domingo, 18 de fevereiro de 2024

A pediatra, Andréa del Fuego

 

A pediatra, Andréa del Fuego


Narrado em primeira pessoa por Cecília, ou melhor, pela doutora Cecília, uma pediatra neonatologista, o romance narra o dia a dia desta mulher no consultório, no hospital onde acompanha as parturientes e presta os primeiros atendimentos aos bebês etc. E neste etecétera cabem muitos outros detalhes, dentre os quais vamos descobrindo aos poucos que ela não gosta de crianças, o que é bastante peculiar. Depreendemos que fez pediatria motivada ou incentivada pelo pai, também pediatra. Mas, há mais coisas: logo no começo do livro, ela dá um fim na relação com o marido e, agora solteira, toma como amante um homem casado que mora em Santa Catarina, mas vem a São Paulo de vez em quando, o que lhe é bastante conveniente. No entanto, esse amante se muda com a mulher, grávida, para praticamente a mesma rua de Cecília. E a situação começa a se complicar pouco a pouco, entre as narrativas do dia a dia: ela assiste o parto da mulher do amante e presta os primeiros atendimentos ao filho do casal, o Bruno, chamado a partir daí de Bruninho. Quando, um dia, o pai leva o menino à casa de Cecília, ela, que não gosta de crianças, desenvolve uma paixão obsessiva pelo menino. E é essa paixão o núcleo da história. Ela se torna cada vez mais obcecada pelo menino e vamos acompanhando todo o desenvolvimento do processo dessa espécie de loucura, que a enreda numa trama que mistura suas encrencas com a empregada que está grávida do marido da irmã, em que vislumbramos uma família estranha, com suas dificuldades em lidar com um novo colega pediatra neonatologista que tem práticas naturais e defende o parto em casa, com a presença de doulas, coisa que Cecília não consegue admitir. Enfim, nos enredamos com ela na trama até o desfecho final, que parece óbvio, mas não é. Mas, para você, leitor ou leitora dessas linhas, descobrir por quê, só mesmo lendo esse romance muito bem urdido por essa escritora paulistana, Andréa Fátima dos Santos, ou Andréa del Fuego, que não à toa tem fogo no nome artístico.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

A bibliotecária dos livros queimados, Brianna Labuskes

 

A bibliotecária dos livros queimados, Brianna Labuskes


Num dia qualquer de maio de 1933, numa praça de Berlim, um grupo de estudantes, inspirados pela propaganda nazista, faz uma grande fogueira, alimentada por... milhares de livros! E muitos cidadãos alemães deram fim às suas bibliotecas, porque também continham obras que eram contrárias à ideologia do partido nazista no poder. Em 1944, nos Estados Unidos, uma organização que envia livros de bolso aos soldados no front da segunda guerra, a Council of Books In Wartime, luta contra uma emenda de um senador que deseja estabelecer censura a esses livros. Esses são dois fatos históricos. A partir deles e de outros detalhes verdadeiros, Brianna Labuskes cria sua ficção histórica. Três mulheres têm suas vidas modificadas para sempre, ao se entrelaçarem. A escritora estadunidense Althea James é convidada por Joseph Goebbels para um intercâmbio cultural em Berlim, em 1933. Iludida pelo discurso nazista, encanta-se com o regime hitlerista. Mas, conhece Hannah Brecht, uma fascinante ativista antifascista, que lhe mostra a verdadeira face do regime. Entre elas estabelece-se uma ligação que vai além da amizade, ligação pontuada por amor, desejo, admiração, traição, ódio e separação. Na Nova Iorque de 1944, a publicitária Vivian Childs busca reunir todas as forças possíveis, desde a opinião pública até políticos e pessoas de prestígio, para impedir a censura aos livros enviados aos soldados. Sem conhecer a vida das duas mulheres e sem saber que se conheciam, Athea e Hannah são por ela reunidas num evento destinado a convencer o senador de suas ideias absurdas. E então, depois de muitos anos, as duas mulheres vão conseguir acertar as contas do passado complexo e doloroso por que passaram na Berlim da década de 30. Não é um livro “fácil”, ou seja, exige do leitor uma atenção que é mais ou menos normal quando a obra tem uma estrutura de alternar datas e locais diferentes a cada capítulo. Mas, não é só isso: a narrativa e os diálogos mais sugerem do que detalham muitos dos acontecimentos, que só vão fazendo sentido aos poucos, desvendando ao leitor um mundo fantástico e inspirador de amor aos livros e do poder da literatura de mudar vidas humanas. Uma ficção histórica é isto: a partir de fiapos de realidade, constrói-se um mundo fascinante que ilumina a própria História e nos leva a imaginar como teria sido diferente a realidade, se os fatos tivessem ocorrido como o escritor nos conta. Poderiam ser assim tão cruéis? Ou poderiam ter um final feliz, como nos sugere a ficção? Não importa: sentimo-nos mais humanos, quando chegamos à última linha de um livro como este e tantos outros que nos envolvem com suas histórias inspiradas ou baseadas em “fatos reais”, interpretadas pela imaginação e pela visão de mundo do escritor ou escritora. Haja vista o extraordinário “Um defeito de cor”, já comentado neste blog.

