.


sábado, 7 de março de 2026

Os despossuídos, Ursula K. Le Guin



Os despossuídos, Ursula K. Le Guin


Uma história de ficção científica utópica e distópica: num futuro distante, dois planetas gêmeos – Urras e Anarres – têm civilizações opostas. Anarres é inóspito, sujeito a longos períodos de seca, mas seus habitantes são resilientes, porque criaram um sistema social dentro dos princípios da filósofia anarquista: não há leis nem governos, numa sociedade quase perfeita, mas que vive na pobreza e luta insanamente pela sobrevivência. Urras, ao contrário, tem um sistema capitalista e é um mundo de abundantes recursos, porém dividido em vários estados-nação que, em meio a extremos de riqueza e pobreza, dois deles estão em guerra para estender sua influência – e seu sistema político – sobre os demais. Shevek é um jovem cientista de Anarres que desenvolve uma teoria dentro da física, sua especialidade, chamada Teoria da Simultaneidade, que pode mudar os destinos de ambos os planetas e, como não encontra apoio em seu planeta, resolve viajar para Urras, mesmo que isso seja algo tão inusitado, que ele pode se condenar a não mais poder voltar a Anarres. Enquanto narra a trajetória de seu protagonista, suas relações de amor e amizade em ambos os planetas, suas dificuldades e as artimanhas de adversários poderosos, a autora desenvolve e discute inúmeras questões sobre o existencialismo, os sistemas de poder e as tramas políticas que os seres humanos criam para buscar o domínio de uns sobre os outros ou para que poucos lucrem enquanto a maioria empobrecida trabalha para sustentá-los. Deixa para nós, uma questão fundamental: será que é possível encontrar o equilíbrio político e social, de modo que possamos construir uma sociedade que não destrua o meio ambiente (como acontece com o planeta Terra, em uma breve referência no livro), que consiga superar as desigualdades e viver em paz? Enfim, uma ficção que cria mundos utópicos e distópicos para nos fazer pensar sobre qual destino nós, seres humanos e terráqueos, queremos construir e deixar como herança para nossos descendentes.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O pensamento hétero e outros ensaios, Monique Wittig

O pensamento hétero e outros ensaios, Monique Wittig


“Lésbicas não são mulheres”. Quando Monique Wittig encerrou sua palestra, em 1978, durante a convenção anual da Modern Language Association (MLA) em Nova York, houve um silêncio perturbador, seguido de debates acalorados. Ela havia começado a romper com um a ideia de que as categorias de gênero “homem x mulher” fossem algo natural e argumentava que a heterossexualidade é um regime político forçado, ou seja, são categorias econômicas de dominação e, portanto, se prevalece hoje o patriarcado, não haverá nenhuma mudança para as lésbicas (e, por extensão, para as sexualidades alternativas), se prevalecer o matriarcado: mudarão apenas de opressor. Portanto, ao leitor que pretende explorar os textos de Wittig, advirto: esqueça tudo quanto ouviu falar sobre feminismo e libertação da mulher. O buraco é bem mais em baixo. Prepare-se para novos paradigmas. O que ela prega é a destruição do pensamento que divide a humanidade em dois polos, a heterossexualidade. Não se deve pensar em termos de “homem” e “mulher”, mas sim em termos de busca de identidade e liberação do desejo do ser humano como tal, sem categorizações opressoras. Por isso, “lésbicas não são mulheres”, pertencem a uma outra categoria da humanidade, por não servirem aos homens e, consequentemente, não irão servir também às mulheres. Liberdade total. Superação, repito, de velhos paradigmas. Tudo isso e muito mais estão nos textos da autora. Sem dúvida, um tijolo incômodo para muita gente, na construção de um pensamento que extrapola as esferas da sexualidade, para buscar mudanças profundas no relacionamento humano, inclusive com a superação das desigualdades sociais e buscar políticas que libertem o ser humano do jugo da exploração capitalista. Ousado, não? Mas necessário e fundamental, o pensamento de Monique Wittig, para começarmos a entender muita coisa boa e ruim que tem acontecido neste mundo de predominância do pensamento heterossexual, onde o poder do macho sobre a vida das mulheres tem-se expressado de maneira cada vez mais violenta. Violência que se estende a todos e todas que não seguem essa cartilha absurda da heterossexualidade.


terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Uma dobra no tempo, Madeleine L’Engle


Uma dobra no tempo, Madeleine L’Engle


Viagens no tempo são uma espécie de obsessão dos escritores de ficção científica. Vencer as distâncias intergaláticas, que se contam por anos luz, incendeia as imaginações e provoca boas histórias. Madeleine L’Engle se aventurou nessa distopia em 1960, e consegue convencer seus jovens leitores (o livro é para um público adolescente) até hoje, já que a “dobra no tempo” não tem nenhuma explicação na história: apenas acontece por obra e graça de três mulheres de outras galáxias, descritas apenas (na tradução para o português) como senhora Quequeé, senhora Qual e senhora Quem que, por acaso, são vizinhas dos três jovens que irão viajar pelo tempo e pelo espaço, para resgatar o pai de dois deles, um cientista que desapareceu a serviço da NASA, que está preso pela matéria escura num planeta perdido de uma galáxia distante. Sobre o enredo, não muito complexo, mas instigante, não há muito mais a falar, sem tirar do leitor as “surpresas” preparadas pela escritora. Tudo se passa em lances de coragem, sorte e um certo cientificismo que não deve se aprofundar em detalhes, para não confundir a cabeça dos pequenos leitores, que devem, sim, se divertir ao acompanhar as peripécias da geniosa Meg, do garoto superdotado Charles e do esperto Calvin. Há também uma mistura de misticismo e religiosidade na aventura dos três, o que, talvez soe estranho aos dias de hoje ou, pelo menos, a mim não agradou. Não é por isso, no entanto, que deixo de recomendar a leitura, como diversão, como introdução ao mundo misterioso da ficção científica e a um certo cientificismo, que pode ser útil para despertar nos jovens o interesse pela ciência.


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico, Wladimir Safatle, Nelson da Silva Junior, Christian Dunker (organizadores)

Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico, 
Wladimir Safatle, Nelson da Silva Junior, Christian Dunker 
(organizadores)


