terça-feira, 21 de julho de 2026

Nomadland: Sobrevivendo aos Estados Unidos no século XXI, Jessica Bruder

Nomadland: Sobrevivendo aos Estados Unidos no século XXI, Jessica Bruder


A paixão dos estadunidenses por RVs (veículos de recreação) e trailers teve um primeiro boom na década de 30, mas arrefeceu nos anos seguintes. Mas voltou com tudo, quando a bolha imobiliária estourou em 2008, milhares perderam as casas e os empregos, principalmente a classe média constituída de pessoas mais velhas, os 50+, expulsos do mercado por uma série de motivos, inclusive por etarismo. A solução para essas pessoas não era morar nas ruas, tornar-se homelless (sem teto). Eles passaram a ser sem-casa, não sem teto, porque começaram a adaptar RVs, trailers, ônibus e vans como moradia nômade, para cruzar os Estados Unidos em busca de trabalho temporário e mal pago em grandes empresas, como em galpões da Amazon, ou em colheitas sazonais que exigiam aumento de mão de obra não especializada, para complementar os baixos rendimentos de aposentadorias ou mesmo como forma de sobrevivência. O país se tornou a terra dos nômades. E é dessa população que trata o livro de Jessica Bruder, na verdade uma longa reportagem que mergulha nos Estados Unidos profundos, aquele país que não aparece nas propagandas e não é visto nas grandes cidades ou nas cidades turísticas. O fio condutor da história, que podemos chamar de protagonista, é Linda May, uma semiaposentada de pouco mais de 60 anos ex-quase-tudo: garçonete, caixa de loja de departamento, empreiteira e avó Linda May. A jornalista pega a estrada num veículo de segunda mão, apelidado de “Van Halen”, para se aproximar de seus alvos e conhecer pessoas, além de Linda, como um ex-professor, um executivo do McDonald's, um ministro de igreja, um policial aposentado e veteranos de guerra, entre muitos outros. Relata com sensibilidade suas vidas, seus perrengues, sua criatividade na busca de empregos, na reforma de seus veículos, na busca de lugares seguros para estacionar, na tentativa de evitar encontros com policiais mal-humorados, na realização de encontros e festas em lugares distantes e ermos. Mas, também é uma população que não perde nunca a esperança e tem na força do trabalho, ainda que mal pago, a busca da realização de sonhos que podem parecer até mesmo absurdos, como a da protagonista Linda, que sonha construir em algum local distante uma earthship, casa autossustentável (projetada pelo arquiteto Michael Reynolds), construída com pneus compactados e materiais reciclados. Estamos diante de uma nova realidade que deixa distante a ideia do “sonho americano” de segurança e prosperidade. A autora afirma que os Estados Unidos são, entre os países desenvolvidos, aquele que possui a maior desigualdade social: nas médias salariais, a diferença entre o menor e o maior salário é de 81 vezes. Esse o lado sombrio da “grande nação”, hoje governada por um idiota que gasta bilhões numa guerra absurda contra o Iraque e ameaça o mundo não só com tarifas, mas também com anexação de territórios. Não sei como estão sobrevivendo à era Trump os sem-casa, os nômades que aceitam até mesmo os empregos anteriormente tidos como degradantes, como lavar latrinas, já que o livro termina em 2017, quando a autora nos conta que Linda está começando a realizar seu sonho de uma “earthship”, num terreno localizado na fronteira com o México, no sul dos Estados Unidos. Uma grande reportagem para ser lida por quem não acredita na “terra dos sonhos” ou, para quem ainda acredita tomar um banho de realidade sobre o “grande irmão” do Norte.

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