quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Beatriz, Cristóvão Tezza

Beatriz, Cristóvão Tezza



Quando se fala de contos, temos uma imensa variedade de tipos: desde os longos contos dos autores do século XIX, como Poe, Machado, Dostoievski etc., que são até mesmo divididos em capítulos, até os micro contos da literatura contemporânea; há contos de uma única personagem até contos povoados de personagens de todos os vieses; há contos narrados em primeira pessoa ou com narrador onisciente em terceira pessoa... Enfim, são muito variados. Neste livro de Cristóvão Tezza temos sete contos mais ou menos longos. O que o torna um pouco diferente é que todos os contos giram em torno da mesma personagem, Beatriz. Podia ser um romance, mas a estrutura independente de cada uma das narrativas não deixa dúvida quanto ao gênero do livro. Numa breve resenha, não faz sentido tentar resumir ou discorrer sobre o enredo de cada história. Então, só o que nos cabe dizer é que Beatriz, a personagem, é uma jovem de aproximadamente 28 anos, revisora de textos, que se envolve em várias situações ora dramáticas ora cômicas, mas sempre muito bem narradas pelo autor, na cidade de Curitiba, o que faz, sem dúvida do livro Beatriz uma ótima leitura para um fim de semana.



domingo, 6 de fevereiro de 2022

A flecha de Deus, Chinua Achebe


A flecha de Deus, Chinua Achebe



Nigéria, década de 20 do século passado. A aldeia de Umuaro tem como sumo sacerdote Ezeulu e vive conflitos internos com aldeias vizinhas. Além disso, há a ameaça das crenças e da imposição política do homem branco, de ingleses conquistarem o território. Ezeulu envia seu filho, Oduche, à igreja do homem branco para ser os seus olhos e, então, poder proteger a aldeia do avanço das suas crenças. Nem todos os anciãos, no entanto, concordam com essa ideia e Ezeulu tem que tomar decisões importantes, que implicam o futuro de seu povo. Do outro lado, há o capitão Winterbottom, responsável político pela região, que se vê também obrigado a tomar decisões com as quais não concorda. Sabe que os povos africanos são tribalistas e não aceitam a ideia de um governo central, um rei. Mas, há uma ordem para que ele nomeie alguém de confiança para ser uma espécie de rei, de representante da coroa, na região de Umuaro. Escolhe Ezeulu. São dois mundos distantes, em conflito de língua, hábitos e costumes. E o autor não nos poupa na descrição deliciosa e rica de detalhes da espécie de visão de mundo dos nigerianos daquela região. Seu modo de compreender a vida, com características marcantes da linguagem, rica de comparações e de referências que soam estranhas aos nossos ouvidos: “se você me ouvir novamente perguntar-lhe sobre isso, pegue meu nome e o dê a um cachorro”; “se o lagarto do lar se esquece de fazer as coisas pelas quais sua espécie é conhecida, ele será tomado por um lagarto da roça”... Assim que nos acostumamos com esse tipo de linguagem e com todos os detalhes da vida nos povoados de Umuaro, passamos a seguir o pensamento de Ezeulu com prazeres cada vez mais renovados, partícipes de um mundo que se descortina ante nossos olhos, um mundo talvez arcaico e primitivo, mas rico, muito rico de cultura, de beleza e de costumes. A literatura africana, que aos poucos se mostra ao mundo, tem talentos inexauríveis e grandes contadores de história, como esse nigeriano fantástico que se chama Chinua Achebe.



quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Pequenas epifanias, Caio Fernando Abreu


