segunda-feira, 13 de julho de 2026

Vento em setembro, Tony Bellotto

Vento em setembro, Tony Bellotto


Há muito não mergulhava na voragem de uma boa literatura policial ou de mistério. Enquadra-se mais, aliás, na segunda categoria o romance de Bellotto. E é realmente não um vento, mas uma ventania que nos pega desde as primeiras páginas e nos obriga a ler na velocidade mesma dos acontecimentos narrados. Vou dar apenas um pequeno vislumbre da trama, para poder comentar um pouco mais esse livro. Na década de 70 do século passado (e isso está ali mesmo e parece que foi há muito tempo), um poderoso fazendeiro de soja da cidade do interior de São Paulo, Assis, promove uma orgia com inúmeros convidados e prostitutas da região, para o “descabaçamento” do filho mais novo, Alexandre. Contrata para o “evento” uma famosa prostituta de São Paulo, a deslumbrante Laura, que tem um irmão gêmeo homossexual. O garoto, tímido e desconfortável com tudo aquilo, resolve simplesmente desparecer da festa, que transforma, não só a festa, mas também a vida de Máximo Leonel e sua família, a mulher e seus dois outros filhos num pandemônio. Até aí, pensamos que estamos diante de um narrador onisciente, mas logo após a tal orgia, apresenta-se a nós a personagem Davi Zimmerman como sendo o narrador da história – e personagem! Jornalista e escritor, publicou um livro em que mistura fantasia e realidade sobre a vida de Aleijadinho. Numa sequência intrigante, baseada nas informações do livro, alguém começa a pichar os profetas e muros de igrejas de Congonhas e Ouro Preto, com a frase de Nietzsche, “Deus está morto”, o que o leva a se envolver numa complexa trama que resulta na busca, meio edipiana, de seu passado, de sua identidade, aí sim, numa voragem de acontecimentos de deixar o leitor sem fôlego. A literatura dita de mistério, ou policial, não tem por tradição mergulhos psicológicos ou digressões filosóficas, ou seja, as personagens não se verticalizam ou só o fazem através da ação. E ação é o que não falta no excelente romance de Tony Bellotto, além de uma quantidade enorme de referências culturais e citações, o que me deixou encantado por reconhecê-las quase todas, desculpando-me o leitor destas linhas a modéstia, Enfim, para quem gosta de literatura de mistério, sem dúvida, uma obra altamente recomendável para se ler num fim de semana friorento, degustando um vinho, que boa diversão não faltará.


sexta-feira, 10 de julho de 2026

História da Revolução Russa – 3º volume – O triunfo dos sovietes, Leon Trotsky

 História da Revolução Russa – 3º volume – O triunfo dos sovietes, Leon Trotsky



No estilo característico do autor, em que não se limita a narrar os fatos, mas comentá-los e descrever cada situação de forma detalhada, em suas minúcias políticas e sociais, esse terceiro volume da História da Revolução Russa, contempla os eventos que levaram ao “triunfo dos sovietes”, em outubro 1917. Detalha o planejamento estratégico dos bolcheviques a partir dos percalços provocados pela insurreição contrarrevolucionária de Kornilov em 27 de agosto; a prisão e a liberação de Trotsky; a formação do último governo de coalizão, com Kerensky como presidente; a tomada paulatina dos sovietes pelos bolcheviques e toda a preparação militar para o golpe final contra o governo de Kerensky. A insurreição começa às 2 horas da madrugada de 25 de outubro e o Conselho da República é fechado pelas tropas ao meio-dia. Lenine faz a sua primeira aparição pública numa sessão do Soviete de Petrogrado, às 3 horas da tarde e esse é um capítulo muito especial em todo o livro. A partir daí o Palácio de Inverno cai e o Governo Provisório é preso, o Segundo Congresso Nacional dos Sovietes decreta sobre paz e território e fixa o novo governo dos Conselhos dos Comissários do Povo, nos dias 26 e 27 de outubro. Estava consolidada a vitória bolchevique. Nas mais de 500 páginas do livro, Trotsky detalha o posicionamento de cada partido político, as divergências entre eles e até mesmo as divergências entre os próprios bolcheviques, as intervenções de Lenine, consideradas cruciais para a vitória final. Há em todo o texto uma profunda análise marxista e sociológica sobre a dinâmica das massas, ou seja, dos proletários, dos soldados e dos camponeses em todo o processo de união e de convencimento dessas populações, para tomarem consciência de sua situação e da possibilidade real de tomarem o poder. Consolidado o primeiro governo operário, Trotsky ainda discute longamente a internacionalização da Revolução, porque tanto ele quanto Lenine acreditavam que os sovietes só conseguiriam manter o poder na Rússia, se os operários também tomassem o poder nos demais países da Europa, já que as condições do capitalismo na Rússia e sua situação de país subdesenvolvido não conteria as condições ideais para manter um governo marxista, como ocorria na França, na Inglaterra etc. A saga da Revolução Russa, contada por alguém que participou diretamente dos eventos que levaram à vitória do primeiro governo marxista no mundo, num país complexo como a Rússia, tem realmente um sabor todo especial para qualquer leitor que se interesse por política, pela História e pelos destinos da humanidade, já que é um evento exemplar e único, apesar de seu término melancólico no final do século XX.

