domingo, 19 de maio de 2024

Matadouro 5, Kurt Vonnegut

 

Matadouro 5, Kurt Vonnegut


Em termos literários, não basta o que se conta, mas como se conta uma história. A forma escolhida pelo escritor estadunidense para contar uma história tenebrosa da segunda grande guerra foi a de uma pretensa leveza, com muita ironia. Mas, não se engane: não há, nesta “leveza” nenhum “passar pano” à crueldade e à barbaridade do ser humano durante um conflito bélico. Seu herói, ou devíamos chamá-lo, na verdade, de anti-herói, tem um comportamento praticamente passivo durante todos os acontecimentos anteriores e durante o fato principal da história: a destruição da bela cidade alemã de Dresden, na primavera de 1945, às vésperas do término da guerra. O bombardeio liquidou 135 mil pessoas, mais do que a bomba de Hiroshima. Mas o fato é pouco lembrado pela história. Vamos ao protagonista do romance: Billy Pilgrim parece ser cidadão mais do que comum, do interior dos Estados Unidos. Ao ser levado para a guerra, cai prisioneiro das forças alemãs e é levado para Dresden, onde passa a trabalhar num depósito de carnes subterrâneo e, por isso, sobrevive à destruição da cidade. Mas Billy Pigrim, embora pareça um cidadão comum, tem uma característica que o torna diferente e que leva a narrativa para um patamar de mistura de ficção científica e realidade: faz viagens no tempo e tem certeza de haver sido abduzido por extraterrestres de um planeta distante. Essa capacidade, narrada com humor e um certo sarcasmo, leva-nos a momentos da vida de Billy, suas origens, sua formação, seu casamento etc. Enfim, vamos conhecendo pouco a pouco essa personagem inventada pelo autor para ser uma espécie de alter-ego dele mesmo, testemunha que foi da destruição de Dresden. Um assunto espinhoso, tratado com “leveza”, mas de uma forma realmente interessante, sem sensacionalismo, mas com muita imaginação e sensibilidade. Um livro para não esquecer jamais.

quarta-feira, 15 de maio de 2024

Jardim de inverno, Zélia Gattai

Jardim de inverno, Zélia Gattai


Relatos de exílio são, muitas vezes, histórias de saudades da pátria, de perrengues, de superação etc. Não é o caso de Zélia Gattai: seu livro trata do exílio a que se viram forçados ela e o marido, Jorge Amado, no final dos anos 40, início dos 50 do século passado, mas não tem saudosismo nem lamentações. Há dificuldades, sim, mas sempre narradas com leveza e um certo humor, que perpassam toda a obra, o que a torna uma leitura muito agradável. Agradável porque, além das histórias de rotinas de vida e casos engraçados e interessantes, há o relato de suas viagens, a convivência com muitos artistas, escritores, poetas, como Picasso, Pablo Neruda, Nicolás Guillén e muitos outros. São todos amigos do casal, são todos comunistas. E o comunismo está presente em toda a narrativa, já que ambos foram acolhidos pela Tchecoslováquia, depois de serem expulsos da França, em 1949. Ali vivem até 1952, num castelo próximo de Praga, de propriedade da União de Escritores daquele país. Jorge Amado exilou-se por motivos políticos, durante o governo Dutra, quando o Partido Comunista, depois de um breve período de legalidade, foi colocado de novo na clandestinidade. Zélia descreve com detalhes a vida do casal, o crescimento de seu filho João, que era ainda um bebê, ao chegarem lá, seu desenvolvimento e sua complicação com as várias línguas e depois o nascimento da filha, Paloma. Destaque especial para as viagens, sempre por motivos literários ou políticos, cumprindo agenda das atividades internacionais de Jorge Amado ou a agenda do Partido Comunista: Inglaterra, Moscou e depois a China. Essa última, uma viagem de sonhos para a autora, desde o embarque no famoso trem Transiberiano até as experiências com os escritores e o povo chinês, num momento em que a China começava um longo período conturbado do regime socialista há pouco implantado, quando o culto à personalidade de Mao Tsé-Tung vai desaguar na chamada Revolução Cultural, que Zélia vê com olhos bem críticos, porque perdeu nesse período vários amigos escritores, nos processos de delação e expurgo que o Partido Comunista chinês levou a cabo. Mesmo depois que voltam ao Brasil, a autora ainda avança um pouco na narrativa, ao relatar a participação do casal, ao lado de Pablo Neruda, no Congresso Mundial da Paz, realizado no Ceilão, em 1957; a Salvador, na Bahia, em 1968, quando receberam a visita de Roman Polanski; e ainda ao ano de 1984, em Paris, quando Jorge Amado é reabilitado pelo governo francês, ao condecorá-lo com a Legião de Honra. Enfim, mesmo que não goste dos comunistas como eu gosto, você pode ler com prazer essa narrativa de uma mulher que, casada com um dos maiores e mais famosos escritores do Brasil, não se deixou eclipsar pela luz do marido e construiu uma prosa memorialista com um humor delicado e pontuado de muita verdade, digna dos bons narradores desse gênero literário.

