Revolução, crime político e loucuras
– os discursos criminológicos e o anarquismo no Brasil (1890-1930),
Bruno Corrêa de Sá Benevides
Quando li “Anarquistas, graças a Deus”, de Zélia Gattai, a prosa sensível e nostálgica da autora deixou-me a impressão de que o anarquismo quase ingênuo e algo romântico de sua família, ocorreu numa época tranquila para eles e para o país. Não condeno a autora, por isso, ao contrário: continuo achando sua visão e seu livro uma das melhores páginas que já li sobre essa doutrina que era demonizada, agora eu sei, no começo do século, pelas autoridades brasileiras. O livro de Bruno Benevides, na verdade uma alentada tese de doutoramento do autor, revela-nos traços complexos, para dizer o mínimo, da política brasileira do nos anos abordados pela obra: 1890-1930. O livro é longo, quase 500 páginas, muito bem documentado e muito bem embasado em obras e autores da Europa e do Brasil e em farta documentação, num retrato minucioso de como foi considerado o anarquismo no Brasil, nessas quatro décadas. Primeiro, sob o aspecto médico e científico: a medicina brasileira e, em especial, a medicina legal, abraçou a tese de Lombroso e seus inúmeros seguidores de que os indivíduos que defendiam teses libertárias, leia-se: anarquistas, eram doentes mentais, loucos, esquizofrênicos etc. Ou seja, lutar contra as injustiças sociais condenava os operários, principalmente, não só à prisão, mas ao asilo de loucos. Segundo, sob o aspecto policial: com a devida desculpa de que eram loucos, que pretendiam derrubar o governo e as instituições, a polícia de praticamente todos os estados, mas principalmente da capital Rio de Janeiro, dava-se o direito de prender sem mandado, de torturar e expulsar todo e qualquer “perigoso anarquista” que caísse em suas garras, através de patrulhas violentas e de relatórios de “secretas”, policiais infiltrados nos movimentos operários. Terceiro, sob o aspecto jurídico: às vezes, mesmo sem leis específicas, os tribunais, o Supremo Tribunal Federal à frente, condenavam e permitiam a expulsão de quaisquer estrangeiros acusados de serem anarquistas, essa “praga” internacional. Quarto: sob o aspecto político: deputados e senadores, em sua maioria, se esmeravam em condenar através de discursos irados toda e qualquer ideia anarquista, baseados, claro, nas informações científicas de médicos, psicólogos e psiquiatras que seguiam a linha de raciocínio lombrosiana e apresentavam, com sucesso, leis e mais leis que permitiam e incentivam as prisões arbitrárias de anarquistas. Tudo isso, o leitor já pode concluir, muito bem documentado pelo autor em seu livro, que é um libelo contra a arbitrariedade, contra o absurdo de perseguições a movimentos operários que, principalmente na época, lutavam por direitos mínimos de sobrevivência, por melhores salários e melhores condições de trabalho, em geral condições insalubres e salários de fome. Enfim, um tempo de sofrimento, de terror, de perseguições e tortura de pessoas que queriam somente uma vida melhor. Um livro imperdível, para quem deseja conhecer um pouco mais da história recente de nosso Brasil, desse país que insiste ainda em eleger indivíduos golpistas que defendem teses neonazifascistas.






