terça-feira, 30 de dezembro de 2025

LIVROS LIDOS EM 2025

 

(Balthus:1968-76 - Katia Lisant)

1.               266, Roberto Bolaño

2.               O andarilho das estrelas, Jack London

3.               Como água para chocolate, Laura Esquivel

4.               O Aleph, Jorge Luis Borges

5.               Os cadernos de Malte Laurids Brigge, Rainer Maria Rilke

6.               A malnascida, Betrice Salvione

7.               A incrível lavanderia dos corações, Yun Jungeun

8.               A livraria dos achados e perdidos, Susan Wiggs

9.               A Contadora de Filmes, Hernán Rivera Letelier

10.            O pobre de direita, Jessé Souza

11.            Boulder, Eva Baltasar

12.            E se eu fosse puta, Amara Moira

13.            O voyeur, Gay Talese

14.            Correio do tempo, Mario Benedetti

15.            China: o Socialismo do Século XXI, Elias Jabbour e Alberto Gabriele

16.            O exército de um homem só, Mocyr Scliar

17.            A polícia da memória, Yoko Ogawa

18.            A confissão da leoa, Mia Couto

19.            A forma da água, Gillermo del Toro e Daniel Kraus

20.            Joana a contragosto, Marcelo Mirisola

21.            Dedico a você meu silêncio, Mario Vargas Llosa

22.            Como e por que ler, Harold Bloom

23.            Enquanto agonizo, William Faulkner

24.            Eu canto e a montanha dança, Irene Solà

25.            Complô contra a América, Philip Roth

26.            A fantástica fábrica de chocolates, Roald Dahl

27.            Essa história está diferente – dez contos para canções de Chico Buarque, compilação de Ronaldo Bressane

28.            Ritos de passagem, Willian Golding

29.            Suicídios exemplares, Enrique Vila-Matas

30.            A história do mundo em 100 objetos, Neil MacGregor

31.            O último teorema de Fermat, Simon Singh

32.            A feiticeira de Florença, Salman Rushdie

33.            O ar que me falta, Luiz Schwarcz

34.            A mulher desiludida, Simone de Beauvoir

35.            A filha do Papa, Dario Fo

36.            Admirável mundo novo, Aldous Huxley

37.            A casa de barcos, Jon Fosse

38.            Meninos, eu conto, Antônio Torres

39.            Dance, dance, dance, Haruki Murakami

40.            Fim, Fernanda Torres

41.            O herói de mil faces, Joseph Campbell

42.            Salvatierra, Pedro Mairal

43.            Dias perfeitos, Raphael Montes

44.            Distância de resgate, Samanta Schweblin

45.            Cérebro e crença, Michael Shermer

46.            Um ditador na linha, Ismail Kadaré

47.            O livro da astrologia: um guia para céticos, curiosos e indecisos, Carlos Orsi

48.            Neca – romance em bajubá, Amara Moira

49.            Nada mais será como antes, Miguel Nicolelis

50.            Partículas elementares, Michel Houellebecq

51.            O jantar errado, Ismail Kadaré

52.            Os filhos dos dias, Eduardo Galeano

53.            O sol é para todos, Harper Lee

54.            Uma história natural da curiosidade, Alberto Manguel

55.            Um solitário à espreita, Milton Hatoun

56.            Uma noite com Sabrina Love, Pedro Maial

57.            Brancura, Jon Fosse

58.            De quatro, Miranda July

59.            O vento sabe o meu nome, Isabel Allende

60.            Paris, a festa continuou, Alan Riding

61.            Sob o sol de Satã, Georges Bernanos

62.            Predadores, Pepetela

63.            Só garotos, Patti Smith

64.            O construtor de pontes, Markus Zusak

65.            Nem sinal de asas, Marcela Dantés

66.            Vênus das peles, Leopold Sacher-Masoch

67.            Uma rua de Roma, Patrick Modiano

68.            Uma paixão simples, Annie Ernaux

69.            Terra sonâmbula, Mia Couto

Terra sonâmbula, Mia Couto


Terra sonâmbula, Mia Couto