sábado, 20 de junho de 2026

História da Revolução Russa – 2º volume – Tentativa de contrarrevolução, Leon Trotsky

História da Revolução Russa – 2º volume – Tentativa de contrarrevolução, Leon Trotsky


A revolução de fevereiro de 1917 foi vitoriosa na sua finalidade de derrubar o tzarismo, mas o governo provisório liderado principalmente por Kerensky mergulhou em crises e não realizou os ideais das classes populares e, principalmente do bolchevismo, de entregar o poder ao povo. Acabou se aproximando muito mais da burguesia e aliou-se às forças golpistas do ministro da guerra, Kornilov, enquanto a própria guerra contra a Alemanha corroía as finanças do país. A tentativa de golpe de estado burguês ocorreu nas chamadas “jornadas de julho” que só foram esmagadas por incompetência dos golpistas, pelas contradições internas do governo e pela reação do povo e das forças progressistas. A politicagem, no entanto, continuava a pleno vapor dentro do governo provisório, dividido em várias correntes políticas que não se entendiam e disputavam o poder. A burguesia defendia pautas contrarrevolucionárias, defendendo seus privilégios. Nesse estado de conflitos políticos, os bolchevistas, que defendiam a entrega do poder aos sovietes, sofreram um rude golpe: seus líderes foram presos, principalmente Trotsky, enquanto Lenine se mantinha na clandestinidade, perseguido por uma notícia falsa, difundida pela burguesia, que quase liquidou o bolchevismo. As forças reacionárias conseguiram empastelar o principal jornal bolchevista e, donos da imprensa, acusaram os bolchevistas de serem espiões da Alemanha e Lenine, não só de ser espião, mas ser financiado pelo inimigo. A luta para recuperar o prestígio dos bolchevistas e todas as complexas negociações políticas dentro e fora do governo nesse período conturbado são detalhadamente relacionadas, historiadas e comentadas por Trotsky, no seu estilo de ir às minúcias e às entranhas da situação, o que faz que a leitura desse segundo volume exija uma atenção redobrada do leitor, principalmente pelas inúmeras personagens e citações nesse emaranhado de forças políticas de uma sociedade perplexa e complexa, que busca entender o que está acontecendo e realizar o seu destino, que é o ideal bolchevista de entregar o governo ao povo, o que vai acontecer, como todos sabem, somente em outubro. Mas a narrativa dessa revolução ficará para o terceiro volume.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

História da Revolução Russa – 1º volume – A queda do tzarismo, Leon Trotsky

História da Revolução Russa – 1º volume – A queda do tzarismo, Leon Trotsky


Vinha adiando a leitura dos três volumes da história da Revolução Russa, porque achava que iria ser uma leitura complexa, de um intelectual, Trotsky, de estilo rebuscado e baseado em teses complexas. No entanto, embora tenha sido, esse primeiro volume, uma leitura lenta, nele encontrei um estilo bastante agradável, fácil de ler e assimilar. Eu disse fácil? Não é bem assim: o estilo é, sim, fácil, mas estamos diante da narrativa de fatos complexos, a revolução de 1917 que levou ao poder os bolcheviques, na Rússia. E a Rússia não é um país fácil de entender: muitas são as forças que se entrechocam e se entrechocaram desde a primeira tentativa, em 1905, – fracassada – de derrubar o regime comandado por Nicolau II e seu influente curandeiro Rasputin. Os primeiros capítulos do livro traçam uma breve história da Rússia e dos imperadores, situando o leitor no contexto político da corte e do país. Em seguida o autor passa a nos relatar, numa crônica de grande precisão de detalhes, todo o contexto e todas as motivações que levaram à revolução de fevereiro de 1917, quando o poder muda de mãos, não ainda para os bolcheviques, mas para líderes que tinham ligações com a burguesia, o que contrariava imensamente o povo e os soldados que participaram da derrubada do tzarismo (ou czarismo). São relatados todos os movimentos dos partidos, que concorrem entre si; são lembradas todas as ideologias que conviviam nesse tempo confuso e de grande inquietação popular. A chegada de Lenin, pela estação Finlândia de Petrogrado, em 16 de abril de 1917, é uma das páginas mais interessantes do livro, pois o líder bolchevista volta de um longo exílio para unir os bolchevistas e atrair para o partido muitos outros seguidores, já que o bolchevismo ainda era minoria. Prepara-se, então, a tomada do poder pelo povo, o que só vai ocorrer em outubro, dez meses depois da deposição do tzar. Toda a movimentação política e ideológica que leva à revolução ocorre num momento em que a Rússia está envolvida com a primeira guerra mundial, sendo um dos países que formava a chamada Tríplice Entente juntamente com França e o Reino Unido, que combatia a chamada Tríplice Aliança, formada pela Alemanha, o Império Austro-Húngaro e a Itália. E esse fato é um grande complicador para os partidos de esquerda, envolvendo discussões sobre a continuidade da guerra e o interesse do partido no poder de usar a guerra para ampliar os domínios da Rússia, o que a tornaria um estado colonialista. Uma observação importante: citam-se dezenas de personagens que participaram dos eventos de 1917, alguns historicamente conhecidos, mas a maioria só pode mesmo ser lembrada por quem conhece profundamente a história desse momento na Rússia. No entanto, não se preocupe o leitor, já que isso não impede o entendimento dos fatos detalhadamente narrados por Trotsky. Enfim, esse primeiro volume não me assustou e não deve assustar a quem quer que deseje conhecer por dentro um dos acontecimentos mais marcantes da história do século XX.

