A idade do ferro, J. M. Coetzee
Já quase ao final do livro ficamos sabendo o nome da protagonista, Mrs. Curren, mas isso absolutamente não importa. Estamos diante de uma senhora branca, culta, professora aposentada, que mora na África do Sul durante o regime do apartheid, doente com um câncer terminal, que escreve uma longa missiva para sua filha que mora nos Estados Unidos, onde se casou e teve filhos, nunca mais voltando ao seu país de origem. Mora sozinha, essa senhora, já que o marido a abandonou há muitos anos. E então, um dia, encontra dormindo em seu quintal um vagabundo e seu cão, um homem de idade indefinida. Resolve deixá-lo morar lá e, aos poucos, esse homem, de nome Vercueil, ganha sua confiança e torna-se uma espécie de acompanhante de sua complexa trajetória de final de vida. Não é de meu feitio fazer ilações literárias ou análises dos livros que leio, mas não posso deixar de registrar a impressão que me ficou de um certo paralelismo entre os acontecimentos por que passa a nossa heroína e a trajetória de Dante, no Inferno, acompanhado pelo poeta Virgílio. Vercueil é uma espécie de Virgílio inculto, até um tanto grosseiro, taciturno e silente, mas presente em quase todos os percalços infernais da vida de Mrs. Curren. Vamos a um brevíssimo relato do que ela escreve a sua filham ou seja, da sua vida. Para ajudá-la nas tarefas domésticas, conta com a ajuda de uma empregada negra que vem dos bairros miseráveis onde vive e sobrevive em meio à violência e o abandono dos poderes públicos. Tem ela três filhos: duas meninas, com nomes fortes como Hope (Esperança) e Beauty (Beleza), e um garoto adolescente que se envolve com a resistência, juntamente com um amigo de escola. Ambos acabam mortos pela polícia e isso determinará, entre outros fatores, como solidão, inconformismo, progressão da doença, limitação física, idade, sua trajetória de tristeza, abandono e desesperança, principalmente desesperança em relação a seu país, diante das lutas fratricidas entre brancos e negros que incendeiam a África do Sul, por causa da situação de desigualdade da população negra diante dos brancos, situação contra a qual ela militou durante toda a vida. E agora, fraca e no final da vida, só tem mesmo a companhia de Vercueil, para ajudá-la a tentar superar todo o horror que ela vive diante da repressão policial e de sua própria situação de impotência. É um romance curto, não exige muito tempo de leitura, mas tem muitas páginas de reflexão sobre a vida, o envelhecimento, a solidão, que não nos permitem ficar insensíveis diante da vida dessa mulher, lendo sua carta à filha distante e, nessa carta, todo o seu inconformismo diante da situação de seu país. Um livro realmente extraordinário, por um dos maiores nomes da moderna literatura africana.

Nenhum comentário:
Postar um comentário