segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

LIVROS LIDOS EM 2024

 

(The Reader, Edouard Manet, 1861)

1.     O idiota, Fiódor Dostoiévski

2. 26 poetas hoje, Heloísa Buarque de Holanda

3. 1968: o ano que não terminou, Zuenir Ventura

4. Os anos, Annie Ernaux

5. A arte de produzir efeito sem causa, Lourenço Mutarelli

6. A bibliotecária dos livros queimados, Brianna Labuskes

7. A pediatra, Andréa del Fuego

8. A barca dos homens, Autran Dourado

9. O olho mais azul, Toni Morrison

10. O gigante enterrado, Kazuo Ishiguro

11. Big Sur, Jack Kerouac

12. De moto pela América do Sul, Ernesto Che Guevara

13. A casa verde, Mario Vargas Llosa

14. Traficantes evangélicos – quem são e a quem servem os novos bandidos de deus, Viviane Costa

15. O jardim de cimento, Ian McEwan

16. A casa soturna, Charles Dickens

17. A livraria dos pequenos milagres, Mónica Gutiérrez

18. A tolice da inteligência brasileira, ou como o país se deixa manipular pela elite, Jessé Souza

19. Cidade de vidro, Paul Auster

20. Jardim de inverno, Zélia Gattai

21. Matadouro 5, Kurt Vonnegut

22. América Latina lado B, Ariel Palacios

23. A Odisseia de Penélope, Margaret Atwood

24. Catch 22 (Artigo 22/Ardil 22), Joseph Heller

25. Vulgo Grace, Margaret Atwood

26. Verdade tropical, Caetano Veloso

27. It – A Coisa, Stephen King

28. O quarto azul, Georges Simenon

29. Mad Maria, Marcio Souza

30. História universal da infâmia, Jorge Luis Borges

31. Manual prático do ódio, Ferréz

32. Montevidéu, Enrique Villa-Matas

33. Muito longe de casa: memórias de um menino-soldado, Ishmael Beah

34. Histórias de cronópios e famas, Julio Cortázar

35. O perigo de estar lúcida, Rosa Montero

36. Era no tempo do rei, Ruy Castro

37. A guerra do fim do mundo, Mario Vargas Llosa

38. Desonra, J. M. Coetzee

39. O Mundo da Escrita, Martin Puchner

40. O náufrago, Thomas Bernhard

41. As aventuras do bom soldado Švejk, Jaroslav Hašek

42. Cadeiras proibidas, Ignácio Loyola Brandão

43. Se a rua Beale falasse, James Baldwin

44. Uma questão pessoal, Kenzaburo Oe

45. Chove nos campos de Cachoeira, Dalcídio Jurandir

46. As dores do mundo, Arthur Shcopenhauer

47. As aventuras de PI, Yann Martel

48. Sete monstros brasileiros, Bráulio Tavares

49. Quem matou meu pai, Édouad Louis

50. Se os gatos desaparecessem do mundo, Genki Kawamura

51. Don Juan (narrado por ele mesmo), Peter Handke

52. Anos de chumbo e outros contos, Chico Buarque

53. Por que nós dormimos?, Mattew Walker

54. Fragmentos, Djanira Pio

55. Poemas para o palco – segundo ato, Eliana Iglesias

56. Ainda estou aqui, Marcelo Rubens Paiva

57. Nexus – uma breve história das redes de informação da Idade da Pedra à Inteligência Artificial, Yuval Noah Harari

58. O vendedor de passados, José Eduardo Agualusa

59. Mudar: Método, Édouard Louis

60. Abril despedaçado, Ismail Kadaré

61. Hospício é deus, Maura Lopes Cançado

62. A cidade das palavras, Alberto Manguel

A cidade das palavras, Alberto Manguel

A cidade das palavras, Alberto Manguel

