terça-feira, 25 de agosto de 2026

A maçã envenenada, Michel Laub

A maçã envenenada, Michel Laub


Em 1993, em Porto Alegre, o narrador tem 18 anos e namora Valéria, uma jovem um pouco mais experiente que ele e um tanto complicada. Combinaram assistir juntos ao show do Nirvana, no estádio do Morumbi, em São Paulo. Compraram os ingressos e passagens. Ela viajou primeiro, com um amigo dele. Mas, o rapaz fazia o CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva), como serviço militar obrigatório e não conseguiu fugir do quartel, o que o levaria à prisão. Em 1994, o líder da banda, Kurt Cobain se suicidou com um tiro de espingarda. Na mesma época, a jovem ruandesa Immaculée Ilibagiza ficou presa dentro de um banheiro, juntamente com outras sete mulheres, para fugir ao genocídio praticado por uma organização paramilitar hutu contra outras minorias, principalmente tutsis, no qual morreram quase todos os membros de sua família. Em torno desses dois acontecimentos, o autor/narrador entretece sua passagem pelo exército, seu romance com Valéria, sua vida de estudante e músico de uma banda de garagem, sua vida em Porto Alegre e, depois, suas viagens, para comentar com emoção, lirismo e, às vezes, uma certa secura e desalento, as diferenças de universos tão díspares quanto o mundo da música e do quartel, sobre o que pensam, o que leem e que música ouvem os jovens dessa época, seus sonhos e dissabores e sobre a própria vida, num tempo de idolatrias e mudanças. O livro é também sobre perdas e solidão, sobre conseguir sobreviver apesar de todos os percalços, e ainda uma reflexão sobre o suicídio. Parece mórbido? Não para a forma como tudo se mistura na prosa muito bem articulada do autor, para que essa história – às vezes triste, às vezes um tanto irônica – não chegue ao leitor como um fardo pesado, mas com a leveza de uma pluma, apesar da carga de uma maçã envenenada, como na canção de Kurt Cobain, Drain you.

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