A língua portuguesa falada em Moçambique encontra em Mia Couto um dos seus expoentes máximos, nesse escritor que tem o dom de nos envolver com seu estilo delicado e poético e de nos revelar histórias tristes e complexas de um povo que só se tornou independente quatro séculos depois de domínio português, em 1975 e, dois anos depois, mergulhou numa guerra civil que durou até 1992. “A guerra é uma cobra que usa os nossos próprios dentes para nos morder”, diz o velho Tuahir para o menino Muidinga, na luta de ambos para encontrar a si mesmos e também um lugar para viver. Depois de uoma longa caminhada, estão eles acantonados num velho ônibus queimado na berma (beira) da estrada, cheio de corpos carbonizados. Entre esses corpos, está o corpo quase intacto de Kindzu e seus cadernos, os quais contêm a história de sua vida. Entre os percalços por que passam o velho e o menino, para sobreviverem, suas idas e vindas em torno do ônibus queimado e sua caminhada em busca do mar, o garoto vai lendo para o “tio” as páginas desses cadernos, em uma narrativa alternada de suas vidas e da vida de Kindzu. Os cadernos narram a busca do autor pelos guerreiros tradicionais, os naparamas, seus encontros e desencontros com um indiano, com mulheres e outros inúmeros personagens e, também, a busca de um garoto perdido, filho da mulher por quem ele se apaixona e que está vivendo num navio de mantimentos atolado numa praia, à espera de notícias do garoto. A prosa poética de Mia Couto nos leva para paisagens impensáveis e a conhecer vidas complexas desse país em formação, cujo povo anseia pela paz e busca na tradição forças para superar as lutas internas. Há diferenças lexicais bastante significativas entre o português que falamos aqui e a língua usada por Mia Couto, mas não se preocupe o leitor: há um pequeno glossário ao final do livro e, mesmo que não houvesse, o contexto nos leva a entender praticamente todos os significados das belas palavras do falar moçambicano, embalados que somos pela elegância da prosa desse grande escritor, um dos grandes mestres da língua portuguesa.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Uma paixão simples, Annie Ernaux



Uma paixão simples, Annie Ernaux


A paixão avassaladora, aquela que toma conta de todos os momentos e de todos os pensamentos de uma pessoa, não deixando espaço para mais nada, às vezes nem para viver. Foi esse sentimento, que quase todo ser humano experimenta pelo menos uma vez na vida, que tomou de assalto a vida da autora, a escritora francesa Annie Ernaux, num momento em que, divorciada e com dois filhos, parecia ter estabilizada a sua vida, em todos os sentidos. E essa paixão rendeu uma espécie de “documentário do amor extremo”, um romance que é, ao mesmo tempo, memória, ficção e reflexão sobre a paixão. O relacionamento com um “estrangeiro”, um russo, casado, nomeado apenas como A., durante alguns meses, rendeu algumas páginas (até poucas, já que o livro tem cerca de 60 páginas) de grande intensidade, mas principalmente de grande franqueza e coragem. Tudo a seu redor, cada palavra, cada gesto, cada momento de vida gira em torno desse amor tresloucado, sem espaço para outras experiências, como se o mundo houvesse parado e só existissem os amantes, como só existisse a espera de um telefonema, como só existissem os momentos que passam juntos. Quando o amante volta para sua terra, resta o vazio e o passar do tempo, algo ao mesmo tempo complexo e alucinante, que precisa ser superado, ainda que esse tempo de esquecimento seja longo e doloroso. O tom confessional do livro, sua profundidade e as reflexões da autora elevam a régua de regulação das confissões amorosas a nível de grande poder não só das palavras, mas, principalmente, pela capacidade da literatura de nos conduzir através dos sentimentos e dos pensamentos de uma mente perturbada por uma grande paixão. Um livro para ser lido com o suspense das grandes histórias que cabem em poucas páginas, pela sua densidade e grandeza estética.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Uma rua de Roma, Patrick Modiano