Pequenas epifanias, Caio Fernando Abreu



A crônica é um texto jornalístico que tem por características principais a brevidade e o comentário de um acontecimento. Crônicas: leem-se, diverte-se com elas e esquece-se. Como aqueles calendários antigos dos quais tirávamos uma folha por dia e, por isso, denominavam-se “folhinhas”. Só que não é bem assim: aclimatada ao “jeito” brasileiro, aqui ganhou foros de boa literatura, desde Machado de Assis, passando por Drummond, até chegar a Rubem Braga, só para citar nossos mais destacados cronistas. Escreveram-se crônicas de todos os tipos: líricas, sérias, engraçadas, políticas, sociais etc. Muitas, muitíssimas tornaram-se obras primas e são lembradas e cultuadas, assim como seus autores. Pela técnica, pela verve, pela perspicácia ou pelo estilo. Pequenos monumentos literários. E chegamos a “Pequenas epifanias”, as crônicas de Caio Fernando Abreu. Escritas e publicadas nos jornais dos anos 90, viraram esse livro que comento agora. Seu estilo é ímpar, e seus temas, embora variados, são intimistas, o que é praticamente uma novidade no gênero. Divertimo-nos com suas observações sobre viagens e sobre cidades, São Paulo e Porto Alegre, às vezes o Rio de Janeiro; emocionam-nos suas homenagens a amigos e amigas que se foram; encantam-nos suas pequenas descobertas da vida etc. etc. Ao longo das páginas, em ordem cronológica, as crônicas – que são o tempo breve eternizado num pequeno texto - vão ficando tristes: o poeta e cronista arguto vai deixando rastros de sua condição de doente terminal, mas não há queixas, apenas a constatação, a cada palavra, a cada frase, a cada página, de que ele está se despedindo, sem mágoa, sem reclamar, apenas aqui e ali a referência a hospitais, a internações, a invernos e a jardins que se estiolam com o inverno, que o poeta ganhou em seus últimos tempos mais essa epifania, o gostar de jardins, de dizer que gostaria de ser jardineiro. E vai nos tomando uma tristeza... não, não é exatamente uma tristeza, mas um desgosto por uma vida que se esvai tão inutilmente, como tantas se foram, por causa de um vírus maldito, e pensamos que muitos que se foram nessa verdadeira epidemia ou pandemia, sei lá, que apagou tantas vidas iluminadas, podiam ter permanecido acesas um pouquinho mais, que logo algumas drogas estavam aí, para lhes dar sobrevivência. E Caio F. se foi, num 25 de fevereiro de 1996, em sua Porto Alegre, antes de completar 50 anos de vida, um cara que nos revelou as epifanias dessas crônicas fantásticas que, escritas naqueles anos 90, têm ainda o frescor e a beleza das rosas e begônias que se renovam a cada ano em todos os jardins, as rosas, begônias e tantas outras flores que ele amava e cuidava, como cuidou de sua literatura.



segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

A via crucis do corpo, Clarice Lispector

 A via crucis do corpo, Clarice Lispector




“Se há indecências nas histórias, a culpa não é minha”: assim se desculpa a grande escritora, pelos treze contos desse livro que foge um pouco ao tipo de literatura praticado por ela. Foi fruto de uma encomenda, mas como tudo o que ela escreve tem seu estilo, sua forma toda peculiar e, por que não dizer?, sua genialidade, não encontramos nenhuma escatologia nos contos, mas sim, revelações de desejos inconfessáveis do corpo, delírios de almas atormentadas por experiências várias, desde a velhice que ainda traz ardores, até o medo da morte e os momentos de fracasso no amor. Humanizam-se todas as personagens pelo olhar sensível da autora, que nos leva pelos labirintos do desejo de forma elegante e sincera, resvalando as “indecências” com a sabedoria de quem sabe o que está falando, mas principalmente com o olhar agudo e, ao mesmo tempo, irônico e perspicaz. Nós, leitores, desculpamos todas as indecências, e só lamentamos que sejam tão poucas, não as indecências, mas as histórias, apenas treze.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

A filha do capitão, Alexander Pushkin

 A filha do capitão, Alexander Pushkin



Pushkin é considerado um dos fundadores da literatura moderna russa. Viveu entre 1799 e 1837, no período romântico, com todas as características do Romantismo vigente. A história de “A filha do capitão” passa-se em 1773, no reinado de Catarina, a grande, época marcada por grandes revoluções populares contra o trono. Pietr Adreitch Griniov é um jovem oriundo da aristocracia do exército russo, tendo sido seu pai um oficial conhecido e admirado. Ao completar 16 anos de vida folgada e fácil, é enviado para servir num forte longínquo. Durante a viagem, conhece um mendigo maltrapilho e arrogante, mas condoído de sua situação, dá-lhe de presente seu casaco e seu cachecol, para se abrigar do frio intenso. Será esse mimo o que salvará sua vida no futuro e, também, complicará sua história. No forte, apaixona-se por Maria Ivanovna, a filha do capitão. No entanto, rebeldes amotinados invadem a aldeia e matam o capitão e sua mulher, deixando a moça órfã. Ele consegue fugir e, depois de muitas peripécias, volta ao forte e resgata o amor de sua vida. São muitas, muitas as peripécias, contadas numa linguagem ágil e deliciosamente envolvente, o que faz da obra uma leitura agradável, na sua aparente simplicidade de um herói que vence todas as dificuldades pelo amor de sua amada. No entanto, sob esse véu de escaramuças, fugas e coincidências relacionadas às revoltas dos camponeses contra o trono, apreendemos um vasto painel da vida, dos costumes e da política da Rússia do século XVIII, o que nos leva a colocar o autor, pelo menos para nós do ocidente, que só conhecemos a literatura russa através de alguns poucos grandes nomes, no panteão dos grandes escritores dessa enorme nação, e também dos escritores românticos do século XIX.


terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Rebecca, Daphne de Maurier

