sábado, 7 de fevereiro de 2026

O cemitério de Praga, Umberto Eco



O cemitério de Praga, Umberto Eco


A personagem que conduz toda a trama do romance nasceu em Turim, no Piemonte, filho de pai italiano e mãe francesa. Sua profissão: tabelião. Sua especialidade: falsificar documentos. Ao se mudar para Paris, abre uma espécie de antiquário, numa rua sem saída do centro da cidade, mas continua exercendo sua principal atividade, falsificar documentos. Estamos na Paris da segunda metade do século XIX, quando toda a trama se desenrola, uma época conturbada e, ao mesmo tempo, de grande ebulição política, social e artística. A história é contada em flashbacks, a partir dos diários de Simone Simonini, escritos no final do século. Simonini reúne em si características que o tornam um dos vilões mais detestáveis da literatura, embora acabemos por simpatizar com ele: além de falsificador, é mentiroso, misógino, preconceituoso, odeia a tudo e a todos, principalmente judeus e maçons, mas também alemães, italianos, franceses. Além disso, é guloso e seu prazer por pratos exóticos leva-o a degustar inúmeras iguarias da culinária francesa, que ele faz questão de informar ou os elementos que constituem cada prato ou a receita completa, para a degustação, pelo menos literária e abstrata do leitor (que, se, quiser, pode até mesmo tentar recriar alguns desses pratos). Inventa um alter-ego, o abade Dalla Piccola, com quem estabelece um jogo de espelhos entre o bem e mal, mas principalmente para o mal. Simonini, que leitor se atente, é, das inúmeras personagens do livro, a única criada por Umberto Eco; todos as demais personagens com quem ele interage são reais e falaram e fizeram exatamente o que está ali escrito e descrito: o Padre Bergamaschi (figura de sua juventude que influenciou seu antissemitismo), Ippolito Nievo (escritor italiano), Freude (no livro, na ironia de Simonini, Froide), Garibaldi, Napoleão III etc. etc. E a mais emblemática de todas as personagens: Léo Taxil. Este é o pseudônimo mais conhecido do escritor francês Marie Joseph Gabriel Antoine Jogand Pagès que escreveu livros satíricos contra a Igreja Católica e, depois, cooptado por essa, criou, através de uma personagem chamada Diana Vaughan, uma série de narrativas que demonizava a Maçonaria, inventando histórias e ritos tão absurdos, que caíram nas graças do público, que passou a acreditar nessas mentiras. Enquanto isso, Simonini também escreve sua obra máxima de falsificação, a soldo de inúmeros interesses: os Protocolos do cemitério de Praga. Nesse cemitério abandonado (que realmente existe) um grupo de rabinos se reúne a cada século para planejar o domínio do mundo, articulando mil e uma artimanhas, no ficou conhecido como uma das maiores mentiras da história, que abalou e abala até hoje o povo judeu, pois foi uma das fontes do acirramento do antissemitismo na Europa e no mundo, mais conhecido como “Os Protocolos dos Sábios de Sião”. O objetivo da narrativa de Eco é justamente demonstrar como uma mentira bem contada e bem articulada pode se tornar uma verdade quase incontestável e determinar até mesmo os rumos da história. E isso ele o faz com a perícia de grande escritor, criando uma narrativa fantástica e tão bem articulada, que envolve de tal maneira o leitor, que ele chegou a ser acusado de antissemita por pessoas que não entenderam ou não quiseram entender a profunda ironia contida nas páginas desse livro que eu considero uma obra-prima do chamado romance histórico. E o leitor se divertirá ainda mais, se tiver a curiosidade de buscar as fontes históricas do livro.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O desafio poliamoroso – por uma nova política dos afetos, Brigitte Vasallo

