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terça-feira, 3 de novembro de 2026

Perdas e ganhos: exilados e expatriados na história do conhecimento na Europa e nas Américas, 1500-2000, Peter Burke

Perdas e ganhos: exilados e expatriados na história do conhecimento 
na Europa e nas Américas, 1500-2000, Peter Burke
A hibridização cultural, para o historiador britânico Peter Burke, é o processo histórico de fusão, empréstimo, apropriação e troca entre diferentes culturas, mostrando que não existem culturas puras. Esse conceito perpassa a obra que vamos comentar, um livro dedicado aos expatriados e exilados, desde o século XVI, pelo mundo afora, até os nossos dias. Mas não se trata de exilados e expatriados quaisquer: o objeto de estudo do autor são acadêmicos, pessoas de instrução superior, que tiveram que abandonar seu país de origem, por inúmeros motivos, mas principalmente por perseguição política, ideológica ou religiosa. O livro, na verdade, é um longo catálogo de nomes e mais nomes de cientistas, professores, acadêmicos, enfim, que, em países de costumes e língua diferentes, reagiram de formas diversas à nova realidade. Mas, o processo de troca entre esses acadêmicos exilados e os nativos de cada país levou a uma repercussão imensa ao longo da história, muitas vezes não percebida por nós, simples mortais. Mesmo aqueles que se recusaram a se assimilar à cultura do novo país contribuíram para que diferentes modos de pensar e de abordar os assuntos de suas respectivas áreas fossem iluminados por discussões, experiências e trocas que abriam caminho para as ciências, tanto as ciências exatas quanto as ciências humanas. Por outro lado, o país que cedeu seus cérebros ou os expulsou teve perdas consideráveis, principalmente quando houve diásporas ou momentos de crises profundas. Como esclarece o subtítulo, o livro cobre um longo período da história e relaciona praticamente só acadêmicos homens, as mulheres ainda não tiveram nessa linha do tempo a relevância que mereciam. Para cobrir essa lacuna, o autor nos oferece um apêndice com o nome e uma brevíssima biografia de cem acadêmicas emigradas que não tiveram quase nenhuma oportunidade em seus novos países, tendo a maioria absoluta de se sujeitar a empregos abaixo de sua capacidade e só muito poucas obtiveram algum reconhecimento tardio de seu talento. Mais um detalhe, para encerrar esse comentário: sem dúvida um trabalho de fôlego, que exigiu a consulta a fontes bibliográficas imensas, o que toma quase 25% do livro, um livro que eu achei saboroso de ler, ainda que me lembrasse, às vezes, uma lista telefônica, mas uma lista ou catálogo muito bem elaborado e que pode sevir de base para muitos pesquisadores identificarem a contribuição de inúmeros talentos que as nuvens densas da história não nos permitiram perceber.