O ar que me falta – história de uma curta infância
e de uma longa depressão, Luiz Schwarcz
O subtítulo entrega o que se vai ler, mas essa entrega nada tem de lamentação, porque a perspicácia do autor ao contar sua história não permite em nenhum momento a autocomiseração. Como centenas ou milhares de famílias judias que conseguiram escapara à sanha nazista, seu avô e outros familiares, inclusive de sua mulher, acabaram por virem para o Brasil em busca de uma nova vida, em busca da paz. São histórias semelhantes a essa que pode levar a algum leitor desavisado a pensar que é só mais uma história de sofrimento de judeus perseguidos. No entanto, as milhares das vidas que sobreviveram precisam, sim, ser contadas, porque o sofrimento causado aos milhões de judeus (e a outras etnias) pelos nazistas parece não ser suficiente para que se convençam da maldade absoluta do nazismo, é preciso que se individualizem os casos, que se deem nome às pessoas, e só então, talvez, possamos erradicar para sempre de nossa sociedade ideias neonazifascistas. Mas, vamos ao livro: o pai do narrador, húngaro, foi empurrado pelo pai de dentro de um trem a caminho de um campo de extermínio e conseguiu sobreviver. A mãe, croata, fugiu com a família, ainda muito pequena, primeiro para a Itália e depois para o Brasil. Aqui, os dois se encontraram e se casaram, tendo um filho único, Luíz. O passado doloroso e sombrio da família vai aos poucos sendo desvendado por esse filho que, desde menino, começa a desenvolver um quadro crônico de depressão, que se agrava na vida adulta, mesmo quando, já um empresário de sucesso, à frente de uma grande editora, as crises se tornam agudas e os múltiplos tratamentos psiquiátricos e medicamentosos teimam em falhar. É essa depressão, que o autor insiste em dizer que não sabe se tem origem genética, a grande personagem do livro. E, repito, não há autocomiseração, apenas o relato de vidas complexas e de uma síndrome que afeta milhares de pessoas e que exige tratamento caro e especializado que, como o autor diz, nem sempre está ao alcance de famílias menos abastadas. Enfim, um relato sensível e bem articulado, para se ler como uma história de sofrimento, mas também de superação e de advertência quanto a esse mal terrível que, muitas vezes, não é compreendido, a depressão.

Nenhum comentário:
Postar um comentário