sexta-feira, 24 de abril de 2026

Mil tsurus, Yasunari Kawabata

 

Mil tsurus, Yasunari Kawabata


Admiro a literatura oriental, principalmente a japonesa. E, com certeza, Yasunari Kawabata tem sido uma leitura mais do que prazerosa (já comentei, do autor, “A casa das belas adormecidas” e “Beleza e tristeza”). Neste curto romance, “Mil Tsurus” (que, no Brasil, também recebeu o título de “Nuvens de pássaros brancos”), a prosa mágica e poética do autor voltou a me seduzir. Escrito entre 1949 e 1952, a história acontece em torno de uma tradição milenar japonesa: a cerimônia do chá, descrita sob vários pontos de vista das personagens e com a habilidade envolvente do autor. São poucas as personagens: Kikuji Mitani (um jovem adulto de 24 anos); Chikako Kurimoto e a viúva Ota (ambas ex-amantes de seu pai), Yukiko (a jovem pretendente ao casamento com Kikuji) e Fumiko (a jovem filha da senhora Ota). Os pais de Kikuji já morreram e, do passado, ele tem lembranças complexas do pai. Aos cinco anos, levado por ele à casa de sua amante Chickako, surpreende a mulher cortando pelos horríveis de uma mancha no seio. Isso marca o menino e se torna inesquecível na vida do adulto. Quase 20 anos depois, a mesma mulher, que é mestra na arte da cerimônia do chá, convida-o a vir à sua casa, porque lhe quer apresentar uma bela jovem e comemorar, com uma cerimônia do chá, os cinco anos da morte do pai dele, a se completar em breve. A partir dessa cerimônia do chá, Kikuji acaba se envolvendo também com a outra ex-amante do pai, a bela e ainda sensual senhora Ota, e com sua jovem filha, numa história complexa de resgate de valores familiares e de sentimentos conflituosos, numa trama envolvente de intrigas e ressentimentos, narrados, no entanto, com a sutileza e a delicadeza de Kawabata, um mestre no aprofundamento e na compreensão do universo feminino, através de personagens realmente inesquecíveis. Por isso e por muitos outros motivos, posso dizer que é um escritor que, sem dúvida, sempre nos surpreende pela capacidade de nos envolver em seus enredos, com histórias humanas, profundamente humanas.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Emma, Jane Austen

Emma, Jane Austen



Publicado em 1815, “Emma” é o típico romance de fim do século XVIII, quando ainda é tímida a mudança da sociedade inglesa, impactada pela revolução industrial, quando as elites entram em decadência e começam a surgir as classes burguesas, alimentadas pelo capitalismo. O cenário é uma pequena cidade a 25 km de Londres, na verdade quase um subúrbio. Ali ainda moram os “nobres” proprietários de terra, uma gente ociosa que vive do trabalho alheio, os “bem-nascidos”, detalhadamente retratados no romance, com seus usos e costumes fincados na tradição e no chamado “sangue”. Essa a primeira “camada” social. Em seguida, já se percebem alguns cidadãos que ascendem à sociedade, por serem fazendeiros, comerciantes etc., a nova e ainda tímida burguesia, constituindo a segunda “camada” social, aquela que, no romance, ainda causa com uma certa justiça arrepios na nobreza, pois irá, pouco a pouco, decretar sua decadência e uma mudança profunda de costumes. . A terceira “camada” são os criados, cocheiros, domésticas etc., ou seja, a classe de trabalhadores braçais que sustenta o luxo e a ociosidade dos nobres, cujos nomes raramente são citados no romance, uma gente praticamente “invisível”. Nesse cadinho da pequena cidade interirorana, pontifica a família Woodhouse, constituída pelo patriarca, viúvo sedentário e cheio de achaques e pelas suas filhas Emma e Isabelle, sendo que essa última já é casada e mora com o marido e os filhos em Londres. Emma cuida do pai e administra a casa. A história começa com o casamento da governanta que cuidou de Emma desde os cinco anos de idade, que vai morar com o marido a 800 metros da casa, o que mantém o vínculo de amizade que os Woodhouse sentem pelo casal. Esse casamento, lamentado profundamente pelo pai de Emma, que não se conforma em perder a governanta e é contra casamentos, ironicamente foi “arranjado” pela filha, jovem de 20 anos, muito bonita, inteligente e encantadora, que está decidida a jamais se casar, mas que se descobre, então, como um talento para aproximar casais. Por essa razão, resolve aproximar sua nova amiga, Harriet, uma jovem órfã e muito bonita, de um dos frequentadores da casa, o senhor Elton, para desespero de outro amigo e habitué dos Woodhouse: George Knightley, que ganhará grande importância no enredo do livro. Esse é o estopim para as inúmeras histórias e intrigas do romance. Bem, são muitas as personagens e muitas as tramas e subtramas desse microuniverso da sociedade inglesa. A autora não poupa detalhes e características da vida e das relações de cada uma, traçando um painel impressionante desse momento de transformações em que estão todos imersos, sem terem noção disso. Com humor e ironia sutis, leva o leitor pelos meandros dos sentimentos, dos amores, das decepções, dos sonhos, dos mistérios e segredos de cada personagem, numa prosa tranquila e bem articulada, numa lenta, mas, sem dúvida, interessante saga de uma jovem casamenteira e seus amigos e vizinhos, na Inglaterra do início do século XIX, justificando a fama de ser uma das grandes escritoras de língua inglesa. Um romance para se ler com calma, sem preconceitos, e usufruir cada capítulo, cada parágrafo, cada situação narrada e detalhada como típico romance de época. Uma época que parece tão distante da nossa, mas que, na realidade, forjou o mundo em que vivemos.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

