sábado, 20 de fevereiro de 2021

O século das luzes, Alejo Carpentier

 O século das luzes, Alejo Carpentier




Final do século XVIII, o século das luzes. A revolução francesa estende seus tentáculos pelo Caribe, com suas conquistas e suas mazelas, através de um grupo de jovens, Carlos, Estéban e Sofia, aos quais se junta Victor Hugues, um francês, filho de padeiro, que vai mudar o destino desses jovens cubanos e da própria região, ao tornar-se governante de Caiena e outras possessões francesas. Leva para lá a doutrina da revolução, mas também a guilhotina. A revolução, desde o início, autofágica, transforma-se pouco a pouco e seus princípios libertadores são enterrados, até o golpe de Napoleão. Victor, antes ferrenho libertário, assimila a derrocada da revolução e aplica à sua administração até mesmo a volta da escravidão negra. Sofia, a jovenzinha imatura abandonada um dia em Paris, volta a Cuba, casa-se, torna-se viúva e vai atrás de seu amor, Victor, mas decepciona-se terrivelmente com os rumos de sua política e de sua administração. É ela, a mulher frágil e liberta, a própria metáfora do século das luzes. Mas, isso é apenas um arremedo de tentativa de falar de um dos mais poderosos romances da América Latina, com sua trama complexa, seu barroquismo e a beleza de sua concepção literária. Puro prazer, sem dúvida alguma.


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

O bosque das ilusões perdidas, Alain-Fournier

 O bosque das ilusões perdidas, Alain-Fournier


O título original – LE GRAND MEAULNES – refere-se ao jovem Meaulnes que, no final do século XIX, no interior da França, ao perder-se pelos caminhos de sua província, acabou chegando a uma espécie de grande propriedade, onde participou de um estranha festa de casamento que acabou não se realizando, porque a noiva não quis se casar, e encontrou uma bela jovem por quem se apaixonou. Ao voltar para sua vila, não se lembra dos caminhos que o levaram àquela propriedade e, junto com o amigo François, o narrador do livro, passa a vida a buscar a amada distante. Um dos mais belos romances sobre a passagem da adolescência para a idade adulta, sobre a amizade e a fidelidade às promessas, num relato comovente e sensível. E não se pode falar desse livro, sem se referir ao autor: foi o único romance que ele escreveu, pois em 1914, aos 27 anos, desapareceu durante uma das primeiras refregas da Primeira Guerra Mundial e seu corpo só foi encontrado, numa vala comum, e identificado, em 1991. Fournier foi enterrado, então, no cemitério militar de Saint-Rémy-la Calonne e seu nome inscrito no panteão dos escritores mortos durante a guerra.


domingo, 14 de fevereiro de 2021

Baú de ossos, Pedro Nava

 Baú de ossos, Pedro Nava




Imagine uma árvore genealógica ligando Nordeste (Pernambuco, Ceará)-Juiz de Fora-Rio de Janeiro, uma árvore de raízes seculares, tronco resistente (resiliente?) e uma galharia sem fim, com nomes e sobrenomes às vezes ilustres, outras vezes, desconhecidos ou quase, enredados todos num processo de construção da burguesia brasileira, burguesia aqui no sentido mais histórico que político, e você terá uma saga impressionante de nossas origens como povo. Impossível não se impactar com as lembranças, com os casos, com os bastidores de políticos, médicos, gente como a gente, nas suas idiossincrasias, nas suas vitórias e derrotas, a presença constante da morte, uma parceira inseparável do próprio ofício do autor, médico que somente depois dos sessenta anos resolve deixar para a literatura brasileira um monumento de memorialística que se deixa comparar com a inevitável referência de Proust.


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Pastoral Americana, Philip Roth

 

Pastoral Americana, Philip Roth



Seymour Levov, o Sueco, judeu, industrial filho de industrial, o homem mais cobiçado de sua cidade, por sua beleza, por sua capacidade esportiva, casa-se com Dawn, a miss estadual, de família católica. Nasce a menina Merry, xodó do casal. Tem uma infância de sonhos, mas é acometida por uma gagueira quase incurável. Torna-se militante contra a guerra do Vietnã e, por essa causa, comete um atentado que mata um médico, na pacata cidadezinha onde vivem. Torna-se fugitiva e caçada pelo FBI. A vida de Seymour desmorona a partir daí. Seu mundo burguês destroça-se. E então vemos uma jornada ao inferno, onde todos os valores políticos, morais e éticos vêm à tona, num relato de profunda compreensão de que o paraíso não existe e de que o homem, sim, é seu próprio destruidor, quando seus preconceitos e preceitos são confrontados com a dura realidade. Apenas mais uma obra prima de Roth.


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Idade Média, Umberto Eco (org.)

 

Idade Média, Umberto Eco (org.)




Se a Idade Média não foi de trevas, como se apregoa, também não foi um tempo de paz. A partir do momento em que o império romano se divide e Constantino, como imperador do que resta, torna-se cristão, o cristianismo estende suas garras sobre toda a Europa, impondo a todos os povos, bárbaros e não bárbaros, a sua própria barbárie. Com Carlos, o Magno, ou se converte ou morre. Só escapa o oriente islamizado a partir do século VII. E a igreja católica da alta idade média cristaliza seus ritos, suas doutrinas, seu poder, cujas consequências sentimos até hoje. A complexidade desse processo é analisado em dezenas de textos de vários especialistas, sob a coordenação de Umberto Eco, para desvelar e fazer-nos entender a cultura, as guerras, as invasões, a filosofia de vida, os cultos, as artes do sacro império romano.


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Vigiar e Punir, Michel Foucault

 Vigiar e Punir, Michel Foucault


A história do corpo mutilado, decapitado, execrado e, depois, aprisionado em panópticas construções que reúnem multidões de homens, mulheres e crianças, sob a disciplina rígida, vigiada sempre, com o objetivo de levar esse corpo a se arrepender de seus crimes, mas que, ao contrário, faz com que esse mesmo corpo, agora confrontado pela sociedade que o pune, se organize dentro das prisões e se torne não apenas o criminoso punido por uma transgressão, mas o delinquente que irá se organizar para continuar a delinquir, porque a sociedade que o condenou não lhe oferece outra opção. Difícil, muito difícil resumir uma obra complexa, profunda, que historia as relações entre o punir e o vigiar nos séculos XVII, XVIII e XIX, e o impacto disso nas diversas organizações humanas, como oficinas, fábricas, indústrias e escolas. Para ler, reler e pensar profundamente que tipo de sociedade queremos.


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Os 120 dias de Sodoma, ou a escola da libertinagem, Marquês de Sade



Os 120 dias de Sodoma, ou a escola da libertinagem, Marquês de Sade



Numa espécie de reality show, quatro amigos tarados reúnem num castelo isolado um grupo de meninas e meninos sequestrados, mais um grupo de outros indivíduos auxiliares nas putarias que vão praticar, durante os dias de reclusão, alternando suas extravagâncias sexuais a contos narrados especialmente por prostitutas contratadas para exporem suas mais torpes experiências. Não há refresco para a libido: quase todas as parafilias são praticadas, com ênfase na coprofagia. Um profundo mergulho na capacidade humana de exercer a crueldade como forma de obter o prazer a qualquer custo, principalmente quando esse custo é o sofrimento alheio, através de humilhações, tortura, assassinatos.