domingo, 4 de fevereiro de 2024

A arte de produzir efeito sem causa, Lourenço Mutarelli

 A arte de produzir efeito sem causa, Lourenço Mutarelli



Traído pela mulher de uma forma pouco usual, sem emprego, sem perspectivas, Júnior volta para o apartamento do pai. Obrigado a dormir no sofá da sala, porque o seu antigo quarto está alugado para uma estudante de artes, Bruna, passa seus dias de ócio em conversas com um apontador do jogo de bicho e bebendo, tanto em casa como nos bares da redondeza. Começa a receber pelo correio pacotes anônimos com cds que não abrem e trechos de reportagens que envolvem o escritor William Burroughs, em forma cifrada, sendo uma delas sobre um episódio em que o escritor matou a mulher acidentalmente. Passa os dias dormindo e vasculhando o quarto do pai e da hóspede, chegando mesmo a descobrir um esconderijo de dinheiro da garota e, como estava sem dinheiro até para o cigarro, furta-lhe uma nota de cinquenta reais. Encontra numa gaveta do pai um revólver embrulhado num feltro. Convive com as saídas paternas para o namoro com uma vizinha, que ele nunca chega a conhecer, e vai mergulhando pouco a pouco na solidão e na loucura, até o desfecho final. O estilo do autor é quase telegráfico, com frases curtas e incisivas, levando o leitor ao abismo mental da personagem sem concessões, nem meias palavras. Sem dúvida, um romance forte, em sua temática, aberto em sua proposta de deixar ao leitor várias pontas soltas e a imaginar o que realmente levou aquele homem de pouco mais quarenta anos a ultrapassar seus limites humanos e mergulhar na loucura. Uma metáfora de nossos dias? Talvez. Que cada um tire suas conclusões.