O desafio poliamoroso – por uma nova política dos afetos, Brigitte Vasallo


Mesmo para o leitor mais “descolado”, o livro é um desafio, o que acontece sempre que alguém defende ideias que ultrapassam aquilo que se considera “senso comum”, principalmente num aspecto humano dos mais complexos que são as relações amorosas e familiares. Pode não ser uma ideia nova, mas defendida com novos e profundos argumentos, o poliamor ganha neste livro instigante novas cores e novas perspectivas. Deixa claro, em várias repetições, a autora que poliamor não é poligamia. São conceitos próximos, sem dúvida, mas paralelos, ou seja, não tem o conceito de poliamor o ranço do machismo e de outros preconceitos, como LGBTfobia, ou dos princípios monogâmicos que se inserem nas relações poligâmicas. E a monogamia, ou seja, a relação mais do que tradicional entre um homem e uma mulher, caracterizada no livro como um conceito falido que atravessa os tempos, mas só causa sofrimento e violência, é o alvo principal das críticas acerbas da autora. Levanta questões importantes sobre o tema e leva o leitor, por mais aferrado que ele seja à tradição, a pelo menos repensar as relações amorosas, a tomar consciência de que realmente as amarras monogâmicas são fonte de escravidão e de violência contra si mesmo e contra a própria sociedade, ao manter uma instituição que não se sustenta, senão pelo hábito secular, imposto por sistemas deístas e religiosos, confirmados e manipulados pelo capitalismo. Exalta e confirma o poliamor como uma forma não só de independência, capaz de trazer novas perspectivas para os seres humanos, mas também de amor liberto de amarras, embora seja uma conquista não muito fácil, já que as redes de afeto poliamoroso precisam se livrar, também elas, dos preceitos rançosos e violentos da monogamia, para não se transformar em sofrimento para seus componentes. Para evitar isso, prescreve com ênfase não a fidelidade monogâmica, mas a franqueza e honestidade de princípios de cada um dos seus membros. Não é o livro apenas uma digressão filosófica e sociológica, teórica, mas nos leva a um passeio pelas próprias experiências da autora, com coragem e com a certeza de que ela realmente está propondo, como diz o subtítulo, uma nova política dos afetos, um passo além do feminismo e de superação até mesmo de um capitalismo que dita as regras e os comportamentos amorosos, como forma de nos escravizar, pois, pergunta ela: “o exclusivo nos trará mesmo felicidade?” Leia, leia o livro, que ele mudará algo em você, leitor, e mudará para melhor, mesmo que não concorde com todas as ideias propostas ali por Brigitte Vasallo, essa corajosa escritora espanhola.

