O nariz, Nikolai Gógol
Cidade de Petersburgo, década de 30 do século XIX. Certa manhã, um barbeiro conhecido por fazer “barbeiragens” nos rostos dos clientes, ao cortar um pão para o café da manhã, encontra dentro dele um nariz. Do outro lado da cidade, o assessor colegial Kovaliov olha-se ao espelho e nota, apavorado, que seu nariz sumira. Em seu lugar, um vazio liso como uma panqueca. Desespera-se, pois sem nariz, não pode frequentar as mulheres e os amigos de sua roda social. Sai em busca do nariz. Encontra-o na catedral, rezando, vestido como um oficial e tem com ele um diálogo inconcluso, já que o nariz se recusa a ouvi-lo e foge. Tentara dar parte à polícia, mas o delegado não estava. Agora, tenta publicar um anúncio no jornal, mas o atendente se recusa a noticiar o fato. Na manhã seguinte, chama o médico e este também não consegue resolver seu problema. Mas, acontece um fato extraordinário: o policial que o vira procurando o nariz na ponte da cidade conseguiu capturar o fugitivo e o trouxe de volta embrulhado num lenço. Absurdo? Sim, totalmente absurdo o conto de Gógol. E é a essa história inusitada que o autor nos convida a que nos divirtamos com seu jogo ficcional, um dos contos mais emblemáticos da literatura russa, embora ele seja, na verdade, ucraniano. Um jogo de muitos vácuos sintagmáticos que brinca com a imaginação do leitor, deixando que ele preencha os vazios da narrativa. Por exemplo: como o nariz foi parar no pão do barbeiro? Como se transformou num oficial e saiu andando pela cidade? Como foi capturado e voltou ao tamanho normal? Muito além desse jogo de claro-escuro, há muitas leituras possíveis, muitas interpretações e, uma das mais óbvias, além da crítica social, é a crítica à fatuidade, à vaidade da personagem principal, que se preocupa apenas com o fato de não poder mais conviver com suas amizades, de que ele muito se orgulha. Enfim, um conto que obteve tal notoriedade, por sua pegada surreal, que ganhou vida e edições próprias, separadas das demais obras do autor. E o inusitado pode não ser tão inusitado assim, pois coisas absurdas, embora raras, acontecem, como nos adverte o narrador. Então, imaginemos que, se Putin perdesse o nariz, ele com certeza estaria flanando pelos escombros da guerra na Ucrânia (terra de Gógol, não se esqueça), metendo-se onde não foi chamado.

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