Hilda Furacão, Roberto Drummond
A jovem chamada “Garota do Maiô Dourado”, que frequentava a piscina e as “missas dançantes" de um clube tradicional de Belo Horizonte, e atraía a atenção de jovens e velhos e ricos da alta sociedade, num dia 1º de abril de 1969, resolve mudar-se para o quarto 304 do Maravilhoso Hotel, na zona boêmia da cidade e tornar-se a prostituta que irá incendiar as mentes e a libido da sociedade mineira, principalmente dos ricos coronéis, que lhe prometem fortunas por um casamento que ela sempre rejeita. Enquanto isso, três rapazes provindos da cidade interiorana de Ferros tentam a sorte na capital: o primeiro queria ser santo e torna-se frade franciscano; o segundo queria ser ator e conquistar Hollywood, mas se torna apenas um conquistador de aluguel, encaminhando moças virgens para um riquíssimo colecionador de mulheres, que pretendia ter mil filhos com mil mulheres; o terceiro é o próprio narrador/autor do livro. Muitas são as histórias que se cruzam, muitos os folclores que precisam ser contados, principalmente na trajetória do narrador, jornalista que passa por várias redações e se torna amigo de Hilda e lhe promete escrever um romance contando sua vida, desde que ela lhe desvende o grande mistério: por que se tornou prostituta, se podia ter-se casado com um milionário e ter uma vida de luxo e riqueza. Muitos personagens aparecem na narrativa, misturando ficção e realidade, num tempo de grande efervescência política, que vai desaguar no golpe militar de 1964. E é justamente no dia 1º de abril de 1964, data do golpe, que Hilda Furacão resolve abandonar a vida de prostituta e passar a viver com seu grande amor, o padre franciscano que ela conheceu numa situação inusitada quando, alguns anos antes, a sociedade mineira liderada por senhoras conservadoras e carolas convidou o frade a participar de uma caminhada que terminaria com o exorcismo de Hilda Furacão, para livrar Belo Horizonte do pecado. Para encerrar esse breve comentário sobre um livro que, como Hilda, incendiou as mentes brasileiras nos anos 90, ao ser transformado em uma série televisiva, passada na Rede Globo, devo dizer ao leitor destas linhas que há muito mais histórias relacionadas à sociedade mineira conservadora (e isso, para mim, é um pleonasmo) da época do que propriamente a história de Hilda Furacão, já que, embora sua figura perpasse por todas as páginas, como um ente abstrato, sua trajetória, seus amores e suas motivações são muito pouco explorados por Roberto Drummond. Para encerrar definitivamente: pode ser que pareça datado, mas “Hilda Furacão”, o livro, ainda hoje permanece uma leitura extremamente agradável, daqueles livros que pegam o leitor desde a primeira página e o levam a degustar a prosa solta, irreverente e irônica de Roberto Drummond, falecido aos 68 anos, em 2002, até o desfecho dúbio da trajetória de uma personagem que se tornou símbolo de um país cujos sonhos se transformaram em pesadelo e, por isso, uma personagem inesquecível.

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