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Os anos, Annie Ernaux



Os anos, Annie Ernaux



Uma autobiografia em terceira pessoa! Esse o feito extraordinário dessa que é uma das principais escritoras da França, atualmente. Aos 84 anos (nasceu em 1940), Annie Ernaux empreende uma narrativa em terceira pessoa, a partir de lembranças de sua infância no pós-guerra até o século XXI, mesclando elementos de sua vida pessoal (sempre usando o pronome “ela”), apenas, muitas vezes, sutilmente referidos, com os acontecimentos desses anos todos. Aliás, mais do que acontecimentos, fatos, pessoas, há sempre a visão pessoal da escritora, em comentários sagazes, numa escrita de estilo confessional, mas com uma alta carga de lucidez e de ironia na dose certa, sem comiseração. É claro que quase todos os fatos e quase todas as pessoas a que ela se refere aconteceram na França ou são franceses. Há muitas personalidades de época totalmente desconhecidas para nós. Há acontecimentos de que pouco ou nada ouvimos falar. No entanto, o leitor brasileiro não precisa correr atrás de cada referência: basta acompanhar a narrativa e, quando ela citar, por exemplo, uma personalidade da televisão francesa dos anos 60, basta pensar que poderia ser uma personalidade de nossa televisão mais ou menos da mesma época. Isso porque a história que ela conta é a história de todos nós que nascemos nos anos 40 ou início dos 50: tudo ou quase tudo que ocorreu na Europa, também ocorreu por aqui. É claro que a nossa penúria de pós-guerra não foi exatamente igual à penúria do povo francês, lembrada e contada pelos pais e avós da autora, mas tivemos, sim, também anos de muitas dificuldades econômicas e sociais. Por outro lado, se os franceses tiveram seus momentos de glória, com a eleição de presidentes da esquerda, também nós tivemos momentos de delírio cívico com, por exemplo, a campanha das diretas. Também a era das mudanças sociais, dos novos costumes e, principalmente, a mudança de hábito no consumo, inaugurando a era do consumismo, através do estabelecimento de novas relações entre consumidores e empresas, com o surgimento paulatino de milhares e milhares de produtos devidamente empacotados e dispostos em gôndolas assépticas de supermercados e shopping centers, o mesmo ocorreu aqui na terrinha. E todas essas mudanças repercutiram na música, nas artes, na moda, na linguagem etc. Vivemos e vivenciamos tudo isso. Acompanhamos as guerras, mesmo as que não nos diziam respeito, como algumas em que os franceses se envolveram, como a questão da libertação da Argélia. Assustamo-nos tanto quanto eles quando as famigeradas torres gêmeas de Nova Iorque vieram abaixo. Enfim, mesmo que não possamos falar de mudança de mentalidade, a segunda metade do século XX e os primeiros anos do século XXI constituem um tempo de grandes transformações na capacidade de percepção do ser humano sobre si mesmo. E essas transformações, que a autora tão bem nos leva a recordar, quase que detalhadamente, continuam, porque, como dizia a bela canção de Cazuza, “o tempo não para”. Então, leitor ou leitora dessas linhas, se quer um bom motivo para entender nosso tempo, mergulhe com prazer nas páginas dessa “autobiografia em terceira pessoa”, mesmo que você não tenha, como o autor destas linhas, vivido esses anos todos do pós-guerra e acompanhado ao vivo e em cores tudo por que passou esse nosso mundo, até chegar ao ponto de que precisamos, hoje, com urgência, frear o consumo, precisamos frear a ganância, para nos salvarmos do aquecimento global, de que a Annie Ernoux não chega a falar, mas que, com certeza, tem muito a dizer (se ainda não o disse, do alto de seus 84 anos).

sábado, 27 de janeiro de 2024

1968: o ano que não terminou, Zuenir Ventura



1968: o ano que não terminou, Zuenir Ventura



Não é um livro de história, mas uma longa crônica dos acontecimentos ocorridos no Brasil, no ano que a ditadura militar, através do milico de plantão no Alvorada, o marechal Arthur da Costa e Silva, decretou o famigerado Ato Institucional nº 5, o AI-5. Uma narrativa minuciosa, de alguém que foi testemunha dos fatos e, depois, vítima também do ato discricionário. Citam-se os principais acontecimentos, detalhadamente, com os nomes de todos os participantes ou, pelo menos, dos principais: gente da alta sociedade carioca, jornalistas, políticos, estudantes, escritores, compositores, artistas do teatro e da televisão, cantores, advogados etc. O ano começa com uma festa de réveillon na casa de Luís Buarque de Hollanda e sua mulher, a professora Heloísa Buarque de Holanda (um de seus livros, “26 poetas hoje”, já aqui mesmo comentamos). Foi uma festa de arromba, uma espécie de “baile da Ilha Fiscal”, o famoso baile que antecedeu a queda da monarquia. Por isso, emblemático: a queda da democracia, ou melhor, do que restava dela, não ocorreu imediatamente, como naqueles idos do Império, mas ao longo de todo o ano de 1968, quando a sociedade brasileira viu surgir para valer a incipiente oposição ao governo militar. No livro, estão relatados os preparativos, as motivações, as disputas e divergências internas da esquerda para as famosas passeatas que tomaram conta de várias capitais, principalmente do Rio de Janeiro e São Paulo. Ao mesmo tempo que os estudantes lideravam esse movimento de oposição, com o apoio das classes artísticas e de alguns políticos e pessoas influentes da época, a repressão também se articulava para uma contraofensiva que se mostrou muito além do que se podia esperar, uma reação muitos pontos acima da ação de oposição que esses grupos podiam articular contra o governo. Estão relatados, por exemplo, acontecimentos emblemáticos, como a morte do estudante Edson Luís, na invasão do restaurante estudantil Calabouço, no Rio; a morte de outro estudante, mais tarde, em São Paulo, na destruição da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da USP, pelos estudantes do Mackenzie que formavam o CCC – Comando de Caça aos Comunistas; a prisão de centenas de estudantes no famoso XXX Congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes) em Ibiúna, no interior de São; a depredação de teatros onde se levava a peça “Roda Viva” e o espancamento aos atores e atrizes que dela participavam, no Rio, em São Paulo e em Porto Alegre; o famoso discurso do deputado Moreira Alves, no Congresso, em Brasília, quando ele sugeriu, de forma até mesmo meio zombeteira e incosequente, baseado na greve de sexo das mulheres de Atenas, na peça Lisístrata (a que ele assistira), que a jovens brasileiras evitassem namorar oficiais do Exército etc. etc. etc. E foi esse discurso – uma bobagem, afinal – que irritou o oficialato e serviu de pretexto para AI-5, em 13 de dezembro de 1968, decretando o fechamento total do regime, com a prisão imediata de centenas de cidadãos e, mais adiante, com a tortura e morte de centenas de outros, opositores reais ou inventados da ditadura, numa das páginas mais negras da História do Brasil. Quando se leem os documentos e os depoimentos da época – e há um vasto material documental – não conseguimos, hoje, imaginar que “eles” foram capazes de promover tanta dor, tanta morte, tanta tortura, tanto desalento contra o próprio povo. E mais: se ligamos esse 13 de dezembro de 1968, uma aziaga sexta-feira, ao domingo 8 de janeiro de 2023, quando um bando de golpistas que estavam acampados em frente a um quartel, em Brasília marcharam contra os palácios do poder da República, depredando-os e pedindo a volta dos militares, desses mesmos militares que prenderam, torturaram, mataram centenas de concidadãos, pelo simples motivo de que não concordavam com o governo ditatorial, eu, pelo menos, passo a descrer na capacidade humana de compreensão da realidade e passo a acreditar que reina hoje, no Brasil – e no mundo – uma névoa de estupidez tão absurda, que não permite que tantas pessoas vejam no nazifascismo das ditaduras de direita o mal, se não absoluto, mas o mal mais poderoso e canalha que o um governo pode fazer contra seu povo ou contra qualquer povo. Por isso, conclamo: divulguem a literatura de narrativas dessa época, da época negra do regime militar. Quem sabe, um fósforo seja aceso na escuridão dessas mentes corroídas e corrompidas!

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

26 poetas hoje, Heloísa Buarque de Hollanda (Heloísa Teixeira)

 

26 poetas hoje, Heloísa Buarque de Hollanda (Heloísa Teixeira)


Heloísa Buarque de Hollanda não tem nenhum parentesco com a família de Chico Buarque. Esse sobrenome é de seu primeiro marido e, ao tomar posse na ABL, em 2023, Heloísa declarou que passaria a adotar o Teixeira, de origem materna. Dito isso, vamos à antologia 26 POETAS HOJE. Primeiro, esclareçamos que esse “hoje” refere-se a 1975, ano da publicação da primeira edição do livro. Também precisa ficar claro que, entre os 26 poetas escolhidos, não há nenhum “medalhão” da poesia brasileira, mesmo da época, mas são todos jovens na faixa de mais ou menos 30 anos e constituem o que se convencionou chamar de “poesia marginal” (aliás, um péssimo nome). Lembremos que estávamos naquele momento sob um regime militar que censurava e perseguia os artistas, principalmente da música popular e do teatro. Não tenho notícia de que esses poetas “marginais” tivessem sido censurados, já que publicavam seus livros com autofinanciamento e os vendiam em bares e portas de cinemas e teatros. No entanto, notamos em muitos de seus poemas – cuja temática era quase sempre social ou episódica – uma certa autocensura, principalmente porque usavam uma linguagem metafórica e enigmática, às vezes de entendimento um tanto difícil, a uma leitura rápida e superficial. Seguem uma estética de versos livres e de poemas-piada, na “tradição” dos poetas modernistas de 22, radicalizando, no entanto, o conceito de liberdade no uso do coloquial e, às vezes, no abuso do palavrão que, à época, devia chocar ouvidos mais sensíveis. Mesmo quando aparece – e não são muitos os poemas desse tipo – a poesia dita confessional, ou amorosa, perseguem uma linguagem mais crua e direta, sem muitas concessões ao lirismo. Numa edição de 1995, a própria organizadora da antologia, num prefácio bastante crítico, levanta alguns problemas relacionados tanto a essa estética quanto a um possível “envelhecimento” desses textos. Dentre os poetas compilados, vários deles se tornaram conhecidos e são, hoje, nomes bastante festejados da nossa literatura. Concluindo, podemos dizer que os poemas desse livro constituem uma forma de poesia desabrida, sem quaisquer freios ou regras, talvez datada, mas que ainda pode ser lida com o prazer da descoberta de uma estética que se estende desde aqueles tempos até os dias de hoje, mantendo-se todos os devidos cuidados quanto às diferenças sociais, políticas, econômicas etc. ocorridas nesses quase 50 anos da publicação desse livro que – não posso me furtar a dizer – li com muito prazer.


PS:

Participantes da antologia: Francisco Alvim, Zuca Saldanha, Antonio Carlos de Brito (Cacaso), Roberto Piva, Torquato Neto, José Carlos Capinan, Roberto Schwarz, Zulmira Ribeiro Tavares, Afonso Henriques Neto, Vera Pedrosa, Antonio Carlos Secchin, Flávio Aguiar, Ana Cristina Cesar, Geraldo Eduardo Carneiro, João Carlos Pádua, Luiz Olavo Fontes, Eudoro Augusto, Waly Sailormoon (Waly Salomão), Ricardo G. Ramos, Leomar Fróes, Isabel Câmara, Chacal, Charles, Bernardo Vilhena, Leila Miccolis e Adauto de Souza Santos.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

O idiota, Fiódor Dostoiévski

 

O idiota, Fiódor Dostoiévski


Em meados do século XIX, o príncipe Liév Nikoláievitch Míchkin, aos 26 anos, retorna à terra natal, São Petersburgo, após passar muitos anos na Suíça, a tratar de sua epilepsia. Seu objetivo é reencontrar parentes distantes. Já na viagem de volta, no trem, conhece Parfión Rogójin, que será no decorrer da história uma espécie de amigo fraterno e rival no amor por uma dama belíssima, conhecida por sua vida não muito regular, chamada Nastássia Filíppovna. Mas o romance com essa mulher dura pouco e o príncipe propõe casamento a uma das filhas de sua parenta distante, a ciumenta, esquiva e temperamental Aglaia. Nada, porém, dá certo na vida do príncipe, envolto em tramas e uma multidão de personagens que participam de sua vida e lhe dão orientações, conselhos ou tentam compreender suas palavras às vezes desconexas, suas atitudes “fora da curva”. A narrativa das aventuras e desventuras do príncipe é lenta e detalhada, retratando com precisão cirúrgica a sociedade da época. Mas, o mais importante: o jeito alheado e simplório do príncipe, que praticamente nada estudou, leva a que todos o tomem por idiota, embora sua visão de mundo seja de uma pureza quixotesca, exsudando bondade e humildade. Não tem a maldade nem a malícia da complexa sociedade em que vive, e é esse o objetivo de Dostoiévski: o conhecimento da psicologia e a compreensão mais profunda do ser humano, ao contrapor seu anti-herói “positivamente bom” a uma sociedade de valores rígidos e materialista. Acompanhamos passo a passo e de forma sutil a deterioração da mente de Míchkin, até o seu trágico fim. Até onde vai a loucura e onde começa a “santidade” da personagem, é a pergunta que se faz o leitor. Não é um livro simples ou fácil de ler, porque longo e meio caótico na sua narrativa, o que é uma das características de Dostoiévski, mas, sem dúvida, um mergulho nas águas mais profundas da psique humana e na busca da compreensão do ser humano, através da ficção.