Uma rua de Roma, Patrick Modiano


Qual é o verdadeiro nome do narrador? Aliás, quem é ele? No começo, apenas sabemos que se chama Guy Roland (nome que lhe foi atribuído por documentos falsos) e que está se despedindo de seu patrão, o dono de uma agência de investigação, um detetive particular, com quem trabalhou durante alguns anos. E que vai em busca de sua identidade, seguindo uma pista improvável, o dono de um bar onde se realizam casamentos. A partir daí, seguimos com ele por uma viagem sem volta pelas ruas e becos de Paris, por apartamentos decadentes, tomando conhecimento de inúmeros personagens de distintas nacionalidades, cujas memórias lhe permitem tecer aos poucos, através de lampejos de recordações de seu passado, sua trajetória de vida, até regiões completamente alheias a seu verdadeiro habitat, como Bora-Bora. Uma linda mulher (sua esposa?), alguns amigos (algum traidor?) e uma fuga frustrada pela fronteira da Suíça, e onde estão todos os outros? Alguns já morreram, outros se lembram disso ou daquilo. E ele vai, num verdadeiro labirinto de memórias, como labirínticas são as ruas parisienses, mergulhando em si mesmo, superando a amnésia que o acometera, para chegar a uma rua que realmente existe: La Vie delle Bottegne Oscure, parte de um gueto judaico-romano, daí o título da edição brasileira, sendo, no entanto, o título original do livro “Rue des Boutiques Obscures”. Mistério e busca de si mesmo, o mistério de um tempo muito obscuro, de um tempo que não deve se repetir, de muito sofrimento, de perseguições, de fugas e de mortes, um tempo negro, sem que o autor cite uma vez sequer o motivo da fuga e perseguição de seu protagonista, ou mesmo as mazelas desse tempo, numa narrativa envolvente e, ao mesmo tempo, fascinante e às vezes angustiante, que não deixa ao leitor qualquer dúvida sobre o fato de estar lendo um dos melhores autores da ficção francesa de nossos tempos.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Vênus das peles, Leopold Sacher-Masoch

 Vênus das peles, Leopold Sacher-Masoch


Praticamente, quase todo mundo conhece, pelo menos de ouvir falar, o termo masoquismo. O que pouca gente sabe é que esse termo tem origem na história do livro “Vênus das peles”, do austríaco Leopold von Sacher-Masoch, cuja especialidade literária era escrever sobre história, sendo ele professor dessa matéria, e posteriormente contos que nada têm a ver com sexualidade. A origem do livro ocorre quando uma escritora emergente procura Leopold para com ele aprender como melhorar a escrita. Eles se envolvem e ela estabelece com ele uma espécie de contrato de “servidão”, com duração de seis meses, e que usaria roupas de peles enquanto o dominava, o que só acontece durante poucas horas do dia. A ficção não estabelece prazo para essae dominação e dá à autora domínio total sobre o seu amado. Mas façamos um breve resumo da história. Tudo começa com o sonho de um narrador anônimo, relacionado ao quadro de Ticiano, “A vênus do espelho”. Conta a um amigo, Severin (ou Severino, na tradução para o português), esse sonho em que a mulher aparece como a dominadora do homem e o amigo diz que, se uma mulher não é subserviente ao homem, este deve ser subserviente a ela. E lhe mostra um manuscrito, onde está narrada sua história de amor e escravidão entre ele e uma mulher belíssima, chamada Wanda. O contrato entre eles tem duração indeterminada e ela tem sobre Severimo total domínio, em todos os aspectos de sua vida. Tanto que partem de trem para Florença, onde não são conhecidos. Ela viaja com todo o luxo e ele, de terceira classe. Passa por todos os perrengues da servidão, inclusive castigos físicos, mas diz que a ama cada vez mais. Ela assume o papel de verdugo, embora o considere um covarde, por aceitar seu completo domínio sobre ele. Essa relação tumultuada e tumultuosa é que dá ensejo a que mais tarde Freud popularize o termo masoquismo para um aspecto da sexualidade humana, em que um dos amantes tem prazer na submissão total ao outro, mesmo com muito sofrimento. Não sei se o termo é exatamente apropriado ou correto, mas a história narrada por Sacher-Masoch tem todos os ingredientes de um romance muito bem escrito. Não acho que ele deva merecer a fama somente por esse aspecto da sexualidade humana, porque, embora o sofrimento de Severino seja enorme, todos os detalhes são muito bem escritos e descritos, com a elegância de um grande estilista. Não tem o autor o escopo de escandalizar, mas apenas contar uma boa história. Para encerrar, não posso deixar de comentar, embora brevemente, sobre o Marquês de Sade, já que ambos têm os nomes entrelaçados na expressão “sadomasoquismo”. Sade era um filósofo da sexualidade e tinha por intenção provocar e chocar seus leitores, com descrições detalhadas de práticas não convencionais, o que não era o caso de Leopold von Sach-Masoch.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Nem sinal de asas, Marcela Dantés

