sábado, 28 de março de 2026

Amsterdam, Ian McEwan

Amsterdam, Ian McEwan


Uma trama complexa, com muitas camadas de interpretação, escrita com a maestria de quem domina sua arte, contada por um narrador onisciente, mas com o uso do discurso indireto e indireto livre e inserções de sonhos, fantasias e fatos passados. O livro começa com a cena do funeral de Molly Lane, que teve um final longo e humilhante de declínio mental, tornando-se dependente de seu marido, George. A esse funeral, comparecem três ex-amantes de Molly: Clive Linley, compositor de música erudita, que está vivendo um drama complicado de inspiração e não está conseguindo terminar uma encomenda, uma sinfonia para o terceiro milênio; Vernon Halliday, jornalista e editor de The Judge, um jornal importante, mas decadente; Julian Garmony, ministro das relações internacionais, político ambicioso que pretende se tornar primeiro-ministro da Inglaterra. Garmony e George são odiados por Clive e Vernon, por causa de suas posições de ultradireita. Os dois, amigos de longa data e unidos pelo passado com Molly, fazem um pacto de eutanásia recíproca, se um deles chegar ao estágio de sua ex-amante. Vernon recebe de George fotos íntimas e comprometedoras de Garmony, tiradas por sua mulher. Os dois amigos divergem quanto à publicação e a situação entre ambos se complica e a situação de cada um dos amigos também se complica, pois há questões morais e éticas em jogo na vida de ambos, o que leva a romperem a amizade, mas precisam retomá-la e perdoar um ao outro. Para selar essa reaproximação, Vernon e Clive viajam para Amsterdam, onde o compositor pretende apresentar a versão final de sua sinfonia, finalmente concluída, e é nessa cidade que eles acertam as contas um com o outro, num final surpreendente e digno de um thriller em que as personagens se revelam por inteiro e suas escolhas acabam por mostrar seu verdadeiro caráter. Além das questões morais e éticas, podemos entrever na trama uma acerba crítica social e política, ressaltando que o livro foi publicado em 1998, em plena era da conservadora primeira-ministra Margaret Thatcher. Concluo afirmando que é um dos melhores romances desse grande escritor inglês que eu já li. Vale a pena, vale muito.

terça-feira, 24 de março de 2026

Klara e o Sol, Kazuo Ishiguro

Klara e o Sol, Kazuo Ishiguro


Vou começar essa breve resenha do livro do escritor nipo-anglicano Kazuo Ishiguro, com uma breve digressão: uma pessoa tem alguém da família que tem uma doença grave. De acordo com sua crença, vai a um santuário e pede fervorosamente a seu deus que cure a pessoa querida e, em troca, fará algo, como, por exemplo, uma longa caminhada a pé... Essa pessoa cumpre o prometido e fica esperando a cura. Até que, um dia, o doente melhora e acaba se curando. Durante todo esse período, o doente teve todo o acompanhamento médico, tratamento etc. Mas... o crente vai estabelecer uma falsa ideia de causa e consequência, ou seja, o doente se curou porque seu deus atendeu a seu pedido. Vamos ao livro: Klara é uma robô humanoide AA (Amiga Artificial) cuja bateria é alimentada pela luz solar, o que a leva a deduzir que o Sol é um astro muito poderoso e, por isso, acompanha sua trajetória entre os prédios da cidade sempre que possível. Sua inteligência e capacidade de apreensão é acima do normal dos indivíduos de sua espécie. Na loja onde está à venda, alterna dias no fundo da loja com dias na vitrina, quando aguça sua percepção observando o movimento da rua e, claro, do Sol. Um dia, observa que o mendigo e seu cão, habituais da rua, estão deitados inertes na calçada oposta há muitas e muitas horas e deduz que ele está muito doente. Ao amanhecer do dia, quando o Sol bate diretamente sobre eles, o mendigo e o cão despertam e voltam às atividades normais de todo mendigo. Escolhida por uma mãe e sua filha para cuidar da garota, que tem algum tipo de doença que poderá levá-la à morte, Klara, em seu novo lar, no campo, descobre que o Sol se põe, na sua percepção de robô, atrás de um celeiro localizado numa colina próxima. Com a ajuda de um amigo da garota, vai até lá e promete ao Sol que acabará com a poluição, destruindo uma determinada máquina que ela vira, nos tempos da loja, soltando muita fumaça e poluindo o ambiente, se ele enviar energia para a garota e curá-la. Bem, a narrativa é longa e cheia de detalhes. A ressaltar que tudo o que lemos é contado sob o ponto de vista de Klara, de forma que só sabemos o que ela sabe, só vemos o que ela vê e tudo o que ela vê, sabe e “sente” tem o viés da visão de sua inteligência artificial, mas devidamente formatada de um modo específico, o que a torna única. Quando a garota se cura, numa cena de arrepiar (sob o ponto de vista de Klara, graças à luz do Sol), a AA estabelece como causa a energia do Sol, em consequência de seu pedido e suas ações, determinando para mim a ideia central da narrativa: que os humanos, ao construir máquinas pensantes, passam para elas não só conhecimentos, mas também suas crenças e superstições. Há muitas outras implicações no livro, em termos de relação homem x máquina, num futuro e numa cidade não identificados pelo autor, o que nos surpreende a cada página. A narrativa é leve e paradoxalmente complexa, detalhista, cuidadosa em levar o leitor a mergulhar no ponto de vista exclusivo e limitado de Klara, porém de uma forma muito sedutora. Um grande romance da ficção científica contemporânea, cujo autor e obra valem a pena conhecer.