terça-feira, 19 de maio de 2026

Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, Carolina Maria de Jesus

Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, Carolina Maria de Jesus


Por que ler Carolina Maria de Jesus hoje? Talvez esta não seja a pergunta correta, e sim: como ler Carolina Maria de Jesus hoje? Os tempos mudaram desde a publicação do livro “Quarto de despejo”, em 1960. Seu diário, que chocou a burguesia da época, cobre os anos de 1955-1960, parece um tanto ingênuo ao leitor de hoje, acostumado a ver nas “comunidades” (o nome politicamente correto para as favelas) a violência do tráfico juntamente com problemas recorrentes (embora num outro nível) dos anos cinquenta: falta de infraestrutura, ausência do Estado, preconceito das forças policiais, que veem em cada favelado um traficante, muita violência etc. etc. etc. Nossa escritora lá dos tempos do Juscelino, e é bom que marquemos isso, narra problemas de infraestrutura, muita pobreza, relacionamentos complicados e violência entre os moradores e, principalmente, a fome, muita fome (que é talvez a palavra que mais aparece no livro). Hoje a fome tem outros nomes, mais pomposos, como “insegurança alimentar”, mas ainda ronda muitas comunidades, ainda que em nível diferente do que acontecia na favela do Canindé, que existia às margens do Tietê, onde passa hoje uma grande e movimentada avenida, e onde tentava sobreviver catando papel nas ruas a nossa heroína e escritora. Tem ela noção exata de seu grau de pobreza e tem claras noções de política, já que critica todos os políticos, que só aparecem em tempos de eleição, eles, inclusive o presidente Juscelino, e com razão, já que seu governo se voltou para o desenvolvimentismo e esqueceu o lado social. É interessante notar que Carolina não fala de suas origens (ela é mineira de Sacramento, nascida provavelmente em 1914), nem como veio para São Paulo e acabou na favela. Também fala muito pouco de sua vida íntima, de seus amores. Só sabemos que tem três filhos pequenos (uma menina e dois meninos, provavelmente de pais diferentes). Seu diário foca, ressaltamos, o dia a dia da favela e os perrengues que todos passam para sobreviver à extrema pobreza, à desigualdades de classe, de gênero, de raça e à falta de perspectiva. Para concluir esse breve comentário, o diário de Carolina foi descoberto pelo repórter Audálio Dantas e foi um grande sucesso que, se permitiu que ela deixasse a favela, não lhe trouxe riqueza nem condições de viver dignamente até sua morte, de novo empobrecida, em 1977. Então, respondendo à pergunta, antes de encerrar: como ler Carolina hoje? – digo que se deve ler com o mesmo espanto de há mais de 70 anos, por ter o Brasil progredido tanto e não ter ainda resolvido a questão da desigualdade social.



