quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico, Wladimir Safatle, Nelson da Silva Junior, Christian Dunker (organizadores)

Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico, 
Wladimir Safatle, Nelson da Silva Junior, Christian Dunker 
(organizadores)


Como leigo em economia e nas ciências do ramo psi (psicologia, psiquiatria, psicanálise), confesso que foi quase um sofrimento psíquico enfrentar as páginas desse livro. Mas, toda vez que lia um trecho do qual quase nada entendia, lembrava um amigo da área de propaganda e marketing, quando, uma vez reclamei com ele que não entendia uma determinada propaganda que martelava na televisão em horário nobre. Respondeu-me: se você não entende, não se preocupe: você não é o público-alvo dessa propaganda. Óbvio, pensei, como pensei agora: se não entendi tal ou tal trecho desse livro é porque ele não foi escrito para mim. E segui em frente, às vezes meio tonto com o jargão da economia misturado ao jargão das ciências psi. Esse desconforto ocorreu várias vezes, pelo menos, nos primeiros capítulos, quando a pegada dos autores foi realmente explicar o surgimento do neoliberalismo, com a citação de inúmeros economistas e suas teorias, desde os primórdios da primeira revolução industrial até a segunda metade do século XX, Sim, sofri um pouco para apreender pelo menos uma parte de tudo quanto ali estava escrito. Mas, valeu a pena. Os últimos capítulos, quando o assunto chega finalmente ao Brasil, os textos se abrem com muita clareza para me levar a uma viagem de volta a um tempo que foi o meu tempo: a segunda metade do século XX, quando acompanhei desde muito cedo os governos de Juscelino, de Jânio, Jango, o golpe militar e, depois, a luta pela democratização, a nova constituição, Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique, Lula, Dilma, Bolsonaro. Mas, a história contada pelos autores de “Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico” teve, para mim, surpresas e novidades que, se as intuíra alguma vez, não tivera capacidade de analisá-las ou compreendê-las em sua totalidade enquanto estava no olho do furação que foram os anos de chumbo, de redemocratização e, principalmente, a segunda década do século XXI, agora sob um viés impensável: à luz da psiquiatria, com pitadas de Freud e companhia. O tema é complexo: o neoliberalismo, segundo os autores, começou a trazer sofrimento psíquico à humanidade há muito tempo, mas sua estreia na prática ocorreu no Chile, quando Pinochet assassinou o presidente Allende, tomou o poder e trouxe para aplicar a seu “governo” as ideias neoliberais dos economistas do grupo de Chicago. Isso explica muita coisa do Chile, mas não é do país amigo que eu quero falar. No Brasil, o neoliberalismo faz sua estreia no governo de Fernando Henrique Cardoso, embora já viesse contaminando vários governos anteriores, pelo menos na sua face menos terrível, o liberalismo. Já vários teóricos vinham preparando o cadinho ideológico para abrir as portas do inferno neoliberal e os autores analisam a ideologia de vários deles, desde a década de 60. Sim, meu caro eventual leitor: não exagero quando digo que as portas do inferno se abriram para o neoliberalismo. Na verdade, o neoliberalismo é o próprio inferno, um inferno tão terrível quanto aquele descrito por Dante Alighieri no final da Idade Média. Seu ideário de maldades é para deixar qualquer capeta dando pulos de alegria, e pior: ele – o ideário de maldades neoliberais é tão complexo, determinado e desumano, que ele se vende a nós, pobres vítimas, como solução de todos os nossos problemas, fazendo que nos entreguemos às leis do senhor mercado – o demônio de todos os demônios – de braços abertos, como cordeiros ao cepo que nos levará à destruição, porque não é outro o fim que descortinamos com a leitura desse livro complexo, mas fundamental para entendermos que, se não destruirmos o capitalismo e, principalmente, sua versão mais terrível, o neoliberalismo, o mundo que deixaremos para as próximas gerações será um mundo de terra arrasada. Pode ter certeza: o diabo é muito mais feio do que nossos piores pesadelos. Não fiquemos indiferentes, que as eleições vêm aí e precisamos nos preparar para exorcizar os demônios que estão aí prontos para nos dar um novo golpe e levar o Brasil para o clube infernal, que já tem Trump, Milei, Erdogan, Netanyahu, Macron...


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