Vento em setembro, Tony Bellotto
Há muito não mergulhava na voragem de uma boa literatura policial ou de mistério. Enquadra-se mais, aliás, na segunda categoria o romance de Bellotto. E é realmente não um vento, mas uma ventania que nos pega desde as primeiras páginas e nos obriga a ler na velocidade mesma dos acontecimentos narrados. Vou dar apenas um pequeno vislumbre da trama, para poder comentar um pouco mais esse livro. Na década de 70 do século passado (e isso está ali mesmo e parece que foi há muito tempo), um poderoso fazendeiro de soja da cidade do interior de São Paulo, Assis, promove uma orgia com inúmeros convidados e prostitutas da região, para o “descabaçamento” do filho mais novo, Alexandre. Contrata para o “evento” uma famosa prostituta de São Paulo, a deslumbrante Laura, que tem um irmão gêmeo homossexual. O garoto, tímido e desconfortável com tudo aquilo, resolve simplesmente desparecer da festa, que transforma, não só a festa, mas também a vida de Máximo Leonel e sua família, a mulher e seus dois outros filhos num pandemônio. Até aí, pensamos que estamos diante de um narrador onisciente, mas logo após a tal orgia, apresenta-se a nós a personagem Davi Zimmerman como sendo o narrador da história – e personagem! Jornalista e escritor, publicou um livro em que mistura fantasia e realidade sobre a vida de Aleijadinho. Numa sequência intrigante, baseada nas informações do livro, alguém começa a pichar os profetas e muros de igrejas de Congonhas e Ouro Preto, com a frase de Nietzsche, “Deus está morto”, o que o leva a se envolver numa complexa trama que resulta na busca, meio edipiana, de seu passado, de sua identidade, aí sim, numa voragem de acontecimentos de deixar o leitor sem fôlego. A literatura dita de mistério, ou policial, não tem por tradição mergulhos psicológicos ou digressões filosóficas, ou seja, as personagens não se verticalizam ou só o fazem através da ação. E ação é o que não falta no excelente romance de Tony Bellotto, além de uma quantidade enorme de referências culturais e citações, o que me deixou encantado por reconhecê-las quase todas, desculpando-me o leitor destas linhas a modéstia, Enfim, para quem gosta de literatura de mistério, sem dúvida, uma obra altamente recomendável para se ler num fim de semana friorento, degustando um vinho, que boa diversão não faltará.