quinta-feira, 9 de maio de 2024

Cidade de vidro, Paul Auster

 Cidade de vidro, Paul Auster


Terminei o livro sem ter a mínima ideia do que escreveria sobre ele. Se gostei? Claro que sim. Mas, sua trama – falsamente simples e impactante – deixou-me sem palavras. Tentemos. Primeiro, um breve resumo, sem muitas indiscrições para o futuro leitor. Temos um escritor de livros de mistério, Quinn, morador de Nova Iorque. Escreve sob o pseudônimo de William Wilson e é, portanto, anônimo, além de solitário. Recebe alguns telefonemas procurando pelo detetive Paul Auster. Diante do pedido desesperado vindo do outro lado da linha, resolve assumir a identidade desse pretenso detetive, o que o leva a um labirinto de personagens estranhos: o jovem Peter Stillman, uma espécie de Kasper Hauser que não diz coisa com coisa; sua bela e estranha mulher que lhe diz que o rapaz está em perigo, porque seu pai vai sair da cadeia e tentará mata-lo. Esse pai, Paul Stillman – que é o personagem mais fascinante e misterioso da trama - está preso porque manteve o jovem prisioneiro durante 12 anos num quarto escuro, levando seguidas surras, e é o autor de um livro delirante sobre a torre de Babel. Quinn resolve proteger o jovem e seguir o velho pai, assim que ele pisar em Nova Iorque. E é o que ele faz. A partir daí, entramos com o pretenso detetive num universo kafkiano de mistérios e enigmas que não se resolvem. Ou só se resolvem na prosa falsamente realista e deliciosamente envolvente do autor. Nada mais há a se dizer. Que tenha o leitor dessas linhas despertado sua curiosidade e procure o livro (ou o conto, ao que parece), e terá a mesma surpresa e o mesmo deleite deste resenhista.

segunda-feira, 6 de maio de 2024

A tolice da inteligência brasileira, ou como o país se deixa manipular pela elite, Jessé Souza

 

A tolice da inteligência brasileira, ou como o país se deixa manipular pela elite, Jessé Souza

Se você acredita na teoria do “brasileiro cordial” e outras baboseiras mais de nossos “maiores” sociólogos, como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Raimundo Faoro, Bolívar Lamounier etc. etc. etc. Se você acredita que o estado é sempre corrupto e que o mercado é que deve ser o dono de nosso destino, porque é “puro”, eu recomendo que vá caçar Saci em Botucatu ou rezar um terço para Nossa Senhora das Causas Perdidas, e não leia, absolutamente, não leia este livro do Jessé Souza. Porque ou você é um dos trouxas, como eu e milhões de brasileiros, ou você pertence ao 1% da população que nos faz de trouxas. Disto é que trata o livro: de como fomos e somos enganados por uma elite que mantém o poder e não quer, de forma alguma, largar a rapadura. O que autor quer com esse livro – que nada tem de pessimista, mas que é um alerta – é que conheçamos por dentro os mecanismos que nos levam a acreditar em teorias absurdas, em imagens distorcidas do Brasil, verdadeiros contos de fadas, para que continuemos a ser submissos aos interesses e à exploração de uma elite do dinheiro que manda e desmanda em nossas vidas e corrói toda a possibilidade de que ultrapassemos a condição de ser um dos países de mais desigualdade social do mundo. Sim, a taça é nossa! E parece que, dentro do engodo construído por um exército de intelectuais, como os citados acima, que influenciaram e influenciam as políticas públicas do nosso país e formatam o pensamento da elite exploradora, ainda vamos levar muitos anos para deixar essa condição. As classes populares são massacradas por formas indiretas de imposição de um pensamento amortecedor de suas possibilidades de reação, como o economicismo, o patrimonialismo, o conceito do estado corrupto etc., por meio de um brutal sistema de convencimento de que essas classes existem apenas para servir, usando para isso, a mídia sempre disposta a se vender aos poderosos, quando mesmo não tenham por donos esses mesmos poderosos. Dominam eles, os donos do país, todas as estruturas de poder, de informação, de inteligência e monopolizam os recursos escassos para manter sob suas rédeas a maioria absoluta do povo, impondo, através do tal mercado “santificado”, a exploração deslavada, usando para isso a manipulação dos preços, a manutenção das taxas de juros elevadas, o rentismo canalha e todos os demais meios de dispoõem para o entorpecimento da população, cada vez mais iludida pelo canto da sereia de uma extrema direita golpista, entreguista e que só defende os interesses dos poderosos. O livro foi escrito em 2014 e, portanto, não cobre a canalhice golpista após as manifestações populares manipuladas de 2013, mas abre a nossa cabeça para o que veio depois. E o mais importante: alerta-nos sobre os tais mecanismos de manipulação de que lançam mão os poderosos para manterem anestesiados os indivíduos inteligentes e as classes sociais e nos fazerem de tolos, para que os privilégios injustos sejam normalizados e eternizadas, como se eles, os poderosos, “merecessem” como um “dom natural e talvez divino” (como as antigas dinastias régias) os privilégios que acumulam. Portanto, meu caro e parco leitor dessas linhas: se você acredita na perversidade do estado, se você acredita que a corrupção é só do estado e não do mercado que usa e abusa do seu poder para mantê-lo escravo de sua condição de vida, você deve acreditar também em papai noel e em coelhinho da páscoa. E não deve ler esse livro.