 

Nem sinal de asas, Marcela Dantés



Há livros que se leem com o prazer de um dia de sol de verão na praia. Há livros que se leem com o aperto de emoções sofridas. Este o caso de “Nem sinal de asas”. Uma vida obscura, uma morte ainda mais obscura, como tantas vidas que existem por aí, que apenas passam pelo mundo, sem nada deixar a não ser breves rastros de sua trajetória, logo apagados pelo tempo. Solidão e sofrimento marcam a vida de Anja, filha de um negro e uma branca, que devia, se o desejo da mãe se realizasse, ter mascodo branca, mas nasceu negra. Odiava o nome e, por isso, dizia-se Angélica. O pai morreu cedo e mãe, alguns anos depois. O único amigo de infância a vida e as circunstâncias levaram a uma separação, coisa comum. Estudou enfermagem e foi cuidadora de idosos numa espécie de asilo. Alugou e depois comprou um apartamento num estranho edifício que fora antes um hotel. Ali viveu muitos anos em companhia de um gato. Ali morreu, sem que ninguém percebesse sua ausência, uma morte sofrida, solitária, como sua vida. Sem velório, sem ninguém que reclamasse seu corpo mumificado, encontrado pelo porteiro do prédio somente cinco anos depois! Sim, uma história que parece absurda, e é absurda, porque a vida é absurda, mas que nos provoca sentimentos e pensamentos que nos levam a perceber quão passageira e inútil pode ser a existência para tantos seres solitários e sofredores por esse mundo afora. Como disse no começo deste comentário, um livro para se ler com um aperto na garganta, graças à habilidade narrativa desta escritora mineira, Marcela Dantés.

sábado, 13 de dezembro de 2025

O construtor de pontes, Markus Zusak

 

O construtor de pontes, Markus Zusak


Há livros cuja narrativa é tão empolgante, que aceleramos a leitura, torcendo para que nunca chegue o final. Foi o que aconteceu comigo, ao ler esse romance do australiano Markus Zusak, de quem já havia lido “A menina que roubava livros”, em que o narrador só é conhecido na última página. Agora, o narrador é Mattew Dunbar, o irmão mais velho de cinco irmãos (Matthew, Rory, Henry, Clay e Thommy) cuja mãe morreu e, abandonados pelo pai, quando ainda muito jovens, mantêm-se unidos, apesar de todas as brigas entre eles e de todas as dificuldades da vida. Mattew escreve na cozinha da sua casa, batendo as teclas de uma velha máquina de escrever, porque precisa contar a história de um de seus irmãos, Clay, o diferente da família, aquele que esteve nos últimos momentos de vida da mãe e carrega, por isso, no bolso, um pregador de roupas (e eu não vou dizer, aqui, o motivo). Também foi Clay o irmão que acatou o convite do pai desaparecido, chamado por todos de Assassino (e também não vou dar ao leitor destas linhas o motivo por que ele é chamado assim), quando ele voltou e pediu ajuda para construir uma ponte. Clay é o guardião da mula de estimação dos garotos, chamada Aquiles, o único que consegue verificar as condições de suas patas. Os garotos Dunbar têm ainda, graças ao caçula, outros animais de estimação: a cachorra Aurora, o gato Heitor, o pombo Telêmaco e o peixe-dourado Agamenon, todos eles, de certa forma, um consolo diante da perda da mãe e do sumiço do pai. A mãe era pianista, mas não conseguiu fazer nenhum dos filhos gostar do piano, e lia para eles a Odisseia e a Ilíada, por isso os nomes dos animais. Por isso, talvez, a resiliência dos garotos, apesar de tudo. Clay, aos dezesseis anos, apaixona-se por uma joqueta de quinze anos, que vai ter uma importância muito grande em sua vida, mesmo quando resolve viajar para a cidade do pai e ajuda-lo na construção da ponte, um símbolo potente da perseverança, da luta pela sobrevivência dos cinco irmão e da ligação existente entre eles. A narrativa de Mattew é pontuada por detalhes da vida anterior de seus pais, de muitos momentos familiares, de muita saudade e nostalgia, até o final, numa história realmente de grande sensibilidade humana, desse grande escritor. Um livro que nos leva a pensar como a literatura, a boa literatura, venha de onde vier, pode nos transportar para mundos e conhecimentos admiráveis, e nos tornar mais humanos, muito mais humanos.

