Nossa parte de noite, Mariana Enriquez
A violenta ditadura militar na Argentina durou de 1976 a 1983, tempo suficiente para atrocidades como tortura, prisão e morte de milhares de pessoas, bebês sequestrados etc. O tempo do romance “Nossa parte de noite” ultrapassa o tempo da ditadura, tanto para trás como para frente, mas tem como pano de fundo principal os horrores cometidos pelos militares. A história do romance é longa e complexa. Uma sociedade secreta, trazida da África para a Argentina há séculos é comandada pela família Reyes, cujos membros, em busca da eternidade, realizam rituais para uma entidade chamada Escuridão, para os quais há necessidade de um médium. Menino ainda, Juan foi detectado com um poderoso xamã para a seita e a família o adotou, principalmente porque ele precisava de cirurgias complexas para salvar sua vida. Juan cresceu dentro dos rituais, como médium, sabendo, no entanto, que a Escuridão consumia sua vida e ele teria pouco tempo de vida, além do fato de que esses rituais eram extremamente violentos: a entidade exigia muitos sacrifícios humanos, principalmente de crianças e jovens, mantidos engaiolados pela família. Casa-se com uma herdeira dos Reyes, Rosario, e com ela tem um filho, Gaspar. A partir daí, dedica sua vida a tentar proteger esse filho da sanha dos rituais violentos, já que ele seria seu sucessor. Como pai, justamente por saber que a família faria tudo para aprisionar a criança e porque sofre dores terríveis em consequência dos rituais, tem crises alternadas de violência e carinho para com o filho, que cresce sem entender por que o pai tinha tais atitudes para com ele, principalmente depois da morte misteriosa da sua mãe, aos 4 ou 5 anos. Depois que seu pai também morre, Gaspar, herdeiro não só da tradição mediúnica da família, mas também da sua enorme riqueza, é criado por um tio, Luís, irmão de seu pai. Depois que sua melhor amiga de infância desparece misteriosamente, quando seu grupo de amigos invade uma casa assombrada no bairro onde moram, Gaspar cresce com crises diagnosticadas por médicos como sendo várias doenças mentais, sem que se chegue a um diagnóstico definitivo, porque o que ele sofre são as consequências de sua origem. Vai, então, em busca de explicações e se depara com os mistérios da Ordem e da Escuridão, contra as quais trava um combate mental e físico, para não ser envolvido pelos seus rituais, como não desejava seu pai. Uma história, repito, complexa, contada com detalhes de horror e medo, num romance de estilo gótico, por uma escritora que domina a técnica literária com que envolve o leitor da primeira à última página, ao combinar todo o mistério da trama ficcional com os dramas humanos da população argentina, não só relacionados à ferocidade da ditadura, mas também à chegada da Aids. Talvez uma grande metáfora de um período de trevas e sofrimento. P.S.: aqui mesmo, neste blog, o leitor pode encontrar a resenha de outro livro seu: “As coisas que perdemos no fogo”.
