quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Um quarto com vista, Edward Morgan Forster (E. M. Forster)



Um quarto com vista, Edward Morgan Forster (E. M. Forster)


Publicado em 1903, o romance tem ainda o vezo dos românticos ingleses, com narrativas que envolvem a burguesia decadente, mas ainda sobrevivendo e gozando do ócio provindo de heranças milionárias. A história começa com uma viagem à Itália de um grupo de ingleses, entre eles a mocinha bem-comportada e de família tradicional, Lucy Honeychurch, sofrível pianista amadora, desconfortável com as relações de preconceito entre o próprio grupo e outros ingleses que participam da trama, por questões de classe e também sofrendo com um certo choque cultural em relação aos italianos, vistos, muitas vezes, como sem finesse, a famosa e artificial finesse inglesa. Num dos passeios pelos arredores de Florença, um pequeno episódio, que hoje diríamos de paquera, entre ela e o jovem George Emerson, em que rola até mesmo um beijo, algo extremamente perturbador para as jovenzinhas recatadas da época, vai alterar profundamente as ideias e aspirações de Lucy que, ao voltar para a Inglaterra, se vê envolvida numa promessa de casamento por interesse com um jovem inglês extremamente convencional e machista, Cecil Vyse. Suas convicções são postas à prova, quando George e o pai alugam uma casa próxima à vila onde ela mora com a mãe. Paremos por aqui, quanto ao resumo do livro, para não revelarmos demais do enredo. A história toda se sustenta principalmente através de um narrador onisciente, muito onisciente, que perscruta os pensamentos das personagens e tece considerações de natureza até mesmo filosófica, mas principalmente reflexões sobre a situação, as dúvidas e os anseios das personagens, ao longo de todo o romance. Embora pareça uma dessas histórias açucaradas de amor, já vislumbramos, no entanto, uma certa condescendência e até mesmo alguma defesa da libertação das mulheres, em termos de condução de seu próprio destino e de suas vidas, sem as amarras dos preconceitos e das imposições sociais. Enfim, li e me diverti com a narrativa de Forster, notando no autor alguns aspectos modernos, além dos ranços ainda arraigados da burguesia inglesa, ociosa, preconceituosa e enrolada em inúmeras regras de conduta social.

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