terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O desafio poliamoroso – por uma nova política dos afetos, Brigitte Vasallo

O desafio poliamoroso – por uma nova política dos afetos, Brigitte Vasallo


Mesmo para o leitor mais “descolado”, o livro é um desafio, o que acontece sempre que alguém defende ideias que ultrapassam aquilo que se considera “senso comum”, principalmente num aspecto humano dos mais complexos que são as relações amorosas e familiares. Pode não ser uma ideia nova, mas defendida com novos e profundos argumentos, o poliamor ganha neste livro instigante novas cores e novas perspectivas. Deixa claro, em várias repetições, a autora que poliamor não é poligamia. São conceitos próximos, sem dúvida, mas paralelos, ou seja, não tem o conceito de poliamor o ranço do machismo e de outros preconceitos, como LGBTfobia, ou dos princípios monogâmicos que se inserem nas relações poligâmicas. E a monogamia, ou seja, a relação mais do que tradicional entre um homem e uma mulher, caracterizada no livro como um conceito falido que atravessa os tempos, mas só causa sofrimento e violência, é o alvo principal das críticas acerbas da autora. Levanta questões importantes sobre o tema e leva o leitor, por mais aferrado que ele seja à tradição, a pelo menos repensar as relações amorosas, a tomar consciência de que realmente as amarras monogâmicas são fonte de escravidão e de violência contra si mesmo e contra a própria sociedade, ao manter uma instituição que não se sustenta, senão pelo hábito secular, imposto por sistemas deístas e religiosos, confirmados e manipulados pelo capitalismo. Exalta e confirma o poliamor como uma forma não só de independência, capaz de trazer novas perspectivas para os seres humanos, mas também de amor liberto de amarras, embora seja uma conquista não muito fácil, já que as redes de afeto poliamoroso precisam se livrar, também elas, dos preceitos rançosos e violentos da monogamia, para não se transformar em sofrimento para seus componentes. Para evitar isso, prescreve com ênfase não a fidelidade monogâmica, mas a franqueza e honestidade de princípios de cada um dos seus membros. Não é o livro apenas uma digressão filosófica e sociológica, teórica, mas nos leva a um passeio pelas próprias experiências da autora, com coragem e com a certeza de que ela realmente está propondo, como diz o subtítulo, uma nova política dos afetos, um passo além do feminismo e de superação até mesmo de um capitalismo que dita as regras e os comportamentos amorosos, como forma de nos escravizar, pois, pergunta ela: “o exclusivo nos trará mesmo felicidade?” Leia, leia o livro, que ele mudará algo em você, leitor, e mudará para melhor, mesmo que não concorde com todas as ideias propostas ali por Brigitte Vasallo, essa corajosa escritora espanhola.