O livro tem cinco capítulos, ou cinco ensaios que, embora se interrelacionem, podem ser lidos e interpretados isoladamente, ou quase. E porque cada um desses capítulos aborda temas aparentemente muito diferentes uns dos outros, vou tentar uma breve resenha de cada um deles. 1. A voz de Cassandra. Nesse ensaio, o autor discorre sobre o poder das histórias, a partir da obra de Alfred Döblin, romancista alemão que fugiu do nazismo e escreveu Berlin Alexanderplatz, e da maldição de Cassandra, que recebeu o dom da profecia, mas não o beneplácito de que acreditassem em nas suas palavras, para concluir que talvez o artífice, o poeta, banido da república de Platão, por criar o que não existe, tenha o olhar desconfiado de que aquilo que ele inventa, ao contrário da maldição de Cassandra, ele acredita que seja verdade e que possa talvez mudar a sociedade. 2. As tabuletas de Gilgamesh. A mais antiga epopeia da humanidade narra a história do tirano Gilgamesh que encontra no selvagem Enkidu o seu duplo civilizador. Então, em torno das diferenças, tece o autor considerações sobre a possibilidade de convivência entre contrários, para concluir que somente aceitando o outro, o diferente, como complemento do eu, como conclui Montaingne, ao descobrir que amava o amigo porque “era ele e era eu”, que a humanidade possa, enfim, superar o ódio e as rivalidade.3. Os tijolos de Babel. Talvez o capítulo (ou ensaio) mais complexo do pensamento de Manguel. A partir de uma citação de Kafka, o autor nos leva à narrativa bíblica da Torre de Babel e para uma viagem de considerações em torno da origem da linguagem há 50.000 anos, mais ou menos, e da origem da escrita, há cerca de 5.000 anos, o que possibilitou ao ser humano contar histórias e criar civilizações. Escreve: “A relação entre uma civilização e sua linguagem é simbiótica: certo tipo de sociedade dá origem a certo tipo de linguagem; por sua vez, essa linguagem dita histórias que inspiram, moldam e mais tarde transmitem a imaginação e o pensamento daquela sociedade.” 4. Os livros de dom Quixote. Leva-nos o autor, através principalmente, mas não só, da análise do poderoso romance “El ingenioso hidalgo Don Quixote de La Mancha”, a uma aventura histórica e literária da origem da dominação da península Ibérica pelos mouros e judeus, desde os primeiros anos do cristianismo, até sua expulsão em 1592, para concluir que “as histórias constituem a identidade de uma sociedade” mas “nem toda história dará conta do recado; elas devem responder a uma realidade compartilhada que a própria sociedade cria a partir de uma miríade de acontecimentos, com raízes no tempo e no espaço, mas sempre em fluxo e transformação”. 5. A tela de Hal. São profundas as observações do autor sobre “o outro”, aquele que vemos como diferente, o que está do outro lado do muro da pólis, o inimigo. Analisa um conto extraordinário de Jack London, “The Assassination Bureau, Ltd.” e o filme “2001, uma odisseia no espaço”, para nos levar a pensar nas armadilhas da linguagem que usamos e que, tantas vezes, abusamos como muros que erguemos na comunicação entre nós, entre os grupos humanos e entre as nações. Também critica ferozmente as editoras que contratam revisores e editores de obras literárias como uma censura ou como uma trava à criatividade dos escritores, mutilando a criatividade do autor. Enfim, um livro complexo e profundo, que exige do leitor mais do que a atenção de uma só leitura, mas de várias leituras, para atingir o âmago desse pensador, que quase nos afoga com sua erudição e seu pensamento. Indispensável, porém, para todos que pretendam entender o ser humano e a sociedade em que vivemos, a partir das histórias que nos contam ou que contamos.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Hospício é deus, Maura Lopes Cançado

Hospício é deus, Maura Lopes Cançado

 