sábado, 6 de dezembro de 2025

Só garotos, Patti Smith

Só garotos, Patti Smith


Patti Smith é uma multiartista estadunidense: cantora, compositora, poetisa, pintora, autora e fotógrafa. Nascida em 1946, em Chicago, aos 20 anos tentou a sorte em Nova Iorque, onde conheceu Robert Mapplethorpe, com quem viveu e conviveu até sua morte em 1989. O livro “Só garotos” é uma autobiografia que contém uma biografia, ou seja, narra toda a vida da autora em sua busca por reconhecimento e, ao mesmo tempo, a vida do fotógrafo e também multiartista Robert Mappethorpe. A vida comum de Patti e Robert só durou o tempo de o fotógrafo descobrir sua homossexualidade, mas a amizade e o amor entre eles foi muito profundo, já que passaram juntos por muitas dificuldades, até encontrar o sucesso. Conviveram ambos com inúmeros personagens da cultura novaiorquina dos anos 60 e 70: pintores, atores e atrizes, cantores e cantoras, poetas e escritores, dramaturgos... A lista é enorme e todos eles são citados ou aparecem em momentos específicos da narrativa. Foi um período intenso, de muita criatividade e de busca de caminhos na música, na pintura, no desenho ou na fotografia. São dois artistas polêmicos e audaciosos. Tiveram momentos de muitas dificuldades financeiras, de subempregos, mas de muita resiliência para frequentarem ambientes onde pudessem encontrar o que hoje diríamos sua tribo. O tom é sempre de muita franqueza e irreverencia, e pode-se dizer que Patti explicita três grandes amores de sua vida: por Robert, uma amizade que rompe a fronteira do tempo e não termina nem com sua morte em consequência de complicações da aids, já que este livro é uma ode e uma reverência ao grande artista que ele foi; pela arte, na incessante pesquisa de novas formas de comunicação, em todos os aspectos de produção a que a dupla se lança, ela no desenho, na pintura e, depois, na música, ele, em artes gráficas e, depois, na fotografia em preto e branco; e por Rimbaud, o poeta mítico da literatura francesa e universal, que tem influenciado gerações. A trajetória desses vinte e tantos anos de convivência é esmiuçada detalhadamente, com precisão quase cirúrgica, numa honestidade de propósito que nos cativa desde as primeiras páginas. Se o leitor desse breve comentário gosta de música, especialmente de rock, e tem interesse em se informar sobre um momento crucial da cultura e da contracultura das ruas de Manhattan, de saber mais sobre artistas que propuseram caminhos ousados de liberdade e criatividade, naqueles esfuziantes anos 70, não deixe de ler esse livro, escrito com talento, com paixão e sobretudo com a sinceridade de alguém que viveu e participou desse momento único, juntamente com muitas outras personagens inesquecíveis.