sábado, 17 de janeiro de 2026

O corcunda de Notre Dame, Victor Hugo

O corcunda de Notre Dame, Victor Hugo


Como é bom ler ou reler Victor Hugo! Mas, não é para elogiar o “monstro sagrado “da literatura francesa que vou escrever esse breve comentário. Aliás, fugirei um pouco de minhas características, para comentar as personagens desse longo e complexo romance, ressaltando que Victor Hugo inicia a história do livro num dia 6 de janeiro de 1482, em Paris. Vamos aos personagens principais. Pierre Gringoire: poeta, pobre, filósofo; é uma das personagens bem construídas do livro: seu discurso para se livrar da forca diante do rei Luís XI é, ao mesmo tempo, hilário e convincente, um dos pontos interessantes do livro. Claude Frollo: é talvez a personagem mais complexa e cheia de contradições, padre erudito e arquidiácono da diocese de Notre Dame, cultua ao mesmo tempo o esoterismo, buscando a pedra filosofal, enquanto nutre uma paixão avassaladora pela jovem Esmeralda; o capítulo em que ele sai, alucinado, pelas ruas de Paris é um dos pontos altos do romance, páginas de grande força dramática; seu fim é trágico. Esmeralda: a jovem cigana ou egípcia (como se dizia na época) de 16 anos que encanta a cidade com sua dança e seus truques com a cabra amestrada de pés dourados, Djali, tem apenas isso: encanto e uma paixão por um soldado chamado Pheobus que é apenas um mulherengo vulgar, que deseja apenas se aproveitar da beleza da garota. Quasímodo: é a personagem mais famosa do livro; um jovem disforme, corcunda e surdo que foi abandonado pela mãe e criado na catedral por Claude Frollo; apaixonado por Esmeralda, tem consciência de suas condições e luta para salvá-la. Gudule, a ex-prostituta que mora no “Buraco dos Ratos”, um cubículo da praça de Grève, e odeia todas as ciganas, especialmente Esmeralda; é a personagem melodramática da trama, pois sua identidade só será revelada quando de seu final trágico. Há muitas outras figuras interessantes no livro; essas, porém, são as que constituem a espinha dorsal da trama. Mas, há ainda duas personagens, que considero as principais: a igreja de Notre Dame e a cidade de Paris. Notre Dame, com suas torres e mistérios, descritos à exaustão por Victor Hugo, ganha vida e palpitação, pois muito da história do livro acontece em seu entornor ou dentro de suas paredes já centenárias, na época. Aliás, conta-se que Victor Hugo escreve esse romance como uma forma de chamar a atenção das autoridade do século XIX para a conservação da catedral, na época quase em ruínas. Por outro lado, a Paris do século XV parece ser a paixão do autor. Reconstituída detalhadamente, através de inúmeras fontes, ele nos leva a flanar pelas ruas, vielas e praças de todos os bairros da cidade, fazendo dela uma personagem fundamental no enredo, com seus habitantes bizarros, suas casas e mansões, seus palácios e igrejas, sem esquecer o rio Sena, que abraça a Cité. Enfim, a história de Esmeralda e seus loucos apaixonados (Frollo e Quasímodo) e sua grande paixão (Phoebus) só ganha em emoção e pinceladas de tragédia nessa cidade medieval e complexa, num dos romances mais importantes da literatura francesa, talvez da literatura mundial, uma história que já faz parte do imaginário ocidental, contada com emoção e perícia por um dos mais brilhantes autores do século XIX. Por isso, repito: é sempre muito bom ler, ou reler, Victor Hugo.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Os cristãos e a queda de Roma, Edward Gibbon


Os cristãos e a queda de Roma, Edward Gibbon


Trata-se de um ensaio extraído de uma obra bem mais extensa, “Declínio e queda do Império Romano”, do historiador inglês Edward Gibbon (1737-1794). Traz o texto a marca indelével da mentalidade do século XVIII: deísta, cristão e católico. Para o leitor do século XX que ainda tenha essa mesma mentalidade, pode ser um prato cheio, cheio de equívocos, na minha opinião de ateu, embora se aproveitem algumas ideias que ajudam a explicar o sucesso de uma seita, o cristianismo, que tem um crescimento espantoso durante os dois primeiros séculos depois de Cristo. Não há dúvida de que, como diz o autor, o politeísmo greco-romano entrava naquele momento num período de decadência e cansaço, já que os seus deuses nada entregavam em troca dos sacrifícios a eles dedicados, e muito pouco prometiam a seus seguidores. O cristianismo surge prometendo algo inusitado e de grande poder agregador: a vida eterna àqueles que o adotassem e seguissem suas leis e regras. O conceito de alma imortal não era de todo desconhecido pelos filósfos, mas não tinha a popularidade que os cristãos lhe deram. E mais: o cristianismo soube divulgar de forma extremamente competente o conceito de fé em acontecimentos extraordinários, os milagres, apresentando como prodígios às vezes fatos comuns e repetindo ad nauseam narrativas não comprovadas de curas, de ressurreição de mortos etc. Também souberam divulgar como diferencial das demais seitas a moralidade dos primeiros cristãos e, posteriormente, através de uma estrutura baseada na formatação dos exércitos romanos, organiza-se burocraticamente e, com isso, consegue unir em torno de ideias comuns inúmeras e distantes cidades do Império Romano e espalhar-se por todo o Ocidente e parte do Oriente. Tudo isso é narrado pelo autor, praticamente sem fontes históricas, apenas com o poder de sua prosa, aliás, uma prosa elegante e persuasiva. Ao fim e ao cabo, um belo trabalho literário, mas historicamente discutível. Vale a pena ler? Sim, se pensarmos que há, ali, ideias esclarecedoras de um fato histórico, embora visto sob o viés da fé, já que o autor atribui à sabedoria divina o surgimento do cristianismo naquele momento de crise do politeísmo e, consequentemente, toda a expansão dessa seita.