Maura estava com 30 anos, quando registrou seu dia a dia de interna no Hospital Gustavo Riedel, no Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, entre o final de 1959 e o começo de 1960. Não era a sua primeira internação num hospital psiquiátrico, nem seria a última. Maura, a escritora, a louca, aquela que matou uma pessoa num de seus surtos – esse o carimbo que acompanha a trajetória e o talento dessa jovem. O diário nos revela, sim, uma personalidade complexa e doentia, mas também o talento de uma escritora que não teme se desnudar (diria quase literalmente, diante de vários relatos seus no livro) e mais: tem a coragem de mostrar por dentro o que eram – o que são – essas instituições destinadas a pessoas desequilibradas, loucas ou simplesmente fora dos padrões aceitáveis da sociedade que vê no diferente o inimigo. Sim, o inimigo. No hospício, as internadas (na expressão de Maura) são castigadas por qualquer deslize. As guardas as agridem constantemente, por qualquer motivo, de forma cruel e desumana, porque elas são “a autoridade” que não admite contestação. O ser humano é degradado a seu estado mais vil, porque é diferente, é “louco”, assim como são “loucos” aqueles que contrariam um regime autoritário (lembro, só para exemplificar, Wladimir Herzog e Marcelo Rubens Paiva, entre centenas e centenas de outros que a ditatura perseguiu, prendeu, assassinou e até despareceu com seus corpos); assim como é “louco” o jovem preto da periferia de uma cidade como Rio ou São Paulo, que ousa levantar a cabeça para o policial que o mantém subjugado e, por isso, apenas por isso, acaba agredido até a morte ou jogado como lixo sobre a mureta de uma ponte; assim como são “loucos” os terroristas que ousam afrontar o poderoso exército do Estado de Israel e vê seu povo ser dizimado sistematicamente por bombardeios que matam mulheres, idosos e crianças como moscas que precisam ser extirpadas da face da terra, numa vingança a um ato insano; assim são “loucos” todos os que arrostam suas vidas contra o invasor estrangeiro ou contra aqueles que o oprimem. O hospício é o microcosmo de nossa insanidade, da barbárie que os poderosos se empoderam contra os mais fracos ou contra aqueles que os contrariam. Não há tratamento contra a “loucura” no hospício: os médicos e enfermeiros fazem vista grossa às agressões, aos castigos. Como a autora do diário nos aponta o paradoxo: os loucos são considerados inimputáveis, sem responsabilidade por seus atos, mas não podem cometer deslizes que são severamente punidos. Porque o ser humano é assim: bárbaro, incapaz de ter qualquer respeito ao outro, quando se coloca numa posição de superioridade e de poder em relação a esse outro. Tem sido assim e parece que vai continuar sendo assim. Terminei de ler “Hospício é deus” com um nó de revolta na garganta, diante da forma como a autora nos apresenta o dia a dia no hospital, suas crises, seus desapontamentos, sua relação com as outras internas, seus amores platônicos e suas implicâncias e ódios que a impedem de se recuperar, porque ali o deus que deveria ser de compaixão é o próprio hospício, com suas regras e suas leis de autoritarismo e de desrespeito ao ser humano. Um relato, sem dúvida, inesquecível. 

1.   

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Abril despedaçado, Ismail Kadaré

Abril despedaçado, Ismail Kadaré

Da Albânia, pequeno país montanhoso do sudoeste da Europa, nos vem esse instigante romance, “Abril Despedaçado”. Exatamente nas altas montanhas desse país, há entre as aldeias e pequenas localidades um código de honra milenar, o Kanun (ou Cânone), que determina que o assassinato para vingar um crime é um direito e um dever. E descreve minuciosamente os passos que aprisionam as famílias a um círculo vicioso de execuções. O livro nos conta a história do jovem Gjorg Berisha que é obrigado pelo pai a seguir as ordens do Kanun e assassinar Zef Kryeqyq, de um clã vizinho. Esse ciclo de vingança remonta a 70 anos e já levou a vida de 22 homens de cada família. Depois de atirar em Zef, Gjorg segue as leis da vendeta do Kanun: coloca o cadáver numa determinada posição, avisa aos moradores da aldeia, pede à família da vítima uma trégua de 24 horas, comparece ao velório e ao banquete fúnebre. As duas famílias negociam a seguir, sempre de acordo com a normas do Kanun, uma “trégua longa”, de 28 dias, e as demais humilhações e pagamentos pelo crime. Então, Gjorg enceta uma viagem a uma aldeia distante, para pagar a uma espécie de “príncipe” da região o imposto devido ao sangue derramado. Após esses 28 dias, ou seja, exatamente no dia 17 de abril, a família do morto tem o direito e o dever de matá-lo. Enquanto isso, um jovem casal de Tirana também enceta uma viagem de lua de mel pelas regiões montanhosas, a convite do mesmo potentado, numa carruagem negra. A jovem e bela esposa cruza um rápido olhar com Gjorg numa das estradas e fica extremamente impressionada com sua beleza e juventude e por saber que ele, que leva no braço a tarja preta da vendeta, está preso a uma lei injusta que o condena a ser morto numa vendeta. O jovem, ao voltar de sua obrigação, tenta encontrar de novo a carruagem, como uma espécie de visão salvacionista de sua situação, mas eles nunca mais se reencontram. Todo esse enredo serve para que o autor nos envolva não só na trama macabra do círculo vicioso de assassinatos, mas também nos leva aos meandros cruéis do funcionamento do Kanun, uma lei milenar que usa a morte, o assassinato, como a engrenagem que sustenta todo um sistema econômico. Na minha opinião, uma bela e trágica metáfora do capitalismo, neste livro que tem um quê de barroquismo, o “belo horrível”, mas que se lê com a tensão das grandes obras urdidas pelo talento de um grande e premiado escritor albanês.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