 Rebecca, Daphne de Maurier





A história de um fantasma. Creio que seria essa a frase a resumir o enredo desse livro, que tem uma protagonista ausente, já morta, o tal fantasma, e grandes pinceladas de melodrama. Melodrama: não é, como muitos pensam, constituído de enredos melosos e sentimentaloides, embora muitos enredos desse tipo aproveitem-se da estrutura melodramática para provocar lágrimas em seus leitores. Melodrama é o enredo em que nada é o parece, ou seja, quando as personagens parecem uma coisa e, na realidade, são outra, muito diferente. O melodrama engana o leitor o tempo todo. No cinema, Hitchcock usou e abusou dessa estrutura, para pregar sustos reais ou imaginários em seus espectadores, ou levá-los a pensar que tal ou qual personagem era inocente, para, ao cabo mostrar que era culpado, e vice-versa. Não à toa levou às telas outros três livros da autora de Rebecca, todos estruturados de forma melodramática. Voltemos ao nosso livro: a narradora é uma jovem órfã, na década de 30, empregada como dama de companhia de uma senhora inglesa excêntrica. Durante a estada das duas em Monte Carlo, na França, ela conhece Maximiliam de Winter, um inglês quarentão, recentemente viúvo e rico. Casam-se em poucas semanas e o casal vai morar na mansão chamada Manderley, nas costas da Inglaterra. E aí começam os problemas da jovem esposa: vê-se “atormentada” pela sombra da ex-mulher, que era seu oposto em tudo, pelo menos era o que ela imaginava: alta, bela, orgulhosa, esportista e, principalmente, amada e admirada por todos – amigos, vizinhos e empregados da mansão, onde reinava sobranceira. Não falta, entre os empregados, a administradora misteriosa e fervorosa admiradora da morta. Também há figuras estranhas, como o rapaz abobado que frequenta a praia preferida da morta. Manderley, na majestade de suas construção, com seus jardins e bosques floridos, torna-se praticamente uma “personagem” nesse romance de intricadas implicações psicológicas, em que há muitos segredos a serem desvendados e mistérios insondáveis da mente humana. O enredo é muito bem construído, para nos levar até as últimas linhas em suspense, mesmo que alguns dos mistérios e segredos tenham sido desvelados. Boa leitura para um fim de semana frio, degustando um vinho e um cobertor. Ou, no verão, à sombra de coqueiro, degustando algo bem gelado.



sábado, 22 de janeiro de 2022

Romance d'A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, Ariano Suassuna

 

Romance d'A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta, 
Ariano Suassuna



A palavra cria a verdade e a verdade é a palavra transformada em sonho e delírio de um decifrador de enigmas e bibliotecário do sertão paraibano que se diz descendente de uma linhagem de reis tão tresloucados quanto ele, num sebastianismo que se materializa num “encoberto” que, assassinado, ressuscita e volta montado num cavalo branco, para restabelecer a monarquia e fazer do sertão o paraíso de seu desesperado e angustiado povo, liberto, enfim, da espoliação de seus coronéis que, por desdita, são exatamente os reis que os salvarão da miséria em que se encontram. E o sonhador-mor de toda essa esperança sebastianista é Dom Pedro Dinis Quaderna, o tal decifrador e visionário envolvido num processo judicial em que é acusado da morte de seu padrinho, um dos reis, degolado num quarto fechado no alto de uma torre que lembra as pedras gêmeas que Quaderna vê como as torres de seu castelo, de onde, por três anos, há exato um século, foi coroado imperador o primeiro rei do sertão. Por causa desse processo, faz um longo depoimento a um juiz, em que relata suas aventuras e desventuras, as batalhas sangrentas envolvendo a volta do tal “encoberto”, o jovem do cavalo branco, seu primo; expõe sua filosofia e a de seus amigos Clemente e Samuel, dois filósofos que, com ele fundam uma academia de literatura e história; conta toda a história de sua linhagem familiar de reis e príncipes; fala de seu desejo de ser coroado rei, mas principalmente, de se tornar “o gênio da raça”, como poeta, e escrever um longo poema ou uma longa epopeia narrando todos os seus delírios e a história dos reinados de sua família. E todo esse romance de reis e reinados sertanejos se transforma na palavra fluente e poética da longa, longuíssima narrativa do visionário Quaderna que, ao final, já como rei do Sertão, é coroado pelos mais insignes nomes da nossa cultura como o “gênio da raça”, conquistando, enfim, seu sonho mais acalentado, ainda que o sol sertanejo que ele contempla seja visto por trás de barras de ferro. “A Pedra do Reino” cumpre, assim, o que promete: uma das mais belas narrativas de nossa literatura. Muitos críticos já o compararam a inúmeras outras epopeias ou romances, desde “Don Quijote” até “Grande Sertão: Veredas”. Esqueça todas essas comparações. São inúteis, mas não são inúteis nosso deleite e nosso enriquecimento como brasileiros que as visagens de Dom Pedro Dinis Quaderna nos proporcionam ao longo de cada uma das páginas desse livro memorável. E viva Dom Sebastião!