segunda-feira, 29 de abril de 2024

A livraria dos pequenos milagres, Mónica Gutiérrez



A livraria dos pequenos milagres, Mónica Gutiérrez

De Barcelona para Londres, a jovem Agnes Martí busca emprego em sua área, a arqueologia. Mas, mesmo na grande cidade, as portas não se abrem. Desanimada, já pensando em voltar para sua terra, entra numa pequena livraria, a Moonlight Books, de propriedade de um excêntrico e mal-humorado livreiro, Edward Livingstone, que lhe oferece um emprego de assistente. Não é o emprego de seus sonhos, mas será o emprego que mudará sua vida. Frequentam a livraria clientes típicos e estranhos, além do garoto de 8 anos de nome literário, Oliver Twist, filho de uma advogada que o deixa todos os dias à tarde sob os cuidados do livreiro, e um escritor que faz da loja o seu escritório. Parece ser a senha para um passeio pela literatura inglesa, com muitas citações de escritores e livros, num roteiro que enche de curiosidade um leitor mais atento. Mas, voltemos ao enredo: um dia, um livro histórico, de um desbravador inglês, antepassado de Livingstone, desaparece. Surge, então, a figura de um jovem detetive da Scotland Yard, que vai mudar a vida de Agnes. Paremos por aqui. O leitor dessas linhas já pode adivinhar o romance que irá acontecer. Não adivinhará, no entanto, como se desenrolará a história. O importante é que não é um livro em que aconteçam fatos mirabolantes, nem que se conte uma história absolutamente inédita, mas o encanto está justamente na forma divertida e, às vezes, irônica com que a autora manipula suas personagens num delicioso passeio por uma Londres distante dos romances de Charles Dickens, mas com alguns ecos do grande escritor. Mais duas observações, antes de encerrar. Primeiro, uma escritora catalã que escreve com propriedade um romance cuja história se passa em Londres nos diz muito sobre a União Europeia que os ingleses recusaram, em um plebiscito absurdo e manipulado. Segundo, a tradução que li vem de Portugal, com todo aquele delicioso sotaque lisboeta e com todo aquele léxico típico, como chamar de “montra” a vitrina da loja e tantos outros termos desconhecidos e divertidos, para nós, brasileiros, como devem ser divertidas para eles as palavras que usamos para designar as mesmas coisas. Portugal e Brasil, unidos pela mesma língua, separados pelo sotaque e pelo léxico!