Mudar: Método, Édouard Louis

Mudar: Método, Édouard Louis


Eddy Bellegueule nasceu numa família pobre, de classe operária, numa miserável cidade no norte da França. Sim, a poderosa França também tem seus nichos de pobreza e exclusão. Desde menino, sente atração por homens, mas recalca esse sentimento, por pressão familiar e social, por sofrer perseguição de outros moleques e nunca ser escolhido, por exemplo, para o time de futebol. Adolescente e destinado ao mesmo tipo de trabalho operário do pai violento e alcoólatra, foge para uma cidade maior, Miens, onde consegue emprego e conhece sua melhor amiga, uma jovem de classe média, e um escritor e professor universitário gay, muito famoso. Tomando-o como modelo para sua vida, mas ainda recalcando suas tendências homossexuais, decide mais uma vez fugir e vai para Paris, atrás de conhecimento, de cultura, de tornar-se também ele um escritor famoso, tornando-se um leitor compulsivo, para tentar entrar numa das instituições mais famosas da França, berço da alta burguesia. A muito custo, consegue seu intento e tem uma agitada vida social em Paris, ao lado de homens ricos e poderosos que lhe mostram o outro lado da vida, o lado do glamour e da vida fácil. Esconde sua origem e até seu nome, passando a chamar-se Édouard Louis, e tornando-se um escritor de sucesso. Toda essa trajetória é contada no estilo direto, rápido, sem meias palavras, numa narrativa que nos envolve desde as primeiras páginas, pelo contexto de luta, resiliência, superação de dificuldades e, principalmente, pelo talento desse ainda jovem escritor francês, na sua luta para vencer a discriminação, a homofobia e mostrar que o mundo pode ser um lugar melhor, se deixarmos de controlar os desejos e a vida íntima das pessoas. Embora seja uma narrativa longa, de mais de 200 páginas, o estilo ágil do escritor não nos permite demorar muito tempo em sua leitura altamente recomendável a todos os pais que tenham filhos na pré-adolescência ou na adolescência, para que abram suas mentes para os anseios e desejos deles, sem preconceitos, para que se tornem seres humanos plenos sem o sofrimento de injuções familiares autoritárias e impositivas. Um garoto ou uma garota não se tornam gays, a homossexualidade é uma condição humana, muito humana, e não uma maldição. Pensem nisso. E deixemos que nossos filhos sejam o que eles quiserem ser, que escolham seus caminhos. Livres, serão sempre nossos.

domingo, 8 de dezembro de 2024

O vendedor de passados, José Eduardo Agualusa



O vendedor de passados, José Eduardo Agualusa


Um pequeno grande livro para se ler com a calma de uma tarde de verão. Saboreando cada palavra, cada frase, cada página do estilo cativante desse autor angolano de língua portuguesa. Um melodrama em que ninguém é exatamente aquilo que diz que é e tudo se explica ao final. Com exceção do personagem principal, o vendedor de passados falsos, Félix Ventura que, além de ter esse ofício estranho, é albino, mora numa casa entulhada de livros e tem por amiga uma osga, ou seja, uma espécie de lagartixa doméstica. Aliás, é essa lagartixa a narradora da história. Como Félix fabrica passados, ou seja, árvores genealógicas falsas, para celebridades, inclusive políticos, que precisam de uma história de vida que seja palatável ao público e conveniente para seus negócios, ganha bem e tem uma vida confortável. Um dia, recebe a visita de um estrangeiro que deseja uma identidade angolana. Oferece-lhe um pagamento muito alto por isso e o mergulha na busca de um passado de fatos complexos e de natureza política que vai aos poucos desvelando todo um sistema social de crimes e perseguições, numa crítica contundente à atual situação do país. Pode um passado falso encontrar a verdade? Será nossa memória totalmente confiável, quando se trata de reconstituir o passado? São perguntas que podem surgir à mente do leitor, ao final desse delicioso e instigante romance narrado por uma lagartixa, com seu final emblemático e intencionalmente provocante.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Nexus – uma breve história das redes de informação, da Idade da Pedra à Inteligência Artificial, Yuval Noah Harari

