terça-feira, 19 de maio de 2026

Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, Carolina Maria de Jesus

Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, Carolina Maria de Jesus


Por que ler Carolina Maria de Jesus hoje? Talvez esta não seja a pergunta correta, e sim: como ler Carolina Maria de Jesus hoje? Os tempos mudaram desde a publicação do livro “Quarto de despejo”, em 1960. Seu diário, que chocou a burguesia da época, cobre os anos de 1955-1960, parece um tanto ingênuo ao leitor de hoje, acostumado a ver nas “comunidades” (o nome politicamente correto para as favelas) a violência do tráfico juntamente com problemas recorrentes (embora num outro nível) dos anos cinquenta: falta de infraestrutura, ausência do Estado, preconceito das forças policiais, que veem em cada favelado um traficante, muita violência etc. etc. etc. Nossa escritora lá dos tempos do Juscelino, e é bom que marquemos isso, narra problemas de infraestrutura, muita pobreza, relacionamentos complicados e violência entre os moradores e, principalmente, a fome, muita fome (que é talvez a palavra que mais aparece no livro). Hoje a fome tem outros nomes, mais pomposos, como “insegurança alimentar”, mas ainda ronda muitas comunidades, ainda que em nível diferente do que acontecia na favela do Canindé, que existia às margens do Tietê, onde passa hoje uma grande e movimentada avenida, e onde tentava sobreviver catando papel nas ruas a nossa heroína e escritora. Tem ela noção exata de seu grau de pobreza e tem claras noções de política, já que critica todos os políticos, que só aparecem em tempos de eleição, eles, inclusive o presidente Juscelino, e com razão, já que seu governo se voltou para o desenvolvimentismo e esqueceu o lado social. É interessante notar que Carolina não fala de suas origens (ela é mineira de Sacramento, nascida provavelmente em 1914), nem como veio para São Paulo e acabou na favela. Também fala muito pouco de sua vida íntima, de seus amores. Só sabemos que tem três filhos pequenos (uma menina e dois meninos, provavelmente de pais diferentes). Seu diário foca, ressaltamos, o dia a dia da favela e os perrengues que todos passam para sobreviver à extrema pobreza, à desigualdades de classe, de gênero, de raça e à falta de perspectiva. Para concluir esse breve comentário, o diário de Carolina foi descoberto pelo repórter Audálio Dantas e foi um grande sucesso que, se permitiu que ela deixasse a favela, não lhe trouxe riqueza nem condições de viver dignamente até sua morte, de novo empobrecida, em 1977. Então, respondendo à pergunta, antes de encerrar: como ler Carolina hoje? – digo que se deve ler com o mesmo espanto de há mais de 70 anos, por ter o Brasil progredido tanto e não ter ainda resolvido a questão da desigualdade social.



domingo, 10 de maio de 2026

Elizabeth Costello, J. M. Coetzee

Elizabeth Costello, J. M. Coetzee


Elizabeth Costello é uma romancista australiana idosa que viaja pelo mundo dando palestras sobre temas variados, mas principalmente sobre as maldades que os seres humanos fazem com os animais, sobre a censura literária e vários outros temas. Numa viagem à Pensilvânia, com o filho John, para receber um prêmio, fala sobre Kafka, mas suas palavras não encontram boa repercussão entre o público, que não a compreende. Parece que ela se perdeu naquilo que era o seu principal métier de escritora de um antigo livro de sucesso, chamado A Casa da Rua Eccles, em que ela se apropria de uma personagem do romance Ulisses, de James Joyce, para contar a história da esposa do protagonista, Molly Bloom, sob a perspectiva feminista. Ou seja, está perdendo o jeito e a forma de encantar o público com suas palavras. Também num cruzeiro onde deve falar sobre realismo os aplausos são pouco entusiasmados. Na verdade, Elizabeth Costello é uma espécie de alter-ego de Coetzee que, através dela, desenvolve vários temas filosóficos e complexos da vida contemporânea. A palestra sobre o sofrimento dos animais, por exemplo, tem a coragem inaudita de tocar num tema sensível que é o holocausto, para comparar, grosso modo, o que os seres humanos fizeram uns com os outros no regime nazista e o que fazem com animais que consomem. Ao levar sua protagonista para a África, ao encontro de uma irmã que não vê há muito tempo e que realiza ali um trabalho humanitário, o autor discute através dela o conceito de humanidades e a filosofia grega, mostrando um certo desconforto para com os rumos que essas filosofias tomaram. No final do livro, a velha senhora se encontra numa espécie de limbo kafkiano, tentando explicar suas crenças diante de um tribunal absurdo, sem que se consiga chegar a uma conclusão satisfatória de sua filosofia de vida. Não é um romance fácil, ou melhor, nem tem exatamente a estrutura de um romance, mas sim de um quase um monólogo em que a personagem Elizabeth Costello está em busca de si mesma, através de suas palestras às vezes muito complexas e difíceis de entendimento pelo público a quem essas palestras se dirigem. Mas, tenho certeza de que um leitor atento e persistente ganhará muito com a leitura desse livro: a palestra sobre os animais, por exemplo, apesar de polêmica, é de arrepiar, pela beleza literária do texto e pelas questões éticas e humanas que levanta. Aliás, mesmo quando aborta temas como censura ou a dificuldade dos tempos atuais de entender os gregos ou aquilo a que chamamos humanidades, estamos sempre diante de um mestre da palavra a nos encantar com um estilo requintado e ao mesmo tempo envolvente.