sábado, 17 de janeiro de 2026

O corcunda de Notre Dame, Victor Hugo

O corcunda de Notre Dame, Victor Hugo


Como é bom ler ou reler Victor Hugo! Mas, não é para elogiar o “monstro sagrado “da literatura francesa que vou escrever esse breve comentário. Aliás, fugirei um pouco de minhas características, para comentar as personagens desse longo e complexo romance, ressaltando que Victor Hugo inicia a história do livro num dia 6 de janeiro de 1482, em Paris. Vamos aos personagens principais. Pierre Gringoire: poeta, pobre, filósofo; é uma das personagens bem construídas do livro: seu discurso para se livrar da forca diante do rei Luís XI é, ao mesmo tempo, hilário e convincente, um dos pontos interessantes do livro. Claude Frollo: é talvez a personagem mais complexa e cheia de contradições, padre erudito e arquidiácono da diocese de Notre Dame, cultua ao mesmo tempo o esoterismo, buscando a pedra filosofal, enquanto nutre uma paixão avassaladora pela jovem Esmeralda; o capítulo em que ele sai, alucinado, pelas ruas de Paris é um dos pontos altos do romance, páginas de grande força dramática; seu fim é trágico. Esmeralda: a jovem cigana ou egípcia (como se dizia na época) de 16 anos que encanta a cidade com sua dança e seus truques com a cabra amestrada de pés dourados, Djali, tem apenas isso: encanto e uma paixão por um soldado chamado Pheobus que é apenas um mulherengo vulgar, que deseja apenas se aproveitar da beleza da garota. Quasímodo: é a personagem mais famosa do livro; um jovem disforme, corcunda e surdo que foi abandonado pela mãe e criado na catedral por Claude Frollo; apaixonado por Esmeralda, tem consciência de suas condições e luta para salvá-la. Gudule, a ex-prostituta que mora no “Buraco dos Ratos”, um cubículo da praça de Grève, e odeia todas as ciganas, especialmente Esmeralda; é a personagem melodramática da trama, pois sua identidade só será revelada quando de seu final trágico. Há muitas outras figuras interessantes no livro; essas, porém, são as que constituem a espinha dorsal da trama. Mas, há ainda duas personagens, que considero as principais: a igreja de Notre Dame e a cidade de Paris. Notre Dame, com suas torres e mistérios, descritos à exaustão por Victor Hugo, ganha vida e palpitação, pois muito da história do livro acontece em seu entornor ou dentro de suas paredes já centenárias, na época. Aliás, conta-se que Victor Hugo escreve esse romance como uma forma de chamar a atenção das autoridade do século XIX para a conservação da catedral, na época quase em ruínas. Por outro lado, a Paris do século XV parece ser a paixão do autor. Reconstituída detalhadamente, através de inúmeras fontes, ele nos leva a flanar pelas ruas, vielas e praças de todos os bairros da cidade, fazendo dela uma personagem fundamental no enredo, com seus habitantes bizarros, suas casas e mansões, seus palácios e igrejas, sem esquecer o rio Sena, que abraça a Cité. Enfim, a história de Esmeralda e seus loucos apaixonados (Frollo e Quasímodo) e sua grande paixão (Phoebus) só ganha em emoção e pinceladas de tragédia nessa cidade medieval e complexa, num dos romances mais importantes da literatura francesa, talvez da literatura mundial, uma história que já faz parte do imaginário ocidental, contada com emoção e perícia por um dos mais brilhantes autores do século XIX. Por isso, repito: é sempre muito bom ler, ou reler, Victor Hugo.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Os cristãos e a queda de Roma, Edward Gibbon


Os cristãos e a queda de Roma, Edward Gibbon


Trata-se de um ensaio extraído de uma obra bem mais extensa, “Declínio e queda do Império Romano”, do historiador inglês Edward Gibbon (1737-1794). Traz o texto a marca indelével da mentalidade do século XVIII: deísta, cristão e católico. Para o leitor do século XX que ainda tenha essa mesma mentalidade, pode ser um prato cheio, cheio de equívocos, na minha opinião de ateu, embora se aproveitem algumas ideias que ajudam a explicar o sucesso de uma seita, o cristianismo, que tem um crescimento espantoso durante os dois primeiros séculos depois de Cristo. Não há dúvida de que, como diz o autor, o politeísmo greco-romano entrava naquele momento num período de decadência e cansaço, já que os seus deuses nada entregavam em troca dos sacrifícios a eles dedicados, e muito pouco prometiam a seus seguidores. O cristianismo surge prometendo algo inusitado e de grande poder agregador: a vida eterna àqueles que o adotassem e seguissem suas leis e regras. O conceito de alma imortal não era de todo desconhecido pelos filósfos, mas não tinha a popularidade que os cristãos lhe deram. E mais: o cristianismo soube divulgar de forma extremamente competente o conceito de fé em acontecimentos extraordinários, os milagres, apresentando como prodígios às vezes fatos comuns e repetindo ad nauseam narrativas não comprovadas de curas, de ressurreição de mortos etc. Também souberam divulgar como diferencial das demais seitas a moralidade dos primeiros cristãos e, posteriormente, através de uma estrutura baseada na formatação dos exércitos romanos, organiza-se burocraticamente e, com isso, consegue unir em torno de ideias comuns inúmeras e distantes cidades do Império Romano e espalhar-se por todo o Ocidente e parte do Oriente. Tudo isso é narrado pelo autor, praticamente sem fontes históricas, apenas com o poder de sua prosa, aliás, uma prosa elegante e persuasiva. Ao fim e ao cabo, um belo trabalho literário, mas historicamente discutível. Vale a pena ler? Sim, se pensarmos que há, ali, ideias esclarecedoras de um fato histórico, embora visto sob o viés da fé, já que o autor atribui à sabedoria divina o surgimento do cristianismo naquele momento de crise do politeísmo e, consequentemente, toda a expansão dessa seita.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

