A cidade do sol, Khaled Hosseini
Um soco no estômago. Talvez o romance mais triste e cruel que já li. Uma coisa é ler reportagens sobre guerras, conflitos internos entre facções rivais, torturas de cidadãos por grupos que assumem o controle de uma região ou país, atentados terroristas etc. Outra coisa, muito diferente, é ler esses relatos todos sob a óptica de um escritor que ficcionaliza a realidade para melhor retratá-la. É o que faz o escritor afegão Khaled Hosseini, de quem já havia lido o também excelente “O caçador de pipas”. Este romance – “A cidade do sol” – foi lançado em 2007 e é importante marcar essa data. Conta a história de duas mulheres, duas jovens mulheres: Mariam, a mais velha, viveu até os 14 anos no interior do Afeganistão, filha bastarda de um rico comerciante que, ao morrer a mãe da garota, entrega-a como esposa a um violento sapateiro de Cabul; Laila nasceu e vive na capital, é filha de um intelectual e cresceu sendo incentivada a estudar e buscar uma carreira. Vizinhas, as duas só vão se encontrar mais tarde, quando, em pleno conflito entre facções políticas, entre os anos de 1990 e aproximadamente 2003, a família de Laila é dizimada pelos mísseis e ela é salva dos escombros por Mariam, que a leva para ser cuidada em sua casa, já que a infraestrutura do país está um caos e os hospitais, quando ainda existem, estão lotados de feridos e a cidade coalhada de mortos, além de patrulhada por bandos de milicianos armados e prontos a atirar em qualquer um. A juventude da garota não impede que o violento marido de Mariam, já desgostoso da mulher, que não consegue lhe dar um filho, a tome como segunda esposa. A partir daí, a vida de ambas vira um inferno, não só por causa da guerra, mas principalmente diante da violência do homem, incentivado pela tomada do poder pelos talibãs em 1996. A história do livro só termina em 2003, quando os talibãs são derrotados e a vida de uma das garotas, a sobrevivente, começa a melhorar, com a retomada da reconstrução do país. Marquei a data de lançamento do romance – 2007 – porque nessa época o Afeganistão ainda vivia sob um regime democrático e o autor comemora, quando encerra sua história em 2003, a condição de liberdade de suas personagens sobreviventes. No entanto, para terminar esse breve comentário sobre esse livro extraordinário, os talibãs voltaram ao poder em 2021, impondo de novo a interpretação estrita da sharia e transformando, de novo, a vida dos cidadãos e, principalmente restringindo e oprimindo as mulheres, com suas proibições absurdas. Ressalvado esse aspecto terrível da história do Afeganistão, o livro é uma lição e uma advertência para todos, principalmente em relação à mais do que perigosa mistura de política e poder com religião, além de ser uma grande obra da literatura mundial desse início de milênio tão conturbado por guerras e genocídios.