domingo, 10 de maio de 2026

Elizabeth Costello, J. M. Coetzee

Elizabeth Costello, J. M. Coetzee


Elizabeth Costello é uma romancista australiana idosa que viaja pelo mundo dando palestras sobre temas variados, mas principalmente sobre as maldades que os seres humanos fazem com os animais, sobre a censura literária e vários outros temas. Numa viagem à Pensilvânia, com o filho John, para receber um prêmio, fala sobre Kafka, mas suas palavras não encontram boa repercussão entre o público, que não a compreende. Parece que ela se perdeu naquilo que era o seu principal métier de escritora de um antigo livro de sucesso, chamado A Casa da Rua Eccles, em que ela se apropria de uma personagem do romance Ulisses, de James Joyce, para contar a história da esposa do protagonista, Molly Bloom, sob a perspectiva feminista. Ou seja, está perdendo o jeito e a forma de encantar o público com suas palavras. Também num cruzeiro onde deve falar sobre realismo os aplausos são pouco entusiasmados. Na verdade, Elizabeth Costello é uma espécie de alter-ego de Coetzee que, através dela, desenvolve vários temas filosóficos e complexos da vida contemporânea. A palestra sobre o sofrimento dos animais, por exemplo, tem a coragem inaudita de tocar num tema sensível que é o holocausto, para comparar, grosso modo, o que os seres humanos fizeram uns com os outros no regime nazista e o que fazem com animais que consomem. Ao levar sua protagonista para a África, ao encontro de uma irmã que não vê há muito tempo e que realiza ali um trabalho humanitário, o autor discute através dela o conceito de humanidades e a filosofia grega, mostrando um certo desconforto para com os rumos que essas filosofias tomaram. No final do livro, a velha senhora se encontra numa espécie de limbo kafkiano, tentando explicar suas crenças diante de um tribunal absurdo, sem que se consiga chegar a uma conclusão satisfatória de sua filosofia de vida. Não é um romance fácil, ou melhor, nem tem exatamente a estrutura de um romance, mas sim de um quase um monólogo em que a personagem Elizabeth Costello está em busca de si mesma, através de suas palestras às vezes muito complexas e difíceis de entendimento pelo público a quem essas palestras se dirigem. Mas, tenho certeza de que um leitor atento e persistente ganhará muito com a leitura desse livro: a palestra sobre os animais, por exemplo, apesar de polêmica, é de arrepiar, pela beleza literária do texto e pelas questões éticas e humanas que levanta. Aliás, mesmo quando aborta temas como censura ou a dificuldade dos tempos atuais de entender os gregos ou aquilo a que chamamos humanidades, estamos sempre diante de um mestre da palavra a nos encantar com um estilo requintado e ao mesmo tempo envolvente.

sábado, 2 de maio de 2026

A cidade do sol, Khaled Hosseini

A cidade do sol, Khaled Hosseini


Um soco no estômago. Talvez o romance mais triste e cruel que já li. Uma coisa é ler reportagens sobre guerras, conflitos internos entre facções rivais, torturas de cidadãos por grupos que assumem o controle de uma região ou país, atentados terroristas etc. Outra coisa, muito diferente, é ler esses relatos todos sob a óptica de um escritor que ficcionaliza a realidade para melhor retratá-la. É o que faz o escritor afegão Khaled Hosseini, de quem já havia lido o também excelente “O caçador de pipas”. Este romance – “A cidade do sol” – foi lançado em 2007 e é importante marcar essa data. Conta a história de duas mulheres, duas jovens mulheres: Mariam, a mais velha, viveu até os 14 anos no interior do Afeganistão, filha bastarda de um rico comerciante que, ao morrer a mãe da garota, entrega-a como esposa a um violento sapateiro de Cabul; Laila nasceu e vive na capital, é filha de um intelectual e cresceu sendo incentivada a estudar e buscar uma carreira. Vizinhas, as duas só vão se encontrar mais tarde, quando, em pleno conflito entre facções políticas, entre os anos de 1990 e aproximadamente 2003, a família de Laila é dizimada pelos mísseis e ela é salva dos escombros por Mariam, que a leva para ser cuidada em sua casa, já que a infraestrutura do país está um caos e os hospitais, quando ainda existem, estão lotados de feridos e a cidade coalhada de mortos, além de patrulhada por bandos de milicianos armados e prontos a atirar em qualquer um. A juventude da garota não impede que o violento marido de Mariam, já desgostoso da mulher, que não consegue lhe dar um filho, a tome como segunda esposa. A partir daí, a vida de ambas vira um inferno, não só por causa da guerra, mas principalmente diante da violência do homem, incentivado pela tomada do poder pelos talibãs em 1996. A história do livro só termina em 2003, quando os talibãs são derrotados e a vida de uma das garotas, a sobrevivente, começa a melhorar, com a retomada da reconstrução do país. Marquei a data de lançamento do romance – 2007 – porque nessa época o Afeganistão ainda vivia sob um regime democrático e o autor comemora, quando encerra sua história em 2003, a condição de liberdade de suas personagens sobreviventes. No entanto, para terminar esse breve comentário sobre esse livro extraordinário, os talibãs voltaram ao poder em 2021, impondo de novo a interpretação estrita da sharia e transformando, de novo, a vida dos cidadãos e, principalmente restringindo e oprimindo as mulheres, com suas proibições absurdas. Ressalvado esse aspecto terrível da história do Afeganistão, o livro é uma lição e uma advertência para todos em relação aos sofrimentos causados pelas guerras e também em relação à mais do que perigosa mistura de política e poder com religião, além de ser uma grande obra da literatura mundial desse início de milênio tão conturbado por guerras e genocídios.