LIVROS LIDOS EM 2025

 

(Balthus:1968-76 - Katia Lisant)

1.               266, Roberto Bolaño

2.               O andarilho das estrelas, Jack London

3.               Como água para chocolate, Laura Esquivel

4.               O Aleph, Jorge Luis Borges

5.               Os cadernos de Malte Laurids Brigge, Rainer Maria Rilke

6.               A malnascida, Betrice Salvione

7.               A incrível lavanderia dos corações, Yun Jungeun

8.               A livraria dos achados e perdidos, Susan Wiggs

9.               A Contadora de Filmes, Hernán Rivera Letelier

10.            O pobre de direita, Jessé Souza

11.            Boulder, Eva Baltasar

12.            E se eu fosse puta, Amara Moira

13.            O voyeur, Gay Talese

14.            Correio do tempo, Mario Benedetti

15.            China: o Socialismo do Século XXI, Elias Jabbour e Alberto Gabriele

16.            O exército de um homem só, Mocyr Scliar

17.            A polícia da memória, Yoko Ogawa

18.            A confissão da leoa, Mia Couto

19.            A forma da água, Gillermo del Toro e Daniel Kraus

20.            Joana a contragosto, Marcelo Mirisola

21.            Dedico a você meu silêncio, Mario Vargas Llosa

22.            Como e por que ler, Harold Bloom

23.            Enquanto agonizo, William Faulkner

24.            Eu canto e a montanha dança, Irene Solà

25.            Complô contra a América, Philip Roth

26.            A fantástica fábrica de chocolates, Roald Dahl

27.            Essa história está diferente – dez contos para canções de Chico Buarque, compilação de Ronaldo Bressane

28.            Ritos de passagem, Willian Golding

29.            Suicídios exemplares, Enrique Vila-Matas

30.            A história do mundo em 100 objetos, Neil MacGregor

31.            O último teorema de Fermat, Simon Singh

32.            A feiticeira de Florença, Salman Rushdie

33.            O ar que me falta, Luiz Schwarcz

34.            A mulher desiludida, Simone de Beauvoir

35.            A filha do Papa, Dario Fo

36.            Admirável mundo novo, Aldous Huxley

37.            A casa de barcos, Jon Fosse

38.            Meninos, eu conto, Antônio Torres

39.            Dance, dance, dance, Haruki Murakami

40.            Fim, Fernanda Torres

41.            O herói de mil faces, Joseph Campbell

42.            Salvatierra, Pedro Mairal

43.            Dias perfeitos, Raphael Montes

44.            Distância de resgate, Samanta Schweblin

45.            Cérebro e crença, Michael Shermer

46.            Um ditador na linha, Ismail Kadaré

47.            O livro da astrologia: um guia para céticos, curiosos e indecisos, Carlos Orsi

48.            Neca – romance em bajubá, Amara Moira

49.            Nada mais será como antes, Miguel Nicolelis

50.            Partículas elementares, Michel Houellebecq

51.            O jantar errado, Ismail Kadaré

52.            Os filhos dos dias, Eduardo Galeano

53.            O sol é para todos, Harper Lee

54.            Uma história natural da curiosidade, Alberto Manguel

55.            Um solitário à espreita, Milton Hatoun

56.            Uma noite com Sabrina Love, Pedro Maial

57.            Brancura, Jon Fosse

58.            De quatro, Miranda July

59.            O vento sabe o meu nome, Isabel Allende

60.            Paris, a festa continuou, Alan Riding

61.            Sob o sol de Satã, Georges Bernanos

62.            Predadores, Pepetela

63.            Só garotos, Patti Smith

64.            O construtor de pontes, Markus Zusak

65.            Nem sinal de asas, Marcela Dantés

66.            Vênus das peles, Leopold Sacher-Masoch

67.            Uma rua de Roma, Patrick Modiano

68.            Uma paixão simples, Annie Ernaux

69.            Terra sonâmbula, Mia Couto

Terra sonâmbula, Mia Couto


Terra sonâmbula, Mia Couto