sábado, 2 de maio de 2026

A cidade do sol, Khaled Hosseini

A cidade do sol, Khaled Hosseini


Um soco no estômago. Talvez o romance mais triste e cruel que já li. Uma coisa é ler reportagens sobre guerras, conflitos internos entre facções rivais, torturas de cidadãos por grupos que assumem o controle de uma região ou país, atentados terroristas etc. Outra coisa, muito diferente, é ler esses relatos todos sob a óptica de um escritor que ficcionaliza a realidade para melhor retratá-la. É o que faz o escritor afegão Khaled Hosseini, de quem já havia lido o também excelente “O caçador de pipas”. Este romance – “A cidade do sol” – foi lançado em 2007 e é importante marcar essa data. Conta a história de duas mulheres, duas jovens mulheres: Mariam, a mais velha, viveu até os 14 anos no interior do Afeganistão, filha bastarda de um rico comerciante que, ao morrer a mãe da garota, entrega-a como esposa a um violento sapateiro de Cabul; Laila nasceu e vive na capital, é filha de um intelectual e cresceu sendo incentivada a estudar e buscar uma carreira. Vizinhas, as duas só vão se encontrar mais tarde, quando, em pleno conflito entre facções políticas, entre os anos de 1990 e aproximadamente 2003, a família de Laila é dizimada pelos mísseis e ela é salva dos escombros por Mariam, que a leva para ser cuidada em sua casa, já que a infraestrutura do país está um caos e os hospitais, quando ainda existem, estão lotados de feridos e a cidade coalhada de mortos, além de patrulhada por bandos de milicianos armados e prontos a atirar em qualquer um. A juventude da garota não impede que o violento marido de Mariam, já desgostoso da mulher, que não consegue lhe dar um filho, a tome como segunda esposa. A partir daí, a vida de ambas vira um inferno, não só por causa da guerra, mas principalmente diante da violência do homem, incentivado pela tomada do poder pelos talibãs em 1996. A história do livro só termina em 2003, quando os talibãs são derrotados e a vida de uma das garotas, a sobrevivente, começa a melhorar, com a retomada da reconstrução do país. Marquei a data de lançamento do romance – 2007 – porque nessa época o Afeganistão ainda vivia sob um regime democrático e o autor comemora, quando encerra sua história em 2003, a condição de liberdade de suas personagens sobreviventes. No entanto, para terminar esse breve comentário sobre esse livro extraordinário, os talibãs voltaram ao poder em 2021, impondo de novo a interpretação estrita da sharia e transformando, de novo, a vida dos cidadãos e, principalmente restringindo e oprimindo as mulheres, com suas proibições absurdas. Ressalvado esse aspecto terrível da história do Afeganistão, o livro é uma lição e uma advertência para todos em relação aos sofrimentos causados pelas guerras e também em relação à mais do que perigosa mistura de política e poder com religião, além de ser uma grande obra da literatura mundial desse início de milênio tão conturbado por guerras e genocídios.