quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Revolução, crime político e loucuras – os discursos criminológicos e o anarquismo no Brasil (1890-1930), Bruno Corrêa de Sá Benevides

Revolução, crime político e loucuras 
– os discursos criminológicos e o anarquismo no Brasil (1890-1930), 
Bruno Corrêa de Sá Benevides


Quando li “Anarquistas, graças a Deus”, de Zélia Gattai, a prosa sensível e nostálgica da autora deixou-me a impressão de que o anarquismo quase ingênuo e algo romântico de sua família, ocorreu numa época tranquila para eles e para o país. Não condeno a autora, por isso, ao contrário: continuo achando sua visão e seu livro uma das melhores páginas que já li sobre essa doutrina que era demonizada, agora eu sei, no começo do século, pelas autoridades brasileiras. O livro de Bruno Benevides, na verdade uma alentada tese de doutoramento do autor, revela-nos traços complexos, para dizer o mínimo, da política brasileira do nos anos abordados pela obra: 1890-1930. O livro é longo, quase 500 páginas, muito bem documentado e muito bem embasado em obras e autores da Europa e do Brasil e em farta documentação, num retrato minucioso de como foi considerado o anarquismo no Brasil, nessas quatro décadas. Primeiro, sob o aspecto médico e científico: a medicina brasileira e, em especial, a medicina legal, abraçou a tese de Lombroso e seus inúmeros seguidores de que os indivíduos que defendiam teses libertárias, leia-se: anarquistas, eram doentes mentais, loucos, esquizofrênicos etc. Ou seja, lutar contra as injustiças sociais condenava os operários, principalmente, não só à prisão, mas ao asilo de loucos. Segundo, sob o aspecto policial: com a devida desculpa de que eram loucos, que pretendiam derrubar o governo e as instituições, a polícia de praticamente todos os estados, mas principalmente da capital Rio de Janeiro, dava-se o direito de prender sem mandado, de torturar e expulsar todo e qualquer “perigoso anarquista” que caísse em suas garras, através de patrulhas violentas e de relatórios de “secretas”, policiais infiltrados nos movimentos operários. Terceiro, sob o aspecto jurídico: às vezes, mesmo sem leis específicas, os tribunais, o Supremo Tribunal Federal à frente, condenavam e permitiam a expulsão de quaisquer estrangeiros acusados de serem anarquistas, essa “praga” internacional. Quarto: sob o aspecto político: deputados e senadores, em sua maioria, se esmeravam em condenar através de discursos irados toda e qualquer ideia anarquista, baseados, claro, nas informações científicas de médicos, psicólogos e psiquiatras que seguiam a linha de raciocínio lombrosiana e apresentavam, com sucesso, leis e mais leis que permitiam e incentivam as prisões arbitrárias de anarquistas. Tudo isso, o leitor já pode concluir, muito bem documentado pelo autor em seu livro, que é um libelo contra a arbitrariedade, contra o absurdo de perseguições a movimentos operários que, principalmente na época, lutavam por direitos mínimos de sobrevivência, por melhores salários e melhores condições de trabalho, em geral condições insalubres e salários de fome. Enfim, um tempo de sofrimento, de terror, de perseguições e tortura de pessoas que queriam somente uma vida melhor. Um livro imperdível, para quem deseja conhecer um pouco mais da história recente de nosso Brasil, desse país que insiste ainda em eleger indivíduos golpistas que defendem teses neonazifascistas.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

A maçã envenenada, Michel Laub

A maçã envenenada, Michel Laub


Em 1993, em Porto Alegre, o narrador tem 18 anos e namora Valéria, uma jovem um pouco mais experiente que ele e um tanto complicada. Combinaram assistir juntos ao show do Nirvana, no estádio do Morumbi, em São Paulo. Compraram os ingressos e passagens. Ela viajou primeiro, com um amigo dele. Mas, o rapaz fazia o CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva), como serviço militar obrigatório e não conseguiu fugir do quartel, o que o levaria à prisão. Em 1994, o líder da banda, Kurt Cobain se suicidou com um tiro de espingarda. Na mesma época, a jovem ruandesa Immaculée Ilibagiza ficou presa dentro de um banheiro, juntamente com outras sete mulheres, para fugir ao genocídio praticado por uma organização paramilitar hutu contra outras minorias, principalmente tutsis, no qual morreram quase todos os membros de sua família. Em torno desses dois acontecimentos, o autor/narrador entretece sua passagem pelo exército, seu romance com Valéria, sua vida de estudante e músico de uma banda de garagem, sua vida em Porto Alegre e, depois, suas viagens, para comentar com emoção, lirismo e, às vezes, uma certa secura e desalento, as diferenças de universos tão díspares quanto o mundo da música e do quartel, sobre o que pensam, o que leem e que música ouvem os jovens dessa época, seus sonhos e dissabores e sobre a própria vida, num tempo de idolatrias e mudanças. O livro é também sobre perdas e solidão, sobre conseguir sobreviver apesar de todos os percalços, e ainda uma reflexão sobre o suicídio. Parece mórbido? Não para a forma como tudo se mistura na prosa muito bem articulada do autor, para que essa história – às vezes triste, às vezes um tanto irônica – não chegue ao leitor como um fardo pesado, mas com a leveza de uma pluma, apesar da carga de uma maçã envenenada, como na canção de Kurt Cobain, Drain you.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A desumanização, Valter Hugo Mãe

