O desafio poliamoroso – por uma nova política dos afetos, Brigitte Vasallo
Mesmo para o leitor mais “descolado”, o livro é um desafio, o que acontece sempre que alguém defende ideias que ultrapassam aquilo que se considera “senso comum”, principalmente num aspecto humano dos mais complexos que são as relações amorosas e familiares. Pode não ser uma ideia nova, mas defendida com novos e profundos argumentos, o poliamor ganha neste livro instigante novas cores e novas perspectivas. Deixa claro, em várias repetições, a autora que poliamor não é poligamia. São conceitos próximos, sem dúvida, mas paralelos, ou seja, não tem o conceito de poliamor o ranço do machismo e de outros preconceitos, como LGBTfobia, ou dos princípios monogâmicos que se inserem nas relações poligâmicas. E a monogamia, ou seja, a relação mais do que tradicional entre um homem e uma mulher, caracterizada no livro como um conceito falido que atravessa os tempos, mas só causa sofrimento e violência, é o alvo principal das críticas acerbas da autora. Levanta questões importantes sobre o tema e leva o leitor, por mais aferrado que ele seja à tradição, a pelo menos repensar as relações amorosas, a tomar consciência de que realmente as amarras monogâmicas são fonte de escravidão e de violência contra si mesmo e contra a própria sociedade, ao manter uma instituição que não se sustenta, senão pelo hábito secular, imposto por sistemas deístas e religiosos, confirmados e manipulados pelo capitalismo. Exalta e confirma o poliamor como uma forma não só de independência, capaz de trazer novas perspectivas para os seres humanos, mas também de amor liberto de amarras, embora seja uma conquista não muito fácil, já que as redes de afeto poliamoroso precisam se livrar, também elas, dos preceitos rançosos e violentos da monogamia, para não se transformar em sofrimento para seus componentes. Para evitar isso, prescreve com ênfase não a fidelidade monogâmica, mas a franqueza e honestidade de princípios de cada um dos seus membros. Não é o livro apenas uma digressão filosófica e sociológica, teórica, mas nos leva a um passeio pelas próprias experiências da autora, com coragem e com a certeza de que ela realmente está propondo, como diz o subtítulo, uma nova política dos afetos, um passo além do feminismo e de superação até mesmo de um capitalismo que dita as regras e os comportamentos amorosos, como forma de nos escravizar, pois, pergunta ela: “o exclusivo nos trará mesmo felicidade?” Leia, leia o livro, que ele mudará algo em você, leitor, e mudará para melhor, mesmo que não concorde com todas as ideias propostas ali por Brigitte Vasallo, essa corajosa escritora espanhola.

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