quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O livro branco, Han Kang

O livro branco, Han Kang


Deixe-me falar, primeiro, da estrutura do livro: são breves crônicas sobre o cotidiano? São pequenos contos? São apenas divagações da autora, em textos poéticos? Nada disso: apesar de ter uma estrutura literária em que cabem todos esses rótulos, não há como definir esse livro, mas se trata (se insistirmos num rótulo) de uma forma diferente de romance. Paremos por aí, porque talvez também não seja um romance, pois a respeito dele eu tenho apenas uma certeza: a escrita de Han Kang, neste pequeno grande livro, estranhou-me nas primeiras páginas, mas tomou-me por inteiro quase que imediatamente, e levou-me com maestria a uma das mais sensíveis e belas homenagens que alguém podia fazer a um ser que existiu por apenas algumas horas, mas que, se tivesse sobrevivido, a própria autora não estaria nos emocionando com essas breves “crônicas”, com esses breves textos que vão formando pouco a pouco um mosaico que (devo confessar, humildemente) só não me levou às lágrimas, porque (acho) sou duro na queda. Desculpe o improvável leitor dessas linhas, mas devo acrescentar à minha emoção uma informação: a autora está o tempo todo se referindo (e uso essas frias palavras para refrear um pouco o lado emocional da narrativa e, desculpe mais uma vez o leitor, recompor-me para não passar vergonha) a sua irmã que sobreviveu por apenas umas poucas horas, alguns anos antes do nascimento da própria Han Kang. É um livro, portanto, para mitigar um luto que ela não viveu. Ao escolher a cor branca para ser o leit-motiv desse luta, a própria autora nos esclarece que, em coreano, há duas palavras para “branco”: “hayan, que tem um sentido puro e límpido, como algodão doce, e hwin, permeado pela ideia de morte”. E que ela escolheu escrever um livro hwin. Essa ainda jovem escritora coreana, aos 56 anos, ganhadora do Nobel de 2024, de quem já li o excelente “A vegetariana”, sem nenhuma dúvida é uma das grandes vozes da literatura contemporânea mundial.



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