A desumanização, Valter Hugo Mãe


Halla, a personagem principal do livro, tem apenas 11 anos e sofre a perda de sua irmã gêmea, Sigridur, cujo corpo é “plantado” no alto de uma geleira na gélida Islândia, onde transcorre um dos dramas mais pungentes jamais narrados em língua portuguesa. A memória da irmã irá pautar e permanecer durante toda a trajetória dessa garota que vive e percorre os caminhos e os fiordes, contaminada pela solidão da paisagem de sua terra natal. Um conselho que ela traz da irmã – jamais namore o Einar, um jovem mais velho e, na descrição inicial da menina (que é a narradora) um tanto feio. No entanto, será ele o companheiro que irá conquistá-la e de quem vai se engravidar aos 12 anos. A criança nasce morta e a descrição desse fato é um dos trechos (entre vários outros) de grande potência emotiva. Halla tem a compreensão e a camaradagem do pai, um sonhador e poeta, mas sofre com a frieza e até uma certa violência da mãe, o que a leva a sair de casa e passar a morar num pequeno cômodo na igreja, arranjado por Steindór, um solteirão amável e amigo de todos, que é uma espécie de sacristão, já que a paróquia está sem um prior. No entanto, a chegada de uma tia, irmã de sua mãe, irá complicar a vida do casal, quando essa tia e o sacristão resolvem se casar, provocando em Einar memórias de um passado terrível. Toda a narrativa é desenvolvida a partir do ponto de vista de Halla, numa linguagem poética e de grande poder de sedução para o leitor, ao retratar a melancolia, o desamparo, a transitoriedade da vida e, principalmente, o luto, o que deixa marcas profundas não só no desenvolvimento das personagens, como também na lembrança de quem se aventura por esse livro que, na sua simplicidade extremamente poética, constitui uma das obras mais belas e interessantes da literatura contemporânea.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O ar que me falta – história de uma curta infância e de uma longa depressão, Luiz Schwarcz

O ar que me falta – história de uma curta infância 
e de uma longa depressão, Luiz Schwarcz


O subtítulo entrega o que se vai ler, mas essa entrega nada tem de lamentação, porque a perspicácia do autor ao contar sua história não permite em nenhum momento a autocomiseração. Como centenas ou milhares de famílias judias que conseguiram escapara à sanha nazista, seu avô e outros familiares, inclusive de sua mulher, acabaram por virem para o Brasil em busca de uma nova vida, em busca da paz. São histórias semelhantes a essa que pode levar a algum leitor desavisado a pensar que é só mais uma história de sofrimento de judeus perseguidos. No entanto, as milhares das vidas que sobreviveram precisam, sim, ser contadas, porque o sofrimento causado aos milhões de judeus (e a outras etnias) pelos nazistas parece não ser suficiente para que se convençam da maldade absoluta do nazismo, é preciso que se individualizem os casos, que se deem nome às pessoas, e só então, talvez, possamos erradicar para sempre de nossa sociedade ideias neonazifascistas. Mas, vamos ao livro: o pai do narrador, húngaro, foi empurrado pelo pai de dentro de um trem a caminho de um campo de extermínio e conseguiu sobreviver. A mãe, croata, fugiu com a família, ainda muito pequena, primeiro para a Itália e depois para o Brasil. Aqui, os dois se encontraram e se casaram, tendo um filho único, Luíz. O passado doloroso e sombrio da família vai aos poucos sendo desvendado por esse filho que, desde menino, começa a desenvolver um quadro crônico de depressão, que se agrava na vida adulta, mesmo quando, já um empresário de sucesso, à frente de uma grande editora, as crises se tornam agudas e os múltiplos tratamentos psiquiátricos e medicamentosos teimam em falhar. É essa depressão, que o autor insiste em dizer que não sabe se tem origem genética, a grande personagem do livro. E, repito, não há autocomiseração, apenas o relato de vidas complexas e de uma síndrome que afeta milhares de pessoas e que exige tratamento caro e especializado que, como o autor diz, nem sempre está ao alcance de famílias menos abastadas. Enfim, um relato sensível e bem articulado, para se ler como uma história de sofrimento, mas também de superação e de advertência quanto a esse mal terrível que, muitas vezes, não é compreendido, a depressão.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Morte em pleno verão, Yukio Mishima

