domingo, 10 de maio de 2026

Elizabeth Costello, J. M. Coetzee

Elizabeth Costello, J. M. Coetzee


Elizabeth Costello é uma romancista australiana idosa que viaja pelo mundo dando palestras sobre temas variados, mas principalmente sobre as maldades que os seres humanos fazem com os animais, sobre a censura literária e vários outros temas. Numa viagem à Pensilvânia, com o filho John, para receber um prêmio, fala sobre Kafka, mas suas palavras não encontram boa repercussão entre o público, que não a compreende. Parece que ela se perdeu naquilo que era o seu principal métier de escritora de um antigo livro de sucesso, chamado A Casa da Rua Eccles, em que ela se apropria de uma personagem do romance Ulisses, de James Joyce, para contar a história da esposa do protagonista, Molly Bloom, sob a perspectiva feminista. Ou seja, está perdendo o jeito e a forma de encantar o público com suas palavras. Também num cruzeiro onde deve falar sobre realismo os aplausos são pouco entusiasmados. Na verdade, Elizabeth Costello é uma espécie de alter-ego de Coetzee que, através dela, desenvolve vários temas filosóficos e complexos da vida contemporânea. A palestra sobre o sofrimento dos animais, por exemplo, tem a coragem inaudita de tocar num tema sensível que é o holocausto, para comparar, grosso modo, o que os seres humanos fizeram uns com os outros no regime nazista e o que fazem com animais que consomem. Ao levar sua protagonista para a África, ao encontro de uma irmã que não vê há muito tempo e que realiza ali um trabalho humanitário, o autor discute através dela o conceito de humanidades e a filosofia grega, mostrando um certo desconforto para com os rumos que essas filosofias tomaram. No final do livro, a velha senhora se encontra numa espécie de limbo kafkiano, tentando explicar suas crenças diante de um tribunal absurdo, sem que se consiga chegar a uma conclusão satisfatória de sua filosofia de vida. Não é um romance fácil, ou melhor, nem tem exatamente a estrutura de um romance, mas sim de um quase um monólogo em que a personagem Elizabeth Costello está em busca de si mesma, através de suas palestras às vezes muito complexas e difíceis de entendimento pelo público a quem essas palestras se dirigem. Mas, tenho certeza de que um leitor atento e persistente ganhará muito com a leitura desse livro: a palestra sobre os animais, por exemplo, apesar de polêmica, é de arrepiar, pela beleza literária do texto e pelas questões éticas e humanas que levanta. Aliás, mesmo quando aborta temas como censura ou a dificuldade dos tempos atuais de entender os gregos ou aquilo a que chamamos humanidades, estamos sempre diante de um mestre da palavra a nos encantar com um estilo requintado e ao mesmo tempo envolvente.

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