A língua portuguesa falada em Moçambique encontra em Mia Couto um dos seus expoentes máximos, nesse escritor que tem o dom de nos envolver com seu estilo delicado e poético e de nos revelar histórias tristes e complexas de um povo que só se tornou independente quatro séculos depois de domínio português, em 1975 e, dois anos depois, mergulhou numa guerra civil que durou até 1992. “A guerra é uma cobra que usa os nossos próprios dentes para nos morder”, diz o velho Tuahir para o menino Muidinga, na luta de ambos para encontrar a si mesmos e também um lugar para viver. Depois de uoma longa caminhada, estão eles acantonados num velho ônibus queimado na berma (beira) da estrada, cheio de corpos carbonizados. Entre esses corpos, está o corpo quase intacto de Kindzu e seus cadernos, os quais contêm a história de sua vida. Entre os percalços por que passam o velho e o menino, para sobreviverem, suas idas e vindas em torno do ônibus queimado e sua caminhada em busca do mar, o garoto vai lendo para o “tio” as páginas desses cadernos, em uma narrativa alternada de suas vidas e da vida de Kindzu. Os cadernos narram a busca do autor pelos guerreiros tradicionais, os naparamas, seus encontros e desencontros com um indiano, com mulheres e outros inúmeros personagens e, também, a busca de um garoto perdido, filho da mulher por quem ele se apaixona e que está vivendo num navio de mantimentos atolado numa praia, à espera de notícias do garoto. A prosa poética de Mia Couto nos leva para paisagens impensáveis e a conhecer vidas complexas desse país em formação, cujo povo anseia pela paz e busca na tradição forças para superar as lutas internas. Há diferenças lexicais bastante significativas entre o português que falamos aqui e a língua usada por Mia Couto, mas não se preocupe o leitor: há um pequeno glossário ao final do livro e, mesmo que não houvesse, o contexto nos leva a entender praticamente todos os significados das belas palavras do falar moçambicano, embalados que somos pela elegância da prosa desse grande escritor, um dos grandes mestres da língua portuguesa.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Uma paixão simples, Annie Ernaux



Uma paixão simples, Annie Ernaux


A paixão avassaladora, aquela que toma conta de todos os momentos e de todos os pensamentos de uma pessoa, não deixando espaço para mais nada, às vezes nem para viver. Foi esse sentimento, que quase todo ser humano experimenta pelo menos uma vez na vida, que tomou de assalto a vida da autora, a escritora francesa Annie Ernaux, num momento em que, divorciada e com dois filhos, parecia ter estabilizada a sua vida, em todos os sentidos. E essa paixão rendeu uma espécie de “documentário do amor extremo”, um romance que é, ao mesmo tempo, memória, ficção e reflexão sobre a paixão. O relacionamento com um “estrangeiro”, um russo, casado, nomeado apenas como A., durante alguns meses, rendeu algumas páginas (até poucas, já que o livro tem cerca de 60 páginas) de grande intensidade, mas principalmente de grande franqueza e coragem. Tudo a seu redor, cada palavra, cada gesto, cada momento de vida gira em torno desse amor tresloucado, sem espaço para outras experiências, como se o mundo houvesse parado e só existissem os amantes, como só existisse a espera de um telefonema, como só existissem os momentos que passam juntos. Quando o amante volta para sua terra, resta o vazio e o passar do tempo, algo ao mesmo tempo complexo e alucinante, que precisa ser superado, ainda que esse tempo de esquecimento seja longo e doloroso. O tom confessional do livro, sua profundidade e as reflexões da autora elevam a régua de regulação das confissões amorosas a nível de grande poder não só das palavras, mas, principalmente, pela capacidade da literatura de nos conduzir através dos sentimentos e dos pensamentos de uma mente perturbada por uma grande paixão. Um livro para ser lido com o suspense das grandes histórias que cabem em poucas páginas, pela sua densidade e grandeza estética.