quinta-feira, 19 de março de 2026

Depois a louca sou eu, Tati Bernardi

Depois a louca sou eu, Tati Bernardi



A roteirista da rede Globo e escritora Tati Bernardi escreve uma espécie de autobiografia ficcional, ou seja, baseia-se em experiências pessoais para criar os textos desse livro, mas exagera os fatos, com intenção satírica e humorística. O resultado é bastante interessante e até agradável de ler. Não é, no entanto, uma narrativa sequencial: são crônicas praticamente independentes umas das outras, mas que acabam formando um todo. Tema do livro: dependência química de remédios tarja-preta, como forma de superar crises do pânico. A autora conta experiências de crises desde a infância, agravadas pouco a pouco durante a adolescência e a fase adulta, só superadas com muito esforço e muita terapia, mas principalmente por uma vontade férrea de se livrar dos medicamentos, o que ela narra no último texto do livro. As crises de pânico provocavam nela efeitos catastróficos para a vida diária, como manina de organização, cabeça fervilhante de pensamentos absurdos, mãos trêmulas, falta de ar, falta de vontade de viver, desmaios, fobias, como viajar ou sair de casa ou pegar um avião. Em reuniões de trabalho ou sociais, as crises forneciam motivos para vexames e afastamento de amigos e colegas de trabalho, e ela tinha de fazer esforços inauditos para participar das reuniões de trabalho. Até mesmo a vida íntima e sexual era afetada, e ela conta que teve inúmeros namorados que não davam certo porque vários também tinham problemas semelhantes e depois a louca era sempre ela. Bem, se parecem engraçadas para muitas pessoas as situações narradas, tenho para mim que são mais trágicas e complexas, já que se trata de situações que, embora contadas de forma exagerada, provocam muito sofrimento. Apesar disso, eu acredito que a leitura desse livro nos leva a não mais pensar, como muitas pessoas pensam, que é “frescura” o sofrimento psíquico, por pura falta de conhecimento e de empatia. O leitor pode até divertir com as situações narradas pela autora, mas não deixe de, também, refletir que crises de pânico e tantas outras síndromes de origem psíquica provocam muitos transtornos na vida dessas pessoas, com consequências às vezes trágicas, então que não fique apenas no divertimento, ok?


