terça-feira, 10 de maio de 2022

As aventuras de Alice no país das maravilhas e Através do espelho, Lewis Carrol

 As aventuras de Alice no país das maravilhas e Através do espelho, Lewis Carrol


Os dois livros emblemáticos de Lewis Carrol tiveram tantos comentários, tantos textos publicados (e lidos), tantos filmes neles baseados, que o interesse na sua leitura se dissipou – as histórias eram conhecidas demais. Então, um dia, me interessei um pouco pela vida do autor: “descobri” que ele era apaixonado por meninas e odiava meninos, algo mais ou menos óbvio em suas biografias que, por sinal, quase sempre deixavam no ar a ideia de que ele tinha tendências pedófilas, para dizer o mínimo. No entanto, essas mesmas biografias nunca conseguiram provar nada contra Carrol. Ficava o estranhamento. E afirmava-se que Alice Riddell, sua preferida entre dezenas de garotinhas com quem ele se correspondia, de quem ele se aproximava, com quem ele passeava (com as devidas autorizações paternas) e para quem ele inventava centenas de jogos, Alice era a sua paixão recolhida, afirmando mesmo alguns biógrafos que seu rompimento com a família da garota deveu-se a uma possível intenção de casamento futuro com ela. Também me chamou a atenção o fato de que Lewis adorava retratar suas amiguinhas, muitas vezes nuas (com o consentimento dos pais!), tendo ficado um grande acervo dessas fotografias, menos as de nudez, que a família (dele) preferiu destruir, para não alimentar talvez os boatos sobre as tendências sexuais do autor (diz-se que restaram apenas quatro). Mas o que me levou a ler a obra de Lewis foi uma notícia publicada na Inglaterra, com pouca repercussão internacional: Carrol era realmente apaixonado não pela garota Alice, mas por sua mãe, esposa do amigo muito próximo. E que o tal rompimento ocorreu quando o casal descobriu essa paixão. Assim, se verdadeira (e parece que é), desfaz-se o mito da Alice-paixão, e praticamente todas as teorias psicanalíticas (que exploraram à exaustão a paixão do autor por menininhas e, em especial, por Alice) caíram por terra. Restou o autor com seu estranho gosto de preferir a companhia de garotinhas. Mito desfeito, procurei ler os seus dois livros, agora com o olhar de quem gosta e vive da boa literatura, embora tenha já há muito ultrapassado a idade de apreciar leituras voltadas para o público infantil e juvenil e, fechando ainda mais o leque, para menininhas pré-adolescentes. Mesmo assim consegui me divertir com os dois livros: o non sense levado ao extremo, com centenas de jogos de palavras e de piadas relacionadas todas elas aos jogos que o autor inventava para divertir suas amiguinhas, além de muitas e muitas referências a situações de sua convivência com elas e de muitas brincadeiras com poemas de dezenas de autores e com situações da época, século XIX, que, na Inglaterra vitoriana ganha aspectos diferenciadores, na linguagem, nos costumes, nas artes, no vestuário, na vida cotidiana enfim. “O país das maravilhas” é recheado de símbolos que fazem a delícia dos psicólogos e “através do espelho”, a delícia de quem gosta de jogos, principalmente de xadrez, e ambos fazem a delícia de quem aprecia uma boa história recheada de citações literárias, de trocadilhos, de metáforas, de referências filosóficas e de jogos de palavras, além do próprio enredo mirabolante de ambos os livros. Enfim, são obras complexas para as garotinhas de hoje, que talvez só apreciem mesmo o enredo mirabolante, sem as inúmeras implicações subentendidas. Finalizo meu comentário (que já se alongou além do necessário) com o fato de que a edição que eu li (e que traz ambos os livros e mais um capítulo do “país das maravilhas” descartado pelo autor) encerra centenas de notas explicativas e detalhadas de cada uma das passagens dos dois livros, além das ilustrações de John Tenniel, elaboradas segundo recomendações do autor. Devo confessar, finalmente, que, embora tenha apreciado a leitura de ambos os livros, acabei me divertindo mais com os detalhes saborosos das notas explicativas do que exatamente com as aventuras de Alice no seu país das maravilhas e do que ela encontrou atrás do espelho.


sábado, 7 de maio de 2022

A Escola dos Annales: A Revolução Francesa da Historiografia 1929-1989, Peter Burke

 A Escola dos Annales: A Revolução Francesa da Historiografia 1929-1989, Peter Burke



Um livro para historiadores que qualquer pessoa minimamente interessada em história pode ler com prazer. Afinal, trata-se do conhecimento e da trajetória de uma revista que virou escola e que realmente revolucionou os estudos historiográficos a partir do segundo terço do século XX até nossos dias. Defendiam seus articulistas uma visão do passado que fosse além dos eventos, dos fatos que narravam apenas feitos de governantes, militares etc., e incorporasse, dentro de uma perspectiva de determinado tempo, seja curto ou longo, todas as circunstâncias ao redor desse tempo e desses eventos, incluindo os cidadãos comuns e as mentalidades da época. Para isso, o historiador devia lançar mão não só dos testemunhos/documentos da historiografia, mas incorporar conhecimentos de outras áreas, como a psicologia, a geografia, a economia, a estatística etc. Daí terem nascido obras que passam longe da narrativa tradicional, mas que iluminam determinados períodos através correntes como micro história e a história das mentalidades. O livro faz um levantamento de todos os participantes, desde os criadores dos Annales, suas obras mais importantes e sua linha de pesquisa, traçando um panorama da historiografia desses desbravadores entre 1929 e 1989. Deles, há reflexos até nossos dias, claro, com muitos historiadores refazendo as trilhas abertas pelos Annales, aprofundando suas teorias ou, até mesmo, contestando algumas delas, mas sem deixar de se referir com respeito a essa Escola que teve no Brasil, através das aulas de Braudel e de Lévi-Strauss (que aqui estiveram, lecionando na USP, no século passado), seguidores como Gilberto Freire.


quarta-feira, 4 de maio de 2022

Apologia da história ou o ofício do historiador, Marc Bloch

 Apologia da história ou o ofício do historiador, Marc Bloch



Para que serve a história? É a pergunta de um filho que Marc Bloch procura responder neste livro. E a partir de uma de suas maiores convicções, a de que o historiador tem a obrigação de difundir e esclarecer, sabendo falar ao mesmo tempo aos doutores e aos estudantes, ele desenvolve sua tese de que é preciso conhecer o passado para iluminar o presente. E mais: que o historiador tem como matéria o homem (no sentido amplo do termo) colocado no tempo e que o passado não é algo estático, mas em construção, em função de novas metodologias para interpretá-lo. Diz claramente: “A própria noção segundo a qual o passado enquanto tal possa ser objeto de ciência é absurda.” Seu objeto é “o homem”, ou melhor, “os homens”, “os homens no tempo”. Os testemunhos – documentos – do passado precisam ser lidos e interpretados e a função do historiador é saber fazer as perguntas certas a esses documentos, dentro de uma metodologia que inclui perceber que esses testemunhos mentem muitas vezes, mas mesmo a mentira contada neles pode ser tão ou mais útil para o entendimento de seu tempo histórico do que até mesmo quando são verdadeiros. E deve ainda mais o historiador recorrer a múltiplas fontes, a múltiplas técnicas e a muitos outros conhecimentos que o possam auxiliar na tarefa de interpretar o passado e não julgar o passado, como muitos historiados fazem. Também é objeto de preocupação para o historiador o fato de que a história, mesmo tratada como uma ciência, não conseguiu desenvolver um vocabulário específico como as outras ciências. O historiador precisa, portanto, dispor de habilidade para, ao tratar de coisas e acontecimentos do passado, não usar um vocabulário que não lhe seja adequado evitando o anacronismo. Critica a divisão da história em períodos relacionados a “hegemonias de natureza diplomática e militar” e lembra que Voltaire já havia protestado que “... de 1400 anos para cá, não houve nas Gálias senão reis, ministros e generais”, abrindo novas perspectivas para o que veio a se denominar posteriormente de micro-história. Enfim, neste pequeno volume, o autor destrói mitos e aponta caminhos para um olhar absolutamente revolucionário nos estudos históricos. Isso, para um livro escrito numa situação de total falta de condições de consulta a fontes, apenas usando sua prodigiosa memória, quando foi preso e depois executado pelos nazistas em 16 de junho de 1944, deixando sua obra inacabada. Para os historiadores de hoje, um livro de cabeceira; para nós, leigos, mas que gostamos e precisamos de entender o presente e, principalmente, nós que temos a certeza de que só podemos compreender o nosso tempo se tivermos noção clara do passado, um precioso livro de reflexão e de abertura para outras leituras. Por isso, termino essa resenha com uma de suas tantas e inúmeras frases lapidares, pinçada desse livro fabuloso: “A incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado.”


