Emma, Jane Austen
Publicado em 1815, “Emma” é o típico romance de fim do século XVIII, quando ainda é tímida a mudança da sociedade inglesa, impactada pela revolução industrial, quando as elites entram em decadência e começam a surgir as classes burguesas, alimentadas pelo capitalismo. O cenário é uma pequena cidade a 25 km de Londres, na verdade quase um subúrbio. Ali ainda moram os “nobres” proprietários de terra, uma gente ociosa que vive do trabalho alheio, os “bem-nascidos”, detalhadamente retratados no romance, com seus usos e costumes fincados na tradição e no chamado “sangue”. Essa a primeira “camada” social. Em seguida, já se percebem alguns cidadãos que ascendem à sociedade, por serem fazendeiros, comerciantes etc., a nova e ainda tímida burguesia, constituindo a segunda “camada” social, aquela que, no romance, ainda causa com uma certa justiça arrepios na nobreza, pois irá, pouco a pouco, decretar sua decadência e uma mudança profunda de costumes. . A terceira “camada” são os criados, cocheiros, domésticas etc., ou seja, a classe de trabalhadores braçais que sustenta o luxo e a ociosidade dos nobres, cujos nomes raramente são citados no romance, uma gente praticamente “invisível”. Nesse cadinho da pequena cidade interirorana, pontifica a família Woodhouse, constituída pelo patriarca, viúvo sedentário e cheio de achaques e pelas suas filhas Emma e Isabelle, sendo que essa última já é casada e mora com o marido e os filhos em Londres. Emma cuida do pai e administra a casa. A história começa com o casamento da governanta que cuidou de Emma desde os cinco anos de idade, que vai morar com o marido a 800 metros da casa, o que mantém o vínculo de amizade que os Woodhouse sentem pelo casal. Esse casamento, lamentado profundamente pelo pai de Emma, que não se conforma em perder a governanta e é contra casamentos, ironicamente foi “arranjado” pela filha, jovem de 20 anos, muito bonita, inteligente e encantadora, que está decidida a jamais se casar, mas que se descobre, então, como um talento para aproximar casais. Por essa razão, resolve aproximar sua nova amiga, Harriet, uma jovem órfã e muito bonita, de um dos frequentadores da casa, o senhor Elton, para desespero de outro amigo e habitué dos Woodhouse: George Knightley, que ganhará grande importância no enredo do livro. Esse é o estopim para as inúmeras histórias e intrigas do romance. Bem, são muitas as personagens e muitas as tramas e subtramas desse microuniverso da sociedade inglesa. A autora não poupa detalhes e características da vida e das relações de cada uma, traçando um painel impressionante desse momento de transformações em que estão todos imersos, sem terem noção disso. Com humor e ironia sutis, leva o leitor pelos meandros dos sentimentos, dos amores, das decepções, dos sonhos, dos mistérios e segredos de cada personagem, numa prosa tranquila e bem articulada, numa lenta, mas, sem dúvida, interessante saga de uma jovem casamenteira e seus amigos e vizinhos, na Inglaterra do início do século XIX, justificando a fama de ser uma das grandes escritoras de língua inglesa. Um romance para se ler com calma, sem preconceitos, e usufruir cada capítulo, cada parágrafo, cada situação narrada e detalhada como típico romance de época. Uma época que parece tão distante da nossa, mas que, na realidade, forjou o mundo em que vivemos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário