sexta-feira, 10 de março de 2023

A lenda do Fantasma, Lee Falk

 A lenda do Fantasma, Lee Falk


Criado como tira de jornais em 1936, será que “o espírito que anda” ou “o homem que não pode morrer” ainda pode seduzir os jovens destes tempos de super-heróis em filmes de superprodução e de roteiros surpreendentes? Não tenho resposta. Mas posso dizer que li com prazer a história desse herói de histórias em quadrinhos que tem por ideal de vida “combater os piratas e a maldade do mundo”, fazendo justiça com seus punhos poderosos e sua lenda de imortalidade. É um “super-herói” que não tem superpoderes. Neste livro, conta-se a história da vigésima primeira geração do herói, ou seja, a história de Christopher Walker, nascido na selva e enviado aos Estados Unidos, para completar sua educação, aos doze anos. A lenda do Fantasma, que mora numa caverna num país fictício, Bengalla, protegido por uma tribo de pigmeus, temidos por suas flechas envenenadas, começa no século XVI, quando o primeiro Fantasma jura vingar a morte do pai, assassinado por piratas. A partir daí, vinte gerações acumularam fortuna e fama, através do combate à injustiça, com os rostos cobertos por uma máscara, usando uma roupa colada ao corpo, aparecendo e desaparecendo misteriosamente, criando assim a aura de imortalidade. Nas tiras e nas revistas, o Fantasma vem encantando gerações desde a sua criação, mas não sei se sobreviveria hoje em filmes ou mesmo em reedições ilustradas. De qualquer modo, reitero o meu prazer de relembrar a história de um herói de minha adolescência, quando as revistas de quadrinhos começaram a fazer sucesso por aqui. Se já não tenho a mesma paciência para ler essas revistas, a história em livro, sem ilustrações, permitiu que todas as façanhas desse improvável mas fascinante herói trouxesse de volta para mim um tempo em que ainda tateava no terreno da busca por uma filosofia de vida, de valores éticos e, mesmo que meio ultrapassados, os valores do Fantasma e sua luta por justiça e pelo direito calaram fundo no meu pensamento, como os valores de outros super heróis atuais devem influenciar as novas gerações.

terça-feira, 7 de março de 2023

Medicina dos horrores - A história de Joseph Lester, o homem que revolucionou o apavorante mundo das cirurgias do século XIX, Lindsay Fitzharris

Medicina dos horrores – A história de Joseph Lester, o homem que revolucionou o apavorante mundo das cirurgias do século XIX, Lindsay Fitzharris


Um livro tão fascinante, que não se como iniciar este comentário. Poderia começar falando que o atual uso de máscaras por quase toda a humanidade, para tentar conter a pandemia de Covid-19 – o que salvou inúmeras vidas – está diretamente ligado a um médico do século XIX, Josph Lester, o biografado nesse extraordinário relato. Mas, acho que vou iniciar a minha resenha com esta citação do livro: “A erisipela era uma das quatro grandes infecções que infernizavam os hospitais do século XIX. As outras três eram a gangrena hospitalar (úlceras que levavam à putrefação da pele, dos músculos e dos ossos), a septicemia (envenenamento do sangue) e a piemia (desenvolvimento de abcessos purulentos)”. Não havia como tratar essas infecções. E quase todos os hospitalizados, principalmente os amputados, acabavam morrendo. Por isso, os hospitais eram chamados de “casas da morte”. Em meados do século, já o processo de industrialização na Inglaterra atingia altos picos, o que levava a uma quantidade absurda de acidentes de trabalho, por prensas e outras máquinas que mutilavam os operários, além do trânsito infernal de veículos ainda puxados a cavalos, mas cada vez mais pesados e mais velozes, que atropelavam as pessoas, fruto do crescimento urbano. Uma fratura levava fatalmente à amputação do membro, coisa que até mais ou menos 1848 era feita a sangue frio, não havia anestésicos. Além do sofrimento da cirurgia, a recuperação quase sempre levava a infecções e à morte. A descoberta do clorofórmio como anestésico aliviou a dor da cirurgia, mas não trouxe melhoria na recuperação, já que as salas cirúrgicas e os hospitais eram tão imundos quanto as próprias cidades – Londres, na Inglaterra; ou Glasgow e Edimburgo, na Escócia, onde viveu Lester – eram cidades sujas, fedidas, sem nenhum saneamento, com esgoto correndo a céu aberto e lixo acumulado nas ruas. Os cirurgiões nem as mãos lavavam entre uma amputação e outra. Esse estado de coisas desesperava um jovem médico, Joseph Lester. Suas tentativas de melhorar as condições dos hospitais esbarravam na tradição (sempre foi assim), na ignorância (as doenças eram causadas por miasmas) e na estupidez (durante a guerra de secessão nos Estados Unidos – 1861-1865 – os médicos enviados para os campos de batalha chegaram usar até mesmo terra – você leu direito: terra! – para cobrir os tocos dos amputados!). Coube a um químico francês, o grande Louis Pasteur, a descoberta dos germes. Baseado nas experiências de Pasteur, Lester desenvolve a teoria da assepsia, ou seja, da desinfecção dos instrumentos cirúrgicos, do ambiente hospitalar e do próprio cirurgião, a partir de novas técnicas operatórias, que incluíam o uso do ácido carbólico, ou fenol, que era utilizado principalmente nos fétidos matadouros e beiras de rio, para diminuir a fedentina. Foi uma longa luta para convencimento de seus pares, e Joseph Lester – que morreu em 1912, já bem idoso – teve uma trajetória extraordinária, digna de figurar entre os grandes benfeitores da humanidade. Uma biografia surpreendente, detalhada, num retrato vívido de um tempo – a segunda metade do século XIX –, da situação de um país – a Inglaterra –, e de um momento do desenvolvimento da ciência médica. Sim, um livro fascinante.

quinta-feira, 2 de março de 2023

Uma História da Leitura, Alberto Manguel

 Uma História da Leitura, Alberto Manguel


Enquanto estamos lendo um livro, somos seu escravo; depois, tornamo-nos senhores do conhecimento que ali está depositado, seja através de qualquer gênero – literário, histórico, filosófico etc. Um livro é, portanto, sempre uma fonte de conhecimento – do mundo e de nós mesmos. Talvez por isso a fascinação da leitura, talvez por isso é que nos lançamos sempre em busca de novos livros: não importa o formato, desde as tábuas de argila, até os modernos leitores digitais. E carregamos os livros – nós, os aficionados da leitura – para onde quer que vamos, como o grão-vizir da Pérsia, que carregava sua biblioteca, quando viajava, no lombo de quatrocentos camelos treinados para andar em ordem alfabética. Essa e centenas de outras histórias, envolvendo a leitura através dos tempos, é o que nos conta Alberto Manguel, neste livro fantástico, “Uma história da leitura”. Sem dúvida uma obra para encher os olhos e as mentes de todo apaixonado por livros. São muitíssimos os fragmentos de experiências de todo o tipo de leitor, através dos tempos, desde o encantamento com o aprendizado da leitura até a leitura compulsiva de tudo que cai diante dos olhos desses seres especiais, que são os leitores. Um livro para se ler devagar, apreciando cada caso, cada situação levantada através de seus longos capítulos, degustando as histórias e as lições que nos trazem, e até lamentando quando o final se aproxima. Mas, não tenhamos pressa, que o ato de ler - talvez a mais civilizada das paixões humanas - não se arrefece quando chegamos ao ponto final de um livro, mas se renova na busca de mais uma obra, de mais um autor, de mais conhecimentos – do mundo em que vivemos e de nós mesmos – através desses sinais misteriosos que inventamos para viver vidas e tempos que não apenas as nossas vidas e o nosso tempo. Ler, afinal, é celebrar a liberdade de sonhar, de pensar, de viver.

sábado, 18 de fevereiro de 2023

O Castelo, Franz Kafka

O Castelo, Franz Kafka

Josef K., ou simplesmente K., um agrimensor, chega a uma aldeia ao pé de um castelo, convocado para ali prestar serviços. A ele são atribuídos dois auxiliares. No entanto, essa ordem, foi emanada dos burocratas do castelo, que dominam o povoado, há muitos anos e, agora, ninguém sabe por que foi de novo expedida e para que servem os serviços de agrimensura de K. Visto como um estrangeiro, um indesejado, pelos donos das duas únicas pousadas e pelos habitantes da vila, K. tem sua vida ali transformada numa espécie de pesadelo, de estar onde não o querem, e de não saber o que fazer, já que os arrogantes burocratas do castelo não se decidem a determinar seu destino, afogados em montanhas de processos absolutamente inúteis sobre a vida de cada um dos moradores do povoado, sobre os quais têm pleno domínio. Apaixona-se por Frieda, amante de um dos burocratas do castelo, e com ela pretende casar-se, mas logo é abandonado e ela se une a um dos seus ajudantes, cujos serviços ele já dispensara. Mesmo o trabalho que lhe arranjam, de faxineiro da escola, não dura muito, principalmente pela oposição do professor e diretor do estabelecimento. Sua amizade se restringe a uma das moças de uma família execrada no passado pela população e pelos habitantes do castelo, sem que eles saibam exatamente o motivo, como aliás, acontece com todas as pessoas que têm processos que os burocratas acumulam sem suas repartições inúteis. Enfim, K. vive numa espécie de limbo, de não-existência, até o desfecho final do livro, que se encerra com uma frase não terminada. A longa trajetória de K. é toda construída através da linguagem, da força da linguagem – artificial e às vezes complexa – de Kafka. Todo um mundo de mistério, relatado de forma realista, descortina-se ante nossos olhos, formando um painel impressionista que possibilita inúmeras interpretações a que dezenas e dezenas de estudiosos têm-se dedicado, desde a publicação do livro, na primeira metade do século XX, lembrando que Kafka morreu em 1924, com 40 e poucos anos, quando o ovo da serpente nazista ainda estava em gestação. Digo isso, porque uma das possíveis interpretações da obra se relaciona ao pesadelo do regime hitlerista, mas, na minha opinião, não há qualquer vislumbre de tal profecia por parte de Kafka. O mundo que ele nos deixa é, sim, uma visão distópica de opressão e de falta de sentido da própria vida, uma visão pessimista da sociedade, recém-saída da primeira grande guerra, sem ainda um rumo definido para suas angústias. De qualquer forma, ler Kafka hoje deveria ser quase uma obrigação para aqueles que pensam sobre o ser humano, suas angústias e seus desatinos não resolvidos e, possivelmente, muito longe de que isso venha a acontecer.

sábado, 11 de fevereiro de 2023

Paisagens da Metrópole da Morte – Reflexões sobre a memória e a imaginação, Otto Dov Kulka

 Paisagens da Metrópole da Morte – Reflexões sobre a memória e a imaginação, Otto Dov Kulka



Inicio esta resenha com uma reflexão, ou melhor, com uma pergunta (talvez meramente retórica): como é possível que, diante de tantas provas, ainda haja no mundo pessoas que neguem o holocausto judeu sob o nazismo hitlerista, ou pior: que ainda haja pessoas no mundo que advoguem a ideologia nazista? Deixo a resposta à imaginação do leitor. Apenas suspiro e sofro ao pensar na maldade humana... Vamos ao livro. O autor, Otto Dov Kulka, é um respeitado historiador israelense, versado em história moderna, o que inclui o nazismo e o holocausto de seu povo. Aos onze anos de idade, em 1943, juntamente com sua família e centenas de pessoas oriundas da então Tchecoslováquia, foi enviado para Auschwitz, de onde sobreviveu por mero acaso. Adulto, passou décadas em silêncio sobre esse fato sombrio de sua infância. Então, durante 10 anos, de 1991 a 2001, gravou suas memórias, com fragmentos de sua passagem pelo terrível campo de concentração, evocando paisagens, pequenos acontecimentos, pessoas, e refletindo sobre aqueles momentos em que esteve várias vezes às portas dos fornos crematórios, mas, inexplicavelmente – pelo menos, para o menino – era poupado. Por acaso, foi enviado, juntamente com seus pais, para o campo anexo a Auschwitz, o “campo das famílias”, como era chamado, em Birkenau, onde os prisioneiros não eram separados entre os mais aptos – que eram enviados a trabalhos forçados na Alemanha – e os “outros”, que eram enviados aos fornos, que funcionavam a pouca distância, dia e noite. E ali, a poucas dezenas de metros dessas máquinas da morte, o menino de onze anos, ironicamente, aprendeu a cantar a “Ode à Alegria”, de Beethoven; viu sua mãe se despedir, para ser enviada a lugar longínquo e desconhecido, numa das cenas mais tocantes e fortes dessas memórias e registrou as paisagens magníficas – que ficaram em sua retina – dos campos e do azul do céu de Auschwitz. A partir desses fragmentos de memórias, o autor nos leva a reflexões sobre um dos momentos mais terríveis da história, motivo pelo qual iniciei esta resenha com o meu espanto diante do fato de que ainda haja pelo mundo grupos de neonazistas e neofacistas, advogando teorias racistas e supremacistas. Sem dúvida, uma pequena obra prima – já que é um livro de apenas pouco mais de 160 páginas – para se ler, reler e pensar. Pensar muito.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

A fabulosa história do hospital – da Idade Média aos dias de hoje, Jean-Noel Fabiani

 A fabulosa história do hospital – da Idade Média aos dias de hoje, Jean-Noel Fabiani


Não é preciso ser médico ou atuar na área médica, para gostar de ler sobre a história da medicina. E essa história tem história... Já que “de médico e louco todos temos um pouco”, não foram poucos os loucos que se arvoraram a curar as doenças da humanidade. E também foram muitos os médicos e cientistas que, ao longo do tempo, imbuídos da melhor boa vontade, cometeram, no entanto, barbaridades com seus doentes, por ignorância, preconceitos, religiosidade. Mesmo com a perda de inúmeras vidas, não é possível levar a sério, sem um tanto de humor, ironia e até sarcasmo, certos tratamentos que se prescreveram desde os gregos até nossos dias. Nesse livro, uma série de textos que nos contam a história do hospital, ou seja, de como surgiram e como se desenvolveram esses estabelecimentos que fazem parte de nosso dia a dia, cheios de aparelhos modernos que perscrutam os corpos, realizam exames fabulosos, curam doenças que há pouco tempo seriam como sentenças de morte. Surgidos como depósitos de miseráveis, de indesejáveis e de incuráveis, na Idade Média, sob o comando de organizações religiosas, principalmente freiras, os hospitais serviram, ao longo da história, aos mais diversos interesses políticos, sociais ou religiosos, e acompanharam o desenvolvimento da medicina, que foi lento, muito lento. Conceitos simples, como assepsia, ou técnicas hoje corriqueiras, como a anestesia, são descobertas recentíssimas. Pode-se dizer que a medicina moderna – essa de cujas maravilhas nos beneficiamos – tem menos de cem anos e a maioria das técnicas e a maioria do conhecimento médico atual têm sido desenvolvidos nos últimos cinquenta anos. Diz-nos o autor, a certa altura, que o conhecimento médico dobra a cada sete anos. E preocupa-se, aliás durante todo o livro, com o preparo e atualização do corpo médico, historiando também o surgimento e o desenvolvimento da ensino da medicina, desde os famosos barbeiros-cirurgiões até as modernas escolas atreladas a hospitais de grandes recursos tecnológicos e de acolhimento dos pacientes. Concluo essa breve resenha, chamando a atenção do leitor para o fato de que o autor é professor-doutor na faculdade René Descartes, onde ensina história da medicina. Dirige o departamento de cirurgia cardiovascular e de transplantes de órgãos do Hospital Europeu Georges-Pompidou, em Paris. Por isso, toda a história que ele, com bom humor e com leveza, apesar de alguns temas pesados, nos conta tem o ponto de vista francês. Mas, o que aconteceu na França deve ter ocorrido de forma semelhante em toda a Europa e, depois, também nos demais países do ocidente. E sacia muito de nossa curiosidade sobre a história da medicina e de como surgiram organizações como Médicos sem Fronteira, ou de medicamentos como o viagra.

sábado, 4 de fevereiro de 2023

O sorriso do lagarto, João Ubaldo Ribeiro



O sorriso do lagarto, João Ubaldo Ribeiro


Um romance sobre a maldade humana. Talvez devesse dizer sobre o Mal, como os metafísicos e quejandos gostam de falar. Mas, como não acredito em categorias abstratas, como o Mal x Bem, prefiro dizer que o livro de João Ubaldo Ribeiro é um tratado da maldade humana, ou, pelo menos, uma tentativa de nos fazer ver que o ser humano tem capacidades inauditas de fazer o mal não só a si mesmo, como a todos os outros seres viventes. Assim, o autor nos relata casos de caça a pardais com requintes de crueldade, na parte inicial do livro, preparando-nos para aquilo que seria a crueldade maior: o uso de seres humanos em estranhas experiências genéticas. Toda a história se passa, em contraste com essas crueldades, na paradisíaca ilha de Itaparica, na Bahia. A história é conduzida por um biólogo que abandonou a ciência para se tornar peixeiro, João Pedrosa, que além das desconfianças sobre as crianças deformadas, cujas fotos borradas são destruídas pelo médico responsável pelas tais pesquisas genéticas, consegue superar sua proverbial timidez para manter um tórrido romance com a mulher do capitalista do povoado, o que levar a consequências trágicas, claro. Há personagens interessantes, como um misterioso curandeiro, que foi o primeiro a descobrir as mutações e a tentar protegê-las e denunciá-las. E também o padre que tem crises de consciência em relação ao romance de seu amigo peixeiro com uma mulher casada, sem, no entanto, se envolver como devia no caso das crianças mutantes, por puro preconceito contra o denunciante, o tal curandeiro. Mas tudo fica sem solução, ao final, pois os prováveis responsáveis pelas experiências inescrupulosas conseguem abafar o caso e destruir todas as provas. Paro por aqui, nesta breve resenha, para não precisar aprofundar na análise do romance, já que não é esse o intuito desse blog. Acrescento apenas que esse livro serviu de inspiração para o roteiro de uma minissérie bastante prestigiosa da Globo, em 1991, escrita por Walther Negrão e Geraldo Carneiro, com direção de Roberto Talma.