sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Os cristãos e a queda de Roma, Edward Gibbon


Os cristãos e a queda de Roma, Edward Gibbon


Trata-se de um ensaio extraído de uma obra bem mais extensa, “Declínio e queda do Império Romano”, do historiador inglês Edward Gibbon (1737-1794). Traz o texto a marca indelével da mentalidade do século XVIII: deísta, cristão e católico. Para o leitor do século XX que ainda tenha essa mesma mentalidade, pode ser um prato cheio, cheio de equívocos, na minha opinião de ateu, embora se aproveitem algumas ideias que ajudam a explicar o sucesso de uma seita, o cristianismo, que tem um crescimento espantoso durante os dois primeiros séculos depois de Cristo. Não há dúvida de que, como diz o autor, o politeísmo greco-romano entrava naquele momento num período de decadência e cansaço, já que os seus deuses nada entregavam em troca dos sacrifícios a eles dedicados, e muito pouco prometiam a seus seguidores. O cristianismo surge prometendo algo inusitado e de grande poder agregador: a vida eterna àqueles que o adotassem e seguissem suas leis e regras. O conceito de alma imortal não era de todo desconhecido pelos filósfos, mas não tinha a popularidade que os cristãos lhe deram. E mais: o cristianismo soube divulgar de forma extremamente competente o conceito de fé em acontecimentos extraordinários, os milagres, apresentando como prodígios às vezes fatos comuns e repetindo ad nauseam narrativas não comprovadas de curas, de ressurreição de mortos etc. Também souberam divulgar como diferencial das demais seitas a moralidade dos primeiros cristãos e, posteriormente, através de uma estrutura baseada na formatação dos exércitos romanos, organiza-se burocraticamente e, com isso, consegue unir em torno de ideias comuns inúmeras e distantes cidades do Império Romano e espalhar-se por todo o Ocidente e parte do Oriente. Tudo isso é narrado pelo autor, praticamente sem fontes históricas, apenas com o poder de sua prosa, aliás, uma prosa elegante e persuasiva. Ao fim e ao cabo, um belo trabalho literário, mas historicamente discutível. Vale a pena ler? Sim, se pensarmos que há, ali, ideias esclarecedoras de um fato histórico, embora visto sob o viés da fé, já que o autor atribui à sabedoria divina o surgimento do cristianismo naquele momento de crise do politeísmo e, consequentemente, toda a expansão dessa seita.

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