terça-feira, 17 de março de 2026

Kim, Rudyard Kipling

Kim, Rudyard Kipling


Um livro para se ler com vagar e atenção: uma viagem cheia de detalhes e pequenas narrativas pelas várias regiões da Índia, com seus usos e costumes, sua cultura e suas crenças, suas paisagens, estradas e caminhos e sua cultura, no final do século XIX, provavelmente no período de 1893 a 1898. A personagem central é Kimball O'Hara, um menino branco, talvez o “mais pobre dos brancos”, órfão de pais irlandeses que morreram na miséria. O garoto vive pelas ruas, mendigando e aplicando pequenos golpes, para sobreviver, quando consegue um emprego com um comerciante de cavalos, Mahbub Ali, um paquistanês (pashtun) agente do serviço secreto britânico. Faz amizade com um lama tibetano que está tentando libertar-se da “roda de coisas”, um conceito budista que se refere ao fluxo da vida, do nascimento até à morte, do qual só se consegue escapar pela iluminação. E a iluminação desse monge está no encontro de um determinado rio milagroso, por cuja procura ele viaja por todo o país, agora com o seu “chela” (discípulo), o jovem Kim. Ao ser incumbido por Mahbub Alli de levar uma mensagem ao chefe dos serviços secretos britânicos em Umbala (uma cidade do norte da Índia), Kim acaba por ser recrutado e enviado para estudar numa grande escola, onde fica por mais ou menos três anos e, depois, volta a ser o “chela” do lama tibetano. Acaba se envolvendo em espionagem e no roubo de documentos secretos dos russos (que estão tentando minar o domínio britânico da região), viaja com o lama por inúmeras regiões e a amizade entre os dois se aprofunda de tal forma que, ao final, mestre e discípulo terminam encontrando juntos o rio da “grande iluminação”. Apesar de tantas peripécias por que passa o jovem, dentro de um contexto político complexo e cheio de traições, perseguições e atentados, o que nos comove em sua trajetória é o amor que ele nutre pelo velho monge, o lama que o conduz pelos caminhos do conhecimento e da vida. Publicado em 1901, está entre os grandes romances do século XIX, sem dúvida ainda uma leitura prazerosa, mesmo hoje, em pleno século XXI.


sábado, 7 de março de 2026

Os despossuídos, Ursula K. Le Guin



Os despossuídos, Ursula K. Le Guin


Uma história de ficção científica utópica e distópica: num futuro distante, dois planetas gêmeos – Urras e Anarres – têm civilizações opostas. Anarres é inóspito, sujeito a longos períodos de seca, mas seus habitantes são resilientes, porque criaram um sistema social dentro dos princípios da filósofia anarquista: não há leis nem governos, numa sociedade quase perfeita, mas que vive na pobreza e luta insanamente pela sobrevivência. Urras, ao contrário, tem um sistema capitalista e é um mundo de abundantes recursos, porém dividido em vários estados-nação que, em meio a extremos de riqueza e pobreza, dois deles estão em guerra para estender sua influência – e seu sistema político – sobre os demais. Shevek é um jovem cientista de Anarres que desenvolve uma teoria dentro da física, sua especialidade, chamada Teoria da Simultaneidade, que pode mudar os destinos de ambos os planetas e, como não encontra apoio em seu planeta, resolve viajar para Urras, mesmo que isso seja algo tão inusitado, que ele pode se condenar a não mais poder voltar a Anarres. Enquanto narra a trajetória de seu protagonista, suas relações de amor e amizade em ambos os planetas, suas dificuldades e as artimanhas de adversários poderosos, a autora desenvolve e discute inúmeras questões sobre o existencialismo, os sistemas de poder e as tramas políticas que os seres humanos criam para buscar o domínio de uns sobre os outros ou para que poucos lucrem enquanto a maioria empobrecida trabalha para sustentá-los. Deixa para nós, uma questão fundamental: será que é possível encontrar o equilíbrio político e social, de modo que possamos construir uma sociedade que não destrua o meio ambiente (como acontece com o planeta Terra, em uma breve referência no livro), que consiga superar as desigualdades e viver em paz? Enfim, uma ficção que cria mundos utópicos e distópicos para nos fazer pensar sobre qual destino nós, seres humanos e terráqueos, queremos construir e deixar como herança para nossos descendentes.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O pensamento hétero e outros ensaios, Monique Wittig

O pensamento hétero e outros ensaios, Monique Wittig


“Lésbicas não são mulheres”. Quando Monique Wittig encerrou sua palestra, em 1978, durante a convenção anual da Modern Language Association (MLA) em Nova York, houve um silêncio perturbador, seguido de debates acalorados. Ela havia começado a romper com um a ideia de que as categorias de gênero “homem x mulher” fossem algo natural e argumentava que a heterossexualidade é um regime político forçado, ou seja, são categorias econômicas de dominação e, portanto, se prevalece hoje o patriarcado, não haverá nenhuma mudança para as lésbicas (e, por extensão, para as sexualidades alternativas), se prevalecer o matriarcado: mudarão apenas de opressor. Portanto, ao leitor que pretende explorar os textos de Wittig, advirto: esqueça tudo quanto ouviu falar sobre feminismo e libertação da mulher. O buraco é bem mais em baixo. Prepare-se para novos paradigmas. O que ela prega é a destruição do pensamento que divide a humanidade em dois polos, a heterossexualidade. Não se deve pensar em termos de “homem” e “mulher”, mas sim em termos de busca de identidade e liberação do desejo do ser humano como tal, sem categorizações opressoras. Por isso, “lésbicas não são mulheres”, pertencem a uma outra categoria da humanidade, por não servirem aos homens e, consequentemente, não irão servir também às mulheres. Liberdade total. Superação, repito, de velhos paradigmas. Tudo isso e muito mais estão nos textos da autora. Sem dúvida, um tijolo incômodo para muita gente, na construção de um pensamento que extrapola as esferas da sexualidade, para buscar mudanças profundas no relacionamento humano, inclusive com a superação das desigualdades sociais e buscar políticas que libertem o ser humano do jugo da exploração capitalista. Ousado, não? Mas necessário e fundamental, o pensamento de Monique Wittig, para começarmos a entender muita coisa boa e ruim que tem acontecido neste mundo de predominância do pensamento heterossexual, onde o poder do macho sobre a vida das mulheres tem-se expressado de maneira cada vez mais violenta. Violência que se estende a todos e todas que não seguem essa cartilha absurda da heterossexualidade.


terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Uma dobra no tempo, Madeleine L’Engle


Uma dobra no tempo, Madeleine L’Engle


Viagens no tempo são uma espécie de obsessão dos escritores de ficção científica. Vencer as distâncias intergaláticas, que se contam por anos luz, incendeia as imaginações e provoca boas histórias. Madeleine L’Engle se aventurou nessa distopia em 1960, e consegue convencer seus jovens leitores (o livro é para um público adolescente) até hoje, já que a “dobra no tempo” não tem nenhuma explicação na história: apenas acontece por obra e graça de três mulheres de outras galáxias, descritas apenas (na tradução para o português) como senhora Quequeé, senhora Qual e senhora Quem que, por acaso, são vizinhas dos três jovens que irão viajar pelo tempo e pelo espaço, para resgatar o pai de dois deles, um cientista que desapareceu a serviço da NASA, que está preso pela matéria escura num planeta perdido de uma galáxia distante. Sobre o enredo, não muito complexo, mas instigante, não há muito mais a falar, sem tirar do leitor as “surpresas” preparadas pela escritora. Tudo se passa em lances de coragem, sorte e um certo cientificismo que não deve se aprofundar em detalhes, para não confundir a cabeça dos pequenos leitores, que devem, sim, se divertir ao acompanhar as peripécias da geniosa Meg, do garoto superdotado Charles e do esperto Calvin. Há também uma mistura de misticismo e religiosidade na aventura dos três, o que, talvez soe estranho aos dias de hoje ou, pelo menos, a mim não agradou. Não é por isso, no entanto, que deixo de recomendar a leitura, como diversão, como introdução ao mundo misterioso da ficção científica e a um certo cientificismo, que pode ser útil para despertar nos jovens o interesse pela ciência.