terça-feira, 24 de março de 2026

Klara e o Sol, Kazuo Ishiguro

Klara e o Sol, Kazuo Ishiguro


Vou começar essa breve resenha do livro do escritor nipo-anglicano Kazuo Ishiguro, com uma breve digressão: uma pessoa tem alguém da família que tem uma doença grave. De acordo com sua crença, vai a um santuário e pede fervorosamente a seu deus que cure a pessoa querida e, em troca, fará algo, como, por exemplo, uma longa caminhada a pé... Essa pessoa cumpre o prometido e fica esperando a cura. Até que, um dia, o doente melhora e acaba se curando. Durante todo esse período, o doente teve todo o acompanhamento médico, tratamento etc. Mas... o crente vai estabelecer uma falsa ideia de causa e consequência, ou seja, o doente se curou porque seu deus atendeu a seu pedido. Vamos ao livro: Klara é uma robô humanoide AA (Amiga Artificial) cuja bateria é alimentada pela luz solar, o que a leva a deduzir que o Sol é um astro muito poderoso e, por isso, acompanha sua trajetória entre os prédios da cidade sempre que possível. Sua inteligência e capacidade de apreensão é acima do normal dos indivíduos de sua espécie. Na loja onde está à venda, alterna dias no fundo da loja com dias na vitrina, quando aguça sua percepção observando o movimento da rua e, claro, do Sol. Um dia, observa que o mendigo e seu cão, habituais da rua, estão deitados inertes na calçada oposta há muitas e muitas horas e deduz que ele está muito doente. Ao amanhecer do dia, quando o Sol bate diretamente sobre eles, o mendigo e o cão despertam e voltam às atividades normais de todo mendigo. Escolhida por uma mãe e sua filha para cuidar da garota, que tem algum tipo de doença que poderá levá-la à morte, Klara, em seu novo lar, no campo, descobre que o Sol se põe, na sua percepção de robô, atrás de um celeiro localizado numa colina próxima. Com a ajuda de um amigo da garota, vai até lá e promete ao Sol que acabará com a poluição, destruindo uma determinada máquina que ela vira, nos tempos da loja, soltando muita fumaça e poluindo o ambiente, se ele enviar energia para a garota e curá-la. Bem, a narrativa é longa e cheia de detalhes. A ressaltar que tudo o que lemos é contado sob o ponto de vista de Klara, de forma que só sabemos o que ela sabe, só vemos o que ela vê e tudo o que ela vê, sabe e “sente” tem o viés da visão de sua inteligência artificial, mas devidamente formatada de um modo específico, o que a torna única. Quando a garota se cura, numa cena de arrepiar (sob o ponto de vista de Klara, graças à luz do Sol), a AA estabelece como causa a energia do Sol, em consequência de seu pedido e suas ações, determinando para mim a ideia central da narrativa: que os humanos, ao construir máquinas pensantes, passam para elas não só conhecimentos, mas também suas crenças e superstições. Há muitas outras implicações no livro, em termos de relação homem x máquina, num futuro e numa cidade não identificados pelo autor, o que nos surpreende a cada página. A narrativa é leve e paradoxalmente complexa, detalhista, cuidadosa em levar o leitor a mergulhar no ponto de vista exclusivo e limitado de Klara, porém de uma forma muito sedutora. Um grande romance da ficção científica contemporânea, cujo autor e obra valem a pena conhecer.


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