quinta-feira, 25 de abril de 2024

A casa soturna, Charles Dickens

 A casa soturna, Charles Dickens



Dickens é um escritor que gosta de escrever. Isso parece algo idiota de se dizer de um escritor, mas a frase justifica a própria forma de o autor de “A Casa Soturna” desenvolver seu enredo: não economiza palavras, não “edita” o texto e leva o leitor através de suas mais de 1.300 páginas a desvendar um mundo complexo, na Londres da primeira metade do século XIX, com dezenas e dezenas de personagens que se interrelacionam. Há muitas leituras possíveis desse romance oceânico, que tem seu eixo central num processo judiciário, o caso Jarndyce e Jarndyce referente a uma disputa em torno de uma herança, de uma propriedade, que se arrasta nos tribunais há várias gerações, envolvendo os implicados, sejam herdeiros ou advogados, a uma espécie de “delírio jurídico” de falsas esperanças que leva a todos à ruína, a ódios imotivados, numa crítica ácida ao sistema jurídico inglês. Para contar essa história mirabolante, o autor usa dois narradores. Um que conta a história “de fora”, isto é, de forma mais racional e distanciada, com um profundo mergulho não só nos meandros jurídicos de advogados e juízes, mas principalmente pelas ruas sujas, lamacentas, escuras e cobertas de neblina de uma Londres povoada de seres humanos destituídos de quaisquer possibilidades de ascensão social, uma gente miserável e esquecida, envolvida em mistérios, em assassinatos e superstições. Leva-nos também às mansões, aos salões e aos hábitos de uma nobreza ainda poderosa, mas já decadente, diante da revolução industrial, cujas chaminés fuliginosas e criadoras de novas classes sociais já começam a dar seus ares de mudanças profundas. O outro narrador é uma narradora, Ester, uma jovem aparentemente órfã, cujas origens vão sendo pouco a pouco desvendadas, através de suas relações com um nobre – no sentido mais amplo da palavra - que, embora tivesse o sobrenome Jarndyce, não quer se envolver no famoso processo. Romance, crime, mistério, queda social, redenção e relações humanas complexas povoam a vida e a narrativa da jovem, até o desenlace nem sempre feliz de suas histórias e das personagens que com ela convivem. A destacar, ainda, nesta minha breve resenha, a mordacidade com que o autor trata a sociedade londrina, um humor às vezes ácido, às vezes complacente, mas sempre com um olhar crítico, neste que é considerado um dos romances mais complexos e perfeitos desse grande escritor inglês do século XIX, aquele que eu considero o século dos grandes romances da literatura ocidental. O leitor que se propuser a desbravar suas páginas não terá nada mais nada menos do que literatura de primeiríssima qualidade, que se lê com o vagar e o prazer que todo bom romance merece.

sexta-feira, 5 de abril de 2024

O jardim de cimento, Ian McEwan

 

O jardim de cimento, Ian McEwan



“Não matei meu pai”: é a frase inicial de Jack que, na última linha do livro, nos fala, de forma quase abrupta, da chegada da polícia. Entre essas duas afirmativas, há toda uma história narrada em primeira pessoa por esse jovem de aproximadamente 15 anos, sobre os acontecimentos de sua família após a morte do pai, ao fazer um grande esforço físico para cimentar um caminho no jardim da casa onde ele mora com a mãe e mais duas irmãs, Sue, de 13 anos, Julie, de 17 e o irmão excepcional Tom, de 6 anos. Algum tempo após a morte do pai, a mãe, após uma longa enfermidade, também morre. Os quatro irmãos ficam sozinhos na enorme casa isolada num subúrbio qualquer. De Londres? Não há nenhuma indicação, apenas o fato de que as casas ao redor foram derrubadas para a abertura de uma rodovia cujas obras ainda não começaram. O sentimento de solidão e isolamento percorre a narrativa detalhada da vida dos irmãos: suas rotinas, suas incertezas, suas brincadeiras, suas brigas e rixas próprias de crianças e adolescentes, num crescendo de angústia que toma o leitor, mas não as personagens. Tudo é narrado de forma leve, até com uma certa irresponsabilidade. São jovens e aproveitam como podem o sentimento de liberdade que desfrutam, isolados naquela casa, até que chega um elemento estranho: um jovem, Derek, namorado de Julie, de 23 anos, jogador de sinuca e, na visão dos moradores da casa, muito rico. A estrutura familiar estranha e um tanto disfuncional criada por eles vai pouco a pouco desabando, sem que eles se deem conta, criando um suspense existencial e complexo que termina... bem, termina com a chegada da polícia. Por quê? O que eles fizeram? E por que o fizeram? Tudo fica para a imaginação do leitor, diante de mais uma pequena obra de impacto desse grande escritor moderno da velha Inglaterra, Ian McEwan, nesse romance de cores góticas, num enredo sem qualquer concessão a emoções ou ao lirismo.