 Morte em pleno verão, Yukio Mishima


O título do livro refere-se ao título do primeiro dos dez contos dessa obra de um autor que trafega entre o tradicional e a modernidade num Japão de pós-guerra. Todos os contos são primorosos e têm sempre um final aberto, aberto para a imaginação do leitor, ainda que trate temas espinhosos. O primeiro conto trata de uma longa reflexão sobre o luto, já que uma família perde três membros num mesmo evento: dois filhos e a irmã do marido. O segundo conto, “O biscoito de um milhão de ienes” leva-nos a um detalhado momento da vida de um casal que não se define entre um “trabalho estranho” de ambos ou ganhar mais dinheiro. Em “A garrafa mágica”, um reencontro de dois amantes em Nova Iorque traduz as preocupações do autor com a ocidentalização, além de nos levar a um ambiente de sexo e mistério. Já em “O amor do homem santo de Shiga”, Mishima trata da tradição japonesa tanto histórica quanto literária e religiosa, para nos trazer a tensão entre o mundano e o sagrado. Chegamos ao quinto conto, “Até a última ponte”, em que quatro mulheres buscam realizar seus desejos num cerimonial que inclui passar por sete ponte no mais absoluto silêncio. Será que conseguirão? Ironia e um humor sutil pontua o conto. O que faz um trágico contraponto com “Patriotismo”, onde o autor descreve com minúcias uma relação de amor, sensualidade e morte, ao relatar o suicídio ritualístico do casal, talvez antecipando sua própria morte. De arrepiar. Em “Dojoji”, o autor volta-se para o que ele chama de “moderno teatro nô”, misturando elementos europeus e tradicionais na encenação de uma peça de teatro. “Omnagata”traz alguns dos temas obsessivos do autor, com amor, ciúme e transexualidade. Com humor e ironia, os dois últimos contos, “As pérolas” e “Papel-jornal” trazem reflexões sobre ética, quando um grupo de mulheres se reúne para um chá e a pérola de um anel desaparece; e quando a jovem e bela esposa de um ator famoso não se conforma com o destino do bebê da babá de seu filho e imagina reencontrá-lo já adulto dormindo num parque, num final surpreendente e misterioso, como quase todos os textos desse livro mais do que interessante, instigante e de leitura absolutamente envolvente. A milenar literatura japonesa não nega fogo, nunca. Seus autores modernos e contemporâneos constituem uma deliciosa surpresa para quem gosta de boas histórias e excelente literatura.


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Nossa parte de noite, Mariana Enriquez

Nossa parte de noite, Mariana Enriquez


A violenta ditadura militar na Argentina durou de 1976 a 1983, tempo suficiente para atrocidades como tortura, prisão e morte de milhares de pessoas, bebês sequestrados etc. O tempo do romance “Nossa parte de noite” ultrapassa o tempo da ditadura, tanto para trás como para frente, mas tem como pano de fundo principal os horrores cometidos pelos militares. A história do romance é longa e complexa. Uma sociedade secreta, trazida da África para a Argentina há séculos é comandada pela família Reyes, cujos membros, em busca da eternidade, realizam rituais para uma entidade chamada Escuridão, para os quais há necessidade de um médium. Menino ainda, Juan foi detectado com um poderoso xamã para a seita e a família o adotou, principalmente porque ele precisava de cirurgias complexas para salvar sua vida. Juan cresceu dentro dos rituais, como médium, sabendo, no entanto, que a Escuridão consumia sua vida e ele teria pouco tempo de vida, além do fato de que esses rituais eram extremamente violentos: a entidade exigia muitos sacrifícios humanos, principalmente de crianças e jovens, mantidos engaiolados pela família. Casa-se com uma herdeira dos Reyes, Rosario, e com ela tem um filho, Gaspar. A partir daí, dedica sua vida a tentar proteger esse filho da sanha dos rituais violentos, já que ele seria seu sucessor. Como pai, justamente por saber que a família faria tudo para aprisionar a criança e porque sofre dores terríveis em consequência dos rituais, tem crises alternadas de violência e carinho para com o filho, que cresce sem entender por que o pai tinha tais atitudes para com ele, principalmente depois da morte misteriosa da sua mãe, aos 4 ou 5 anos. Depois que seu pai também morre, Gaspar, herdeiro não só da tradição mediúnica da família, mas também da sua enorme riqueza, é criado por um tio, Luís, irmão de seu pai. Depois que sua melhor amiga de infância desparece misteriosamente, quando seu grupo de amigos invade uma casa assombrada no bairro onde moram, Gaspar cresce com crises diagnosticadas por médicos como sendo várias doenças mentais, sem que se chegue a um diagnóstico definitivo, porque o que ele sofre são as consequências de sua origem. Vai, então, em busca de explicações e se depara com os mistérios da Ordem e da Escuridão, contra as quais trava um combate mental e físico, para não ser envolvido pelos seus rituais, como não desejava seu pai. Uma história, repito, complexa, contada com detalhes de horror e medo, num romance de estilo gótico, por uma escritora que domina a técnica literária com que envolve o leitor da primeira à última página, ao combinar todo o mistério da trama ficcional com os dramas humanos da população argentina, não só relacionados à ferocidade da ditadura, mas também à chegada da Aids. Talvez uma grande metáfora de um período de trevas e sofrimento. P.S.: aqui mesmo, neste blog, o leitor pode encontrar a resenha de outro livro seu: “As coisas que perdemos no fogo”.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Nomadland: Sobrevivendo aos Estados Unidos no século XXI, Jessica Bruder

