A desumanização, Valter Hugo Mãe
Halla, a personagem principal do livro, tem apenas 11 anos e sofre a perda de sua irmã gêmea, Sigridur, cujo corpo é “plantado” no alto de uma geleira na gélida Islândia, onde transcorre um dos dramas mais pungentes jamais narrados em língua portuguesa. A memória da irmã irá pautar e permanecer durante toda a trajetória dessa garota que vive e percorre os caminhos e os fiordes, contaminada pela solidão da paisagem de sua terra natal. Um conselho que ela traz da irmã – jamais namore o Einar, um jovem mais velho e, na descrição inicial da menina (que é a narradora) um tanto feio. No entanto, será ele o companheiro que irá conquistá-la e de quem vai se engravidar aos 12 anos. A criança nasce morta e a descrição desse fato é um dos trechos (entre vários outros) de grande potência emotiva. Halla tem a compreensão e a camaradagem do pai, um sonhador e poeta, mas sofre com a frieza e até uma certa violência da mãe, o que a leva a sair de casa e passar a morar num pequeno cômodo na igreja, arranjado por Steindór, um solteirão amável e amigo de todos, que é uma espécie de sacristão, já que a paróquia está sem um prior. No entanto, a chegada de uma tia, irmã de sua mãe, irá complicar a vida do casal, quando essa tia e o sacristão resolvem se casar, provocando em Einar memórias de um passado terrível. Toda a narrativa é desenvolvida a partir do ponto de vista de Halla, numa linguagem poética e de grande poder de sedução para o leitor, ao retratar a melancolia, o desamparo, a transitoriedade da vida e, principalmente, o luto, o que deixa marcas profundas não só no desenvolvimento das personagens, como também na lembrança de quem se aventura por esse livro que, na sua simplicidade extremamente poética, constitui uma das obras mais belas e interessantes da literatura contemporânea.

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