sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Morte em pleno verão, Yukio Mishima

 Morte em pleno verão, Yukio Mishima


O título do livro refere-se ao título do primeiro dos dez contos dessa obra de um autor que trafega entre o tradicional e a modernidade num Japão de pós-guerra. Todos os contos são primorosos e têm sempre um final aberto, aberto para a imaginação do leitor, ainda que trate temas espinhosos. O primeiro conto trata de uma longa reflexão sobre o luto, já que uma família perde três membros num mesmo evento: dois filhos e a irmã do marido. O segundo conto, “O biscoito de um milhão de ienes” leva-nos a um detalhado momento da vida de um casal que não se define entre um “trabalho estranho” de ambos ou ganhar mais dinheiro. Em “A garrafa mágica”, um reencontro de dois amantes em Nova Iorque traduz as preocupações do autor com a ocidentalização, além de nos levar a um ambiente de sexo e mistério. Já em “O amor do homem santo de Shiga”, Mishima trata da tradição japonesa tanto histórica quanto literária e religiosa, para nos trazer a tensão entre o mundano e o sagrado. Chegamos ao quinto conto, “Até a última ponte”, em que quatro mulheres buscam realizar seus desejos num cerimonial que inclui passar por sete ponte no mais absoluto silêncio. Será que conseguirão? Ironia e um humor sutil pontua o conto. O que faz um trágico contraponto com “Patriotismo”, onde o autor descreve com minúcias uma relação de amor, sensualidade e morte, ao relatar o suicídio ritualístico do casal, talvez antecipando sua própria morte. De arrepiar. Em “Dojoji”, o autor volta-se para o que ele chama de “moderno teatro nô”, misturando elementos europeus e tradicionais na encenação de uma peça de teatro. “Omnagata”traz alguns dos temas obsessivos do autor, com amor, ciúme e transexualidade. Com humor e ironia, os dois últimos contos, “As pérolas” e “Papel-jornal” trazem reflexões sobre ética, quando um grupo de mulheres se reúne para um chá e a pérola de um anel desaparece; e quando a jovem e bela esposa de um ator famoso não se conforma com o destino do bebê da babá de seu filho e imagina reencontrá-lo já adulto dormindo num parque, num final surpreendente e misterioso, como quase todos os textos desse livro mais do que interessante, instigante e de leitura absolutamente envolvente. A milenar literatura japonesa não nega fogo, nunca. Seus autores modernos e contemporâneos constituem uma deliciosa surpresa para quem gosta de boas histórias e excelente literatura.


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