Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, Carolina Maria de Jesus
Por que ler Carolina Maria de Jesus hoje? Talvez esta não seja a pergunta correta, e sim: como ler Carolina Maria de Jesus hoje? Os tempos mudaram desde a publicação do livro “Quarto de despejo”, em 1960. Seu diário, que chocou a burguesia da época, cobre os anos de 1955-1960, parece um tanto ingênuo ao leitor de hoje, acostumado a ver nas “comunidades” (o nome politicamente correto para as favelas) a violência do tráfico juntamente com problemas recorrentes (embora num outro nível) dos anos cinquenta: falta de infraestrutura, ausência do Estado, preconceito das forças policiais, que veem em cada favelado um traficante, muita violência etc. etc. etc. Nossa escritora lá dos tempos do Juscelino, e é bom que marquemos isso, narra problemas de infraestrutura, muita pobreza, relacionamentos complicados e violência entre os moradores e, principalmente, a fome, muita fome (que é talvez a palavra que mais aparece no livro). Hoje a fome tem outros nomes, mais pomposos, como “insegurança alimentar”, mas ainda ronda muitas comunidades, ainda que em nível diferente do que acontecia na favela do Canindé, que existia às margens do Tietê, onde passa hoje uma grande e movimentada avenida, e onde tentava sobreviver catando papel nas ruas a nossa heroína e escritora. Tem ela noção exata de seu grau de pobreza e tem claras noções de política, já que critica todos os políticos, que só aparecem em tempos de eleição, eles, inclusive o presidente Juscelino, e com razão, já que seu governo se voltou para o desenvolvimentismo e esqueceu o lado social. É interessante notar que Carolina não fala de suas origens (ela é mineira de Sacramento, nascida provavelmente em 1914), nem como veio para São Paulo e acabou na favela. Também fala muito pouco de sua vida íntima, de seus amores. Só sabemos que tem três filhos pequenos (uma menina e dois meninos, provavelmente de pais diferentes). Seu diário foca, ressaltamos, o dia a dia da favela e os perrengues que todos passam para sobreviver à extrema pobreza, à desigualdades de classe, de gênero, de raça e à falta de perspectiva. Para concluir esse breve comentário, o diário de Carolina foi descoberto pelo repórter Audálio Dantas e foi um grande sucesso que, se permitiu que ela deixasse a favela, não lhe trouxe riqueza nem condições de viver dignamente até sua morte, de novo empobrecida, em 1977. Então, respondendo à pergunta, antes de encerrar: como ler Carolina hoje? – digo que se deve ler com o mesmo espanto de há mais de 70 anos, por ter o Brasil progredido tanto e não ter ainda resolvido a questão da desigualdade social.

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