A narrativa de Artur Gordon Pym, Edgar Allan Poe
Positivamente, não é romance “comum”, principalmente por ter sido o único escrito pelo autor, em 1838, renomado contista e poeta. Complexo e detalhista, tem como narrador o jovem que dá título ao livro, o que nos leva a uma estranheza, principalmente pelo final brusco e inacabado. Não é fácil lidar com todos os termos e detalhes náuticos, tanto em relação às denominações ligadas às diversas peças dos navios da época, quanto às posições geográficas das viagens narradas, embora tais termos, se o leitor não se preocupar com eles, não interferem significativamente na leitura. Vamos a um breve resumo da obra. A história se passa entre 1827 e 1828 e narra a trajetória do jovem Arthur Gordon Pym, que embarca clandestinamente em um baleeiro chamado Grampus. Isolado num compartimento insalubre, espera durante muitos e muitos dias o aviso do amigo Augusto para sair daquele local, o que só acontece depois de um motim a bordo. A partir daí, diversas aventuras e desventuras acontecem com Pym, incluindo naufrágio, canibalismo, muita fome e sede, antes de ser salvo pela tripulação do Jane Guy. A bordo deste navio, Pym e um marinheiro chamado Dirk Peters continuam suas aventuras rumo ao sul, já que somente eles dois se salvaram do naufrágio do Grampus. Numa região do Pacífico próxima ao polo sul, encontram, numa ilha, nativos hostis de pele negra, que massacram toda a tripulação da escuna Jane Guy. Somente Pym e Peters conseguem escapar e voltar para o oceano numa embarcação precária capturada aos indígenas. O romance termina abruptamente com Pym e Peters seguindo em direção ao Polo Sul. Uma breve nota pós-escrita, aparentemente escrita pelos editores do livro, explica que Pym morreu em um acidente e especula que seus dois ou três últimos capítulos se perderam com ele, embora assegurem ao público que os capítulos serão restaurados ao texto caso sejam encontrados. A nota explica ainda que Peters está vivo em Illinois, mas não pode ser entrevistado no momento. Há muitas referências náuticas de navegadores do século XVIII e influência de vários autores, como Daniel Dafoe (Robinson Crusoé), e outros que defendiam teorias estranhas, como a da terra oca, o que explica alguns detalhes das águas polares, de cores e temperaturas não condizentes com a realidade. Para terminar esse breve comentário, acrescento que, apesar de toda a estranheza e mesmo toda a violência de algumas cenas, essa aventura náutica teve defensores (e também detratores) ferrenhos e influenciou muitos autores posteriores, como, Henry James e Arthur Conan Doyle, além de ter sido fortemente elogiado por Jorge Luís Borges.






