Relato de um certo oriente, Milton Hatoum
O romance de exílio de uma família libanesa que aporta na cidade de Manaus no final do século XIX, começo do XX, um exílio que é, ao mesmo tempo, uma forma de fixação no tempo e num determinado lugar da cultura oriental que se mistura à complexa miscelânea de povos e gentes da Amazônia, naqueles idos, e talvez ainda agora. A narradora, uma mulher, volta à cidade em que nascera, depois de muitos anos, para reconstituir em termos de recordação e lembrança, a vida da matriarca dessa família libanesa, Milie, de formação católica, por ter vivido um tempo num convento no Líbano, que se casa com um libanês muçulmano, aferrado a suas crenças de origem. Há um pacto entre eles de nunca se estranharem por motivo de estranhamento religioso, ou seja, cada um segue sua fé e os filhos, que são quatro, que sigam cada um seu próprio desígnio. E é isso o que mantém a chama desse casamento, revigorado ao longo do tempo pelas brasas noturnas, que muitas vezes acendem também a curiosidade dos filhos. Mas, são muitos os infortúnios por que passa essa família, em Manaus, desde a morte da neta surda-muda, filha espúria de uma menina que pouco tem de mulher e que sofre as consequências do segredo dessa gravidez, até a debandada dos demais filhos, naturais ou adotados, dos agregados que trabalhavam na casa enorme e cheia de vida e de animais silvestres, até a morte do patriarca e a solidão final de Milie. O tempo e os longos momentos tanto de festas e de comemorações quanto de dor e de desesperança são rememorados com ecos longínquos da tradição oral dos narradores orientais, alternando as vozes narrativas, em aparentes missivas ou diários, numa linguagem – que é a própria essência do livro – de grande beleza poética e construção literária, o que consagra o autor amazonense como uma das nossas vozes mais potentes da literatura brasileira contemporânea. Vale sempre ler não só este, mas todos os livros de Milton Hatoun.

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