segunda-feira, 28 de setembro de 2026

A idade do ferro, J. M. Coetzee

A idade do ferro, J. M. Coetzee


Já quase ao final do livro ficamos sabendo o nome da protagonista, Mrs. Curren, mas isso absolutamente não importa. Estamos diante de uma senhora branca, culta, professora aposentada, que mora na África do Sul durante o regime do apartheid, doente com um câncer terminal, que escreve uma longa missiva para sua filha que mora nos Estados Unidos, onde se casou e teve filhos, nunca mais voltando ao seu país de origem. Mora sozinha, essa senhora, já que o marido a abandonou há muitos anos. E então, um dia, encontra dormindo em seu quintal um vagabundo e seu cão, um homem de idade indefinida. Resolve deixá-lo morar lá e, aos poucos, esse homem, de nome Vercueil, ganha sua confiança e torna-se uma espécie de acompanhante de sua complexa trajetória de final de vida. Não é de meu feitio fazer ilações literárias ou análises dos livros que leio, mas não posso deixar de registrar a impressão que me ficou de um certo paralelismo entre os acontecimentos por que passa a nossa heroína e a trajetória de Dante, no Inferno, acompanhado pelo poeta Virgílio. Vercueil é uma espécie de Virgílio inculto, até um tanto grosseiro, taciturno e silente, mas presente em quase todos os percalços infernais da vida de Mrs. Curren. Vamos a um brevíssimo relato do que ela escreve a sua filham ou seja, da sua vida. Para ajudá-la nas tarefas domésticas, conta com a ajuda de uma empregada negra que vem dos bairros miseráveis onde vive e sobrevive em meio à violência e o abandono dos poderes públicos. Tem ela três filhos: duas meninas, com nomes fortes como Hope (Esperança) e Beauty (Beleza), e um garoto adolescente que se envolve com a resistência, juntamente com um amigo de escola. Ambos acabam mortos pela polícia e isso determinará, entre outros fatores, como solidão, inconformismo, progressão da doença, limitação física, idade, sua trajetória de tristeza, abandono e desesperança, principalmente desesperança em relação a seu país, diante das lutas fratricidas entre brancos e negros que incendeiam a África do Sul, por causa da situação de desigualdade da população negra diante dos brancos, situação contra a qual ela militou durante toda a vida. E agora, fraca e no final da vida, só tem mesmo a companhia de Vercueil, para ajudá-la a tentar superar todo o horror que ela vive diante da repressão policial e de sua própria situação de impotência. É um romance curto, não exige muito tempo de leitura, mas tem muitas páginas de reflexão sobre a vida, o envelhecimento, a solidão, que não nos permitem ficar insensíveis diante da vida dessa mulher, lendo sua carta à filha distante e, nessa carta, todo o seu inconformismo diante da situação de seu país. Um livro realmente extraordinário, por um dos maiores nomes da moderna literatura africana.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

A ilha do dia anterior, Umberto Eco


A ilha do dia anterior, Umberto Eco


Um livro excepcional que exige uma leitura lenta e atenta, pois a história é recheada de referências a grandes obras do passado e a praticamente toda a ciência até então conhecida, pois nos leva ao século XVII, na Itália e na França, para narrar a trajetória de um jovem piemontês da pequena nobreza de Monteferrato que, durante uma missão secreta a serviço do cardeal Mazarino, tem seu navio Amarillis naufragado por uma forte tempestade nos mares do Sul. Toda a tripulação do navio desaparece, exceto Roberto, salvo por uma tábua que, depois de muitos dias à deriva, leva-o ao costado de um outro navio, o Daphne. A bordo do Daphne, descobre ser ele uma espécie de navio fantasma: toda a sua tripulação desaparecera (embora vá encontrar um sobrevivente mais tarde), mas repleto de objetos antigos, metais, até aves e animais vivos, tonéis com aguardente e água. Ali sobrevive por algum tempo, quando sua imaginação começa criar um duplo, uma espécie de doppelgänger, mas um “irmão” que o perseguia em Paris, tomando seu lugar, e que está a bordo. Na busca quase insana por esse duplo, encontra, escondido por medo, um padre muito culto, Caspar, que o incentiva a aprender a nadar para conseguir chegar à ilha próxima, onde ele esteve e construiu uma espécie de telescópio. Quando o padre também desaparece, Roberto começa a delirar com o “irmão” e com a mulher a quem amou em segredo, na Paris barroca dos salões e da pequena nobreza do século XVII, criando em sua mente uma espécie de romance dentro do romance, esse último narrado por um escritor onisciente do século XX (o autor, Eco), que teria encontrado os papéis com as anotações do náufrago que deseja encontrar a longitude que lhe permita alcançar a ilha inatingível no dia anterior, pela mudança de fuso horário. Enfim, um romance barroco, longo e complexo, mas extremamente prazeroso de ser lido.

