O cemitério de Praga, Umberto Eco
A personagem que conduz toda a trama do romance nasceu em Turim, no Piemonte, filho de pai italiano e mãe francesa. Sua profissão: tabelião. Sua especialidade: falsificar documentos. Ao se mudar para Paris, abre uma espécie de antiquário, numa rua sem saída do centro da cidade, mas continua exercendo sua principal atividade, falsificar documentos. Estamos na Paris da segunda metade do século XIX, quando toda a trama se desenrola, uma época conturbada e, ao mesmo tempo, de grande ebulição política, social e artística. A história é contada em flashbacks, a partir dos diários de Simone Simonini, escritos no final do século. Simonini reúne em si características que o tornam um dos vilões mais detestáveis da literatura, embora acabemos por simpatizar com ele: além de falsificador, é mentiroso, misógino, preconceituoso, odeia a tudo e a todos, principalmente judeus e maçons, mas também alemães, italianos, franceses. Além disso, é guloso e seu prazer por pratos exóticos leva-o a degustar inúmeras iguarias da culinária francesa, que ele faz questão de informar ou os elementos que constituem cada prato ou a receita completa, para a degustação, pelo menos literária e abstrata do leitor (que, se, quiser, pode até mesmo tentar recriar alguns desses pratos). Inventa um alter-ego, o abade Dalla Piccola, com quem estabelece um jogo de espelhos entre o bem e mal, mas principalmente para o mal. Simonini, que leitor se atente, é, das inúmeras personagens do livro, a única criada por Umberto Eco; todos as demais personagens com quem ele interage são reais e falaram e fizeram exatamente o que está ali escrito e descrito: o Padre Bergamaschi (figura de sua juventude que influenciou seu antissemitismo), Ippolito Nievo (escritor italiano), Freude (no livro, na ironia de Simonini, Froide), Garibaldi, Napoleão III etc. etc. E a mais emblemática de todas as personagens: Léo Taxil. Este é o pseudônimo mais conhecido do escritor francês Marie Joseph Gabriel Antoine Jogand Pagès que escreveu livros satíricos contra a Igreja Católica e, depois, cooptado por essa, criou, através de uma personagem chamada Diana Vaughan, uma série de narrativas que demonizava a Maçonaria, inventando histórias e ritos tão absurdos, que caíram nas graças do público, que passou a acreditar nessas mentiras. Enquanto isso, Simonini também escreve sua obra máxima de falsificação, a soldo de inúmeros interesses: os Protocolos do cemitério de Praga. Nesse cemitério abandonado (que realmente existe) um grupo de rabinos se reúne a cada século para planejar o domínio do mundo, articulando mil e uma artimanhas, no ficou conhecido como uma das maiores mentiras da história, que abalou e abala até hoje o povo judeu, pois foi uma das fontes do acirramento do antissemitismo na Europa e no mundo, mais conhecido como “Os Protocolos dos Sábios de Sião”. O objetivo da narrativa de Eco é justamente demonstrar como uma mentira bem contada e bem articulada pode se tornar uma verdade quase incontestável e determinar até mesmo os rumos da história. E isso ele o faz com a perícia de grande escritor, criando uma narrativa fantástica e tão bem articulada, que envolve de tal maneira o leitor, que ele chegou a ser acusado de antissemita por pessoas que não entenderam ou não quiseram entender a profunda ironia contida nas páginas desse livro que eu considero uma obra-prima do chamado romance histórico. E o leitor se divertirá ainda mais, se tiver a curiosidade de buscar as fontes históricas do livro.
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