Nomadland: Sobrevivendo aos Estados Unidos no século XXI, Jessica Bruder


A paixão dos estadunidenses por RVs (veículos de recreação) e trailers teve um primeiro boom na década de 30, mas arrefeceu nos anos seguintes. Mas voltou com tudo, quando a bolha imobiliária estourou em 2008, milhares perderam as casas e os empregos, principalmente a classe média constituída de pessoas mais velhas, os 50+, expulsos do mercado por uma série de motivos, inclusive por etarismo. A solução para essas pessoas não era morar nas ruas, tornar-se homelless (sem teto). Eles passaram a ser sem-casa, não sem teto, porque começaram a adaptar RVs, trailers, ônibus e vans como moradia nômade, para cruzar os Estados Unidos em busca de trabalho temporário e mal pago em grandes empresas, como em galpões da Amazon, ou em colheitas sazonais que exigiam aumento de mão de obra não especializada, para complementar os baixos rendimentos de aposentadorias ou mesmo como forma de sobrevivência. O país se tornou a terra dos nômades. E é dessa população que trata o livro de Jessica Bruder, na verdade uma longa reportagem que mergulha nos Estados Unidos profundos, aquele país que não aparece nas propagandas e não é visto nas grandes cidades ou nas cidades turísticas. O fio condutor da história, que podemos chamar de protagonista, é Linda May, uma semiaposentada de pouco mais de 60 anos ex-quase-tudo: garçonete, caixa de loja de departamento, empreiteira e avó Linda May. A jornalista pega a estrada num veículo de segunda mão, apelidado de “Van Halen”, para se aproximar de seus alvos e conhecer pessoas, além de Linda, como um ex-professor, um executivo do McDonald's, um ministro de igreja, um policial aposentado e veteranos de guerra, entre muitos outros. Relata com sensibilidade suas vidas, seus perrengues, sua criatividade na busca de empregos, na reforma de seus veículos, na busca de lugares seguros para estacionar, na tentativa de evitar encontros com policiais mal-humorados, na realização de encontros e festas em lugares distantes e ermos. Mas, também é uma população que não perde nunca a esperança e tem na força do trabalho, ainda que mal pago, a busca da realização de sonhos que podem parecer até mesmo absurdos, como a da protagonista Linda, que sonha construir em algum local distante uma earthship, casa autossustentável (projetada pelo arquiteto Michael Reynolds), construída com pneus compactados e materiais reciclados. Estamos diante de uma nova realidade que deixa distante a ideia do “sonho americano” de segurança e prosperidade. A autora afirma que os Estados Unidos são, entre os países desenvolvidos, aquele que possui a maior desigualdade social: nas médias salariais, a diferença entre o menor e o maior salário é de 81 vezes. Esse o lado sombrio da “grande nação”, hoje governada por um idiota que gasta bilhões numa guerra absurda contra o Iraque e ameaça o mundo não só com tarifas, mas também com anexação de territórios. Não sei como estão sobrevivendo à era Trump os sem-casa, os nômades que aceitam até mesmo os empregos anteriormente tidos como degradantes, como lavar latrinas, já que o livro termina em 2017, quando a autora nos conta que Linda está começando a realizar seu sonho de uma “earthship”, num terreno localizado na fronteira com o México, no sul dos Estados Unidos. Uma grande reportagem para ser lida por quem não acredita na “terra dos sonhos” ou, para quem ainda acredita tomar um banho de realidade sobre o “grande irmão” do Norte.