domingo, 1 de maio de 2022

44 cartas do mundo líquido, Zygmunt Bauman

 44 cartas do mundo líquido, Zygmunt Bauman



“O mundo que chamo de “líquido” porque, como todos os líquidos, ele jamais se imobiliza nem conserva sua forma por muito tempo. Tudo ou quase tudo em nosso mundo está sempre em mudança: as modas que seguimos e os objetos que despertam nossa atenção (uma atenção, aliás, em constante mudança de foco, que hoje se afasta das coisas e dos acontecimentos que nos atraíam ontem, que amanhã se distanciará das coisas e acontecimentos que nos instigam hoje); as coisas que sonhamos e que tememos, aquelas que desejamos e odiamos, as que nos enchem de esperanças e as que nos enchem de aflição.” – Assim Zygmunt Bauman conceitua o que ele chama de “mundo líquido”. E é sobre esse mundo, moderno, confuso, complexo, instável, que suas 44 “cartas”, escritas no final da primeira década deste século, traçam considerações e tiram lições. Os assuntos são os mais variados: desde sexo virtual até a capacidade humana de cometer maldades. Nada escapa à pena arguta do sociólogo polonês radicado na Inglaterra, falecido em 2017, aos 92 anos. Infelizmente, não sobreviveu para escrever sobre os anos da pandemia, nem sobre essa estúpida guerra da Rússia contra a Ucrânia, neste 2022. Seu mundo líquido continua cada vez mais instável, mais confuso, mais complexo. Pode-se discordar de algumas das suas colocações e proposições, mas não é possível que elas não o façam pensar e buscar entender uma época que escapa a qualquer entendimento. Por isso, com certeza, ainda lemos e nos arrepiamos com suas análises, com suas, às vezes, visões e diatribes não muito elogiosas sobre o nosso tempo. Se vivemos no mundo da internet, das fake news e da enxurrada de informações que inundam nosso dia a dia, é preciso parar um pouco e ler com calma e tranquilidade as ponderações de alguns pensadores do nosso tempo, para recarregarmos as baterias e não sermos engolfados pela “loucura e insensatez de tempos tão intensos”, o nosso momento no rio da História, e imaginar o que iremos deixar para o futuro, se futuro houver.

quinta-feira, 28 de abril de 2022

Adeus, Gana, Taiye Selasi

 Adeus, Gana, Taiye Selasi


A autora nasceu na Inglaterra, estudou nos Estados Unidos e é descendente de pais nigerianos e ganenses. A história que ela conta neste livro passa, portanto, por esses três países. Kweku Sai, renomado cirurgião formado nos Estados Unidos e pai de quatro filhos – os gêmeos Taiwo e Kehinde, Olu e Sadie – morre em Acra, capital de Gana, para onde se exilou, depois de uma denúncia absurda de erro médico. A família, abandonada por ele anos atrás, se reúne para as exéquias. É o pretexto para a autora compor um mosaico dessa família meio disfuncional, mas autêntica, suas vidas e seus dramas particulares, numa prosa ao mesmo tempo envolvente e lírica, costurando com maestria a narrativa entre diferentes tempos e lugares, mudando o foco narrativo e não deixando de nos abrir todas as vicissitudes e todas as feridas escondidas em cada uma das personagens. Não é um romance para se ler distraidamente; sua prosa nos suga para um redemoinho de sentimentos, de fatos, de descrições que tornam a leitura um delicioso desafio que não permite nenhum respiro: temos que acompanhar com atenção e um misto de prazer e espanto cada detalhe, cada desejo reprimido, cada pensamento das personagens até o desfecho final. Lembra, um pouco, a prosa de nossa querida Clarice Lispector: metafórica, cheia de claros e escuros, em novelos dramáticos que vão pouco a pouco nos levando para o vórtice, para o entendimento de pequenas atitudes e suas motivações. Sem dúvida, um grande romance, dentro das características do que podemos chamar romance moderno.


segunda-feira, 25 de abril de 2022

A educação sentimental: história de um jovem, Gustave Flaubert

 A educação sentimental: história de um jovem, Gustave Flaubert


Em 1830, os franceses expulsaram a dinastia Bourbon do poder e Luís Filipe de Orléans assumiu o poder, ampliou a participação do Legislativo, proibiu a censura aos meios de comunicação e separou Igreja e Estado. Essas medidas, no entanto, não impediram uma grande oposição a seu governo, com republicanos, socialistas e bonapartistas se aproveitando do fim da censura para realizarem banquetes públicos, para discutiram a ampliação das reformas. O ministro Guizot decretou a ilegalidade dessas manifestações e o governo resolveu endurecer, o que gerou o estopim para o movimento popular de 1948, que culminou com a demissão do rei para a Inglaterra. A França se transforma em uma república, instalam-se o sufrágio universal e a pena de morte. Mas há uma forte reação dos conservadores, no que resultou a formação de uma Assembleia Constituinte de natureza moderada. Esse o cenário da história de amor do provinciano Frédéric, detalhada longamente por Flaubert. Apaixonado perdidamente por uma mulher casada, a quem nunca logrou possuir, navega pela alta burguesia parisiense, tentando obter os luxos e as riquezas ostentadas por essa sociedade, só conseguindo, no entanto, algum poder aquisitivo através de uma herança inesperada, o que o leva a desperdiçar sua vida entre alguns amores fracassados e sua irremediável paixão por essa mulher. As muitas e interessantes personagens que cruzam a trajetória do jovem e o cadinho revolucionário que ferve em torno dele levam o autor a traçar um painel de grande sensibilidade humana e de detalhismo histórico que justificam a colocação do romance de Flaubert entre os grandes clássicos da literatura do século XIX, até hoje passível de ser lido com imenso prazer.


sexta-feira, 22 de abril de 2022

Mulherzinhas, Louisa May Alcott

 Mulherzinhas, Louisa May Alcott



No primeiro volume da “Série Napolitana” – A Amiga Genial –, Elena Ferrante nos