sábado, 12 de setembro de 2026

O gato que atravessa paredes – uma comédia de costumes, Robert A. Heinlein

O gato que atravessa paredes – uma comédia de costumes, Robert A. Heinlein


Dos chamados “três grandes” da ficção científica de língua inglesa, Arthur C. Clark, Isaac Asimov e Robert A. Heinlein, não havia ainda lido esse último. E a surpresa de “O gato que atravessa paredes”, para mim, foi a constatação de uma ficção quase delirante, irônica e divertida, embora não seja esse um livro fácil de ler. A história de passa em futuros distantes, e eu digo futuros, porque não há exatamente a fixação de um tempo, mas viagens estranhas e extraordinárias no tempo, quando as pessoas podem viver centenas e talvez milhares de anos, em planetas distantes ou aqui na velha Terra ou em Luna/Lua. E é exatamente em Luna onde começa a história do coronel Colin Campbell, conhecido também como Dr. Richard Ames ou como senador Richard Johnson, que não tem um pé, à mesa de um restaurante em companhia de sua provável nova namorada, a pequenina, bela, sensual e enigmática Gwen Novak, quando um estranho se senta à sua frente e lhe diz que ele precisa matar alguém chamado Tolliver, ou ambos morrerão. Esse estranho pedido ocorre logo que Gwen saíra para ir à toalete. Quando, enfim, o estranho se dispõe a lhe entregar uma carteira de identidade e o show na boate começa, surge um ponto negro no peito do estranho, um dardo que explode em seu corpo o mata instantaneamente. Os garçons imediatamente livram-se do corpo. A partir daí, a vida do coronel se transformará numa sucessão incrível de acontecimentos, em que ele é ferido numa briga, levado para um hospital, ganha um pé novo transplantado e viaja no tempo e no espaço, em naves pilotadas por computadores superinteligentes, que a tudo proveem, sempre com sua companheira, Gwen, com quem se casara e de quem pouco sabe, apenas soube que ela tem mais de duzentos anos, apesar da aparência jovem e de toda a sua sensualidade. Entra em contato com uma sociedade que vive num futuro tecnológico, mas também um tanto hedonista, de liberdade sexual, onde há estranhas relações de parentesco e nem ele nem nós, leitores, sabemos muito bem por que o perseguem e por que ele tem sempre que fugir. Enfim, um enredo complexo, mas divertido, em que a ironia do autor nos diverte com os inspirados diálogos de puro non sense, como, aliás, é toda a história, sem dúvida, narrada por uma imaginação extremamente criativa.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Hilda Furacão, Roberto Drummond

Hilda Furacão, Roberto Drummond


A jovem chamada “Garota do Maiô Dourado”, que frequentava a piscina e as “missas dançantes" de um clube tradicional de Belo Horizonte, e atraía a atenção de jovens e velhos e ricos da alta sociedade, num dia 1º de abril de 1969, resolve mudar-se para o quarto 304 do Maravilhoso Hotel, na zona boêmia da cidade e tornar-se a prostituta que irá incendiar as mentes e a libido da sociedade mineira, principalmente dos ricos coronéis, que lhe prometem fortunas por um casamento que ela sempre rejeita. Enquanto isso, três rapazes provindos da cidade interiorana de Ferros tentam a sorte na capital: o primeiro queria ser santo e torna-se frade franciscano; o segundo queria ser ator e conquistar Hollywood, mas se torna apenas um conquistador de aluguel, encaminhando moças virgens para um riquíssimo colecionador de mulheres, que pretendia ter mil filhos com mil mulheres; o terceiro é o próprio narrador/autor do livro. Muitas são as histórias que se cruzam, muitos os folclores que precisam ser contados, principalmente na trajetória do narrador, jornalista que passa por várias redações e se torna amigo de Hilda e lhe promete escrever um romance contando sua vida, desde que ela lhe desvende o grande mistério: por que se tornou prostituta, se podia ter-se casado com um milionário e ter uma vida de luxo e riqueza. Muitos personagens aparecem na narrativa, misturando ficção e realidade, num tempo de grande efervescência política, que vai desaguar no golpe militar de 1964. E é justamente no dia 1º de abril de 1964, data do golpe, que Hilda Furacão resolve abandonar a vida de prostituta e passar a viver com seu grande amor, o padre franciscano que ela conheceu numa situação inusitada quando, alguns anos antes, a sociedade mineira liderada por senhoras conservadoras e carolas convidou o frade a participar de uma caminhada que terminaria com o exorcismo de Hilda Furacão, para livrar Belo Horizonte do pecado. Para encerrar esse breve comentário sobre um livro que, como Hilda, incendiou as mentes brasileiras nos anos 90, ao ser transformado em uma série televisiva, passada na Rede Globo, devo dizer ao leitor destas linhas que há muito mais histórias relacionadas à sociedade mineira conservadora (e isso, para mim, é um pleonasmo) da época do que propriamente a história de Hilda Furacão, já que, embora sua figura perpasse por todas as páginas, como um ente abstrato, sua trajetória, seus amores e suas motivações são muito pouco explorados por Roberto Drummond. Para encerrar definitivamente: pode ser que pareça datado, mas “Hilda Furacão”, o livro, ainda hoje permanece uma leitura extremamente agradável, daqueles livros que pegam o leitor desde a primeira página e o levam a degustar a prosa solta, irreverente e irônica de Roberto Drummond, falecido aos 68 anos, em 2002, até o desfecho dúbio da trajetória de uma personagem que se tornou símbolo de um país cujos sonhos se transformaram em pesadelo e, por isso, uma personagem inesquecível.