 Nexus – uma breve história das redes de informação, da Idade da Pedra à Inteligência Artificial, Yuval Noah Harari

 

A evolução do ser humano, desde há 100 mil anos, foi construída a partir de significativas revoluções que geraram poder à humanidade para construir o que hoje somos e que chamamos de civilização. O autor historia a trajetória humana, mostrando como esse poder de modificar o mundo e reordenar a vida de milhões ou bilhões de pessoas veio através de redes de informação, no início precárias, quando a informação só podia fluir entre poucos humanos, em agrupamentos mínimos ou aldeias com poucos habitantes, até chegar a nossos dias, quando todo o mundo pode ser conectado através de uma única rede de comunicação. O que distingue este momento das revoluções anteriores é que nenhuma rede de informação – por exemplo, a constituída pela invenção da imprensa – tinha o poder de modificar a si mesma e adquirir conhecimento por si mesma, como a Inteligência Artificial. Um livro impresso não tem o poder de aprender ou de se alterar, é apenas um veículo estanque. O problema é que comunicação, se é poder ou gera poder, não significa que contém a verdade. A bíblia cristã, por exemplo, foi o fruto de escolhas que mudaram a mentalidade humana: se os compiladores tivessem escolhido outros livros, que continham outras informações ou outras ideologias diferentes das que estão hoje nesse livro, outra poderia ser a doutrina cristã. E mais: a bíblica cristã foi canonizada como verdade e mesmo que contenha informações ou ideias e ideologias contraditórias que o tempo provou serem inverdades e, às vezes, verdadeiros absurdos, ela não pode ser modificada, pois é um livro sagrado. E isso vale para todos os demais cânones sagrados de todas as demais religiões. Outras redes de comunicação, no entanto, puderam, através da história, constituir formas ou maneiras de se autorregularem e de poderem se alterar. Toda revolução trouxe para uma humanidade dois lados: o de progresso e de desenvolvimento e outro de muita desinformação e até mesmo muitas desgraças; as revoluções trouxeram o bem e também o mal. Criamos muitas mitologias, para atingir objetivos nem sempre baseados na melhor escolha. No entanto, pudemos nos livrar de muitos de seus males, porque seus sistemas de informação não eram sagrados, podiam ser modificados. Agora, estamos diante de uma revolução que pode trazer para a humanidade uma aurora de progresso inimaginável ou lançá-la num processo de autodestruição sem precedentes, com a Inteligência Artificial, um sistema de informação que tem a capacidade de se autogerir e evoluir até a um ponto muito além de nossa capacidade de compreensão. Não há catastrofismo nas advertências do autor, mas apenas o alerta de que precisamos não nos deixar dominar por essa nova inteligência não humana que ameaça ou pode ameaçar a própria existência da humanidade. Assim como no passado fizemos nossas escolhas, precisamos de muita inteligência e criatividade humanas para percebermos que a informação dessa poderosa rede de computadores não é a matéria prima da verdade. Temos que impedir que episódios como a caça às bruxas, como o nazismo e estalinismo sejam replicados por governos totalitários ou usados por governantes populistas para nos escravizar ou nos levar para caminhos de destruição e sofrimento, usando como arma essa fantástica criação humana que é a Inteligência Artificial. Para isso, a humanidade precisa criar regulamentos ou regramentos que não permitam ou tentem impedir o uso da IA de forma indiscriminada ou para o mal. Enfim, um livro para se ler com os olhos no passado e o pensamento no futuro, principalmente agora que estamos diante de ameaças ainda maiores provocadas pelo aquecimento global, fruto de escolhas que o capitalismo nos impingiu há séculos. A IA pode nos salvar, mas isso só depende de nossas escolhas.