Como leigo em economia e nas ciências do ramo psi (psicologia, psiquiatria, psicanálise), confesso que foi quase um sofrimento psíquico enfrentar as páginas desse livro. Mas, toda vez que lia um trecho do qual quase nada entendia, lembrava um amigo da área de propaganda e marketing, quando, uma vez reclamei com ele que não entendia uma determinada propaganda que martelava na televisão em horário nobre. Respondeu-me: se você não entende, não se preocupe: você não é o público-alvo dessa propaganda. Óbvio, pensei, como pensei agora: se não entendi tal ou tal trecho desse livro é porque ele não foi escrito para mim. E segui em frente, às vezes meio tonto com o jargão da economia misturado ao jargão das ciências psi. Esse desconforto ocorreu várias vezes, pelo menos, nos primeiros capítulos, quando a pegada dos autores foi realmente explicar o surgimento do neoliberalismo, com a citação de inúmeros economistas e suas teorias, desde os primórdios da primeira revolução industrial até a segunda metade do século XX, Sim, sofri um pouco para apreender pelo menos uma parte de tudo quanto ali estava escrito. Mas, valeu a pena. Os últimos capítulos, quando o assunto chega finalmente ao Brasil, os textos se abrem com muita clareza para me levar a uma viagem de volta a um tempo que foi o meu tempo: a segunda metade do século XX, quando acompanhei desde muito cedo os governos de Juscelino, de Jânio, Jango, o golpe militar e, depois, a luta pela democratização, a nova constituição, Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique, Lula, Dilma, Bolsonaro. Mas, a história contada pelos autores de “Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico” teve, para mim, surpresas e novidades que, se as intuíra alguma vez, não tivera capacidade de analisá-las ou compreendê-las em sua totalidade enquanto estava no olho do furação que foram os anos de chumbo, de redemocratização e, principalmente, a segunda década do século XXI, agora sob um viés impensável: à luz da psiquiatria, com pitadas de Freud e companhia. O tema é complexo: o neoliberalismo, segundo os autores, começou a trazer sofrimento psíquico à humanidade há muito tempo, mas sua estreia na prática ocorreu no Chile, quando Pinochet assassinou o presidente Allende, tomou o poder e trouxe para aplicar a seu “governo” as ideias neoliberais dos economistas do grupo de Chicago. Isso explica muita coisa do Chile, mas não é do país amigo que eu quero falar. No Brasil, o neoliberalismo faz sua estreia no governo de Fernando Henrique Cardoso, embora já viesse contaminando vários governos anteriores, pelo menos na sua face menos terrível, o liberalismo. Já vários teóricos vinham preparando o cadinho ideológico para abrir as portas do inferno neoliberal e os autores analisam a ideologia de vários deles, desde a década de 60. Sim, meu caro eventual leitor: não exagero quando digo que as portas do inferno se abriram para o neoliberalismo. Na verdade, o neoliberalismo é o próprio inferno, um inferno tão terrível quanto aquele descrito por Dante Alighieri no final da Idade Média. Seu ideário de maldades é para deixar qualquer capeta dando pulos de alegria, e pior: ele – o ideário de maldades neoliberais é tão complexo, determinado e desumano, que ele se vende a nós, pobres vítimas, como solução de todos os nossos problemas, fazendo que nos entreguemos às leis do senhor mercado – o demônio de todos os demônios – de braços abertos, como cordeiros ao cepo que nos levará à destruição, porque não é outro o fim que descortinamos com a leitura desse livro complexo, mas fundamental para entendermos que, se não destruirmos o capitalismo e, principalmente, sua versão mais terrível, o neoliberalismo, o mundo que deixaremos para as próximas gerações será um mundo de terra arrasada. Pode ter certeza: o diabo é muito mais feio do que nossos piores pesadelos. Não fiquemos indiferentes, que as eleições vêm aí e precisamos nos preparar para exorcizar os demônios que estão aí prontos para nos dar um novo golpe e levar o Brasil para o clube infernal, que já tem Trump, Milei, Erdogan, Netanyahu, Macron...


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O livro branco, Han Kang

O livro branco, Han Kang


Deixe-me falar, primeiro, da estrutura do livro: são breves crônicas sobre o cotidiano? São pequenos contos? São apenas divagações da autora, em textos poéticos? Nada disso: apesar de ter uma estrutura literária em que cabem todos esses rótulos, não há como definir esse livro, mas se trata (se insistirmos num rótulo) de uma forma diferente de romance. Paremos por aí, porque talvez também não seja um romance, pois a respeito dele eu tenho apenas uma certeza: a escrita de Han Kang, neste pequeno grande livro, estranhou-me nas primeiras páginas, mas tomou-me por inteiro quase que imediatamente, e levou-me com maestria a uma das mais sensíveis e belas homenagens que alguém podia fazer a um ser que existiu por apenas algumas horas, mas que, se tivesse sobrevivido, a própria autora não estaria nos emocionando com essas breves “crônicas”, com esses breves textos que vão formando pouco a pouco um mosaico que (devo confessar, humildemente) só não me levou às lágrimas, porque (acho) sou duro na queda. Desculpe o improvável leitor dessas linhas, mas devo acrescentar à minha emoção uma informação: a autora está o tempo todo se referindo (e uso essas frias palavras para refrear um pouco o lado emocional da narrativa e, desculpe mais uma vez o leitor, recompor-me para não passar vergonha) a sua irmã que sobreviveu por apenas umas poucas horas, alguns anos antes do nascimento da própria Han Kang. É um livro, portanto, para mitigar um luto que ela não viveu. Ao escolher a cor branca para ser o leit-motiv desse luta, a própria autora nos esclarece que, em coreano, há duas palavras para “branco”: “hayan, que tem um sentido puro e límpido, como algodão doce, e hwin, permeado pela ideia de morte”. E que ela escolheu escrever um livro hwin. Essa ainda jovem escritora coreana, aos 56 anos, ganhadora do Nobel de 2024, de quem já li o excelente “A vegetariana”, sem nenhuma dúvida é uma das grandes vozes da literatura contemporânea mundial.