O Verdadeiro Criador de Tudo, Miguel Nicolelis

O Verdadeiro Criador de Tudo, Miguel Nicolelis


Nos últimos 30 anos, a neurociência conseguiu avanços incríveis no estudo do cérebro humano, embora ainda haja muita coisa a ser estudada e descoberta com relação a essa incrível “criação” da evolução. Dentre muitos pesquisadores, sem dúvida Nicolelis tem uma posição de proa. Nesse livro, usa os primeiros capítulos para descrever inúmeras experiências e descobertas não só de suas pesquisas, mas também de outros cientistas, recheando as páginas do livro com descrições que eu, como leigo, tive muita dificuldade de compreender em sua totalidade. Mas essas dificuldades não devem servir de desânimo a qualquer leitor que também não seja versado em neurociência, pois, a partir desses relatos de experiências e teses complexas, o autor nos brinda, na segunda parte do livro, com suas teses sobre a origem e a evolução do cérebro humano, em textos de muita clareza e discernimento. E então, nos leva a uma viagem fantástica aos princípios mais importantes de suas teorias a respeito da capacidade do cérebro humano. É impossível resumir tudo numa resenha como esta, mas vou destacar duas das mais interessantes, pelo menos para mim, de suas teses. A primeira diz respeito à própria organização de nosso cérebro, ou seja, para o autor, ele é composto, a grosso modo, de duas grandes capacidades, que ele chama, a primeira de “capacidade de armazenar e processar conhecimentos”, que seria o seu lado, digamos, “computacional”; a segunda, a capacidade de criação, de imaginação, que levou o ser humano a criar as ciências, as artes, a civilização, enfim, ou seja, seu lado “orgânico”. E isso explica, segundo Nicolelis, por que é impossível que se venha a criar um “cérebro eletrônico” ou uma “inteligência artificial” que possa competir com o cérebro humano, pois lhe faltaria esse lado “orgânico”, a criatividade, a capacidade de criar algo novo a partir do conhecimento obtido: as máquinas só conseguem “processar” a partir do que elas armazenam, não conseguem e não conseguirão jamais inventar algo realmente novo. A segunda tese tem a ver com a capacidade de os cérebros humanos se conectarem no que ele chama de “Brainets”, redes cerebrais conectadas, para, num determinado momento histórico, muitos indivíduos desenvolverem novas ciências, novas ideias que promovem a evolução da sociedade humana. E cita vários exemplos, dando-nos uma verdadeira aula de história, de filosofia, de conhecimento das artes e de várias outras criações magníficas da capacidade humana. Ao final, ainda nos alerta que a capacidade orgânica do cérebro humano pode ser também o fator de “emburrecimento” (termo meu) do gênero humano, ao usar sua capacidade de adaptação às máquinas e, não exatamente, ser dominado por elas, mas se acomodar a não mais criar, ao deixar que elas, as máquinas, façam todo o trabalho. Esse tema e todos os temas do livro são complexos, mas são desenvolvidos ad nauseam. Concluo afirmando que há muito o que ler e aprender e discutir, como resultado da leitura dessa obra inequivocamente provocadora e fundamental para nos colocar a par do que vem sendo descoberto na área da neurociência. E do muito que ainda há para se descobrir.