O pensamento hétero e outros ensaios, Monique Wittig
“Lésbicas não são mulheres”. Quando Monique Wittig encerrou sua palestra, em 1978, durante a convenção anual da Modern Language Association (MLA) em Nova York, houve um silêncio perturbador, seguido de debates acalorados. Ela havia começado a romper com um a ideia de que as categorias de gênero “homem x mulher” fossem algo natural e argumentava que a heterossexualidade é um regime político forçado, ou seja, são categorias econômicas de dominação e, portanto, se prevalece hoje o patriarcado, não haverá nenhuma mudança para as lésbicas (e, por extensão, para as sexualidades alternativas), se prevalecer o matriarcado: mudarão apenas de opressor. Portanto, ao leitor que pretende explorar os textos de Wittig, advirto: esqueça tudo quanto ouviu falar sobre feminismo e libertação da mulher. O buraco é bem mais em baixo. Prepare-se para novos paradigmas. O que ela prega é a destruição do pensamento que divide a humanidade em dois polos, a heterossexualidade. Não se deve pensar em termos de “homem” e “mulher”, mas sim em termos de busca de identidade e liberação do desejo do ser humano como tal, sem categorizações opressoras. Por isso, “lésbicas não são mulheres”, pertencem a uma outra categoria da humanidade, por não servirem aos homens e, consequentemente, não irão servir também às mulheres. Liberdade total. Superação, repito, de velhos paradigmas. Tudo isso e muito mais estão nos textos da autora. Sem dúvida, um tijolo incômodo para muita gente, na construção de um pensamento que extrapola as esferas da sexualidade, para buscar mudanças profundas no relacionamento humano, inclusive com a superação das desigualdades sociais e buscar políticas que libertem o ser humano do jugo da exploração capitalista. Ousado, não? Mas necessário e fundamental, o pensamento de Monique Wittig, para começarmos a entender muita coisa boa e ruim que tem acontecido neste mundo de predominância do pensamento heterossexual, onde o poder do macho sobre a vida das mulheres tem-se expressado de maneira cada vez mais violenta. Violência que se estende a todos e todas que não seguem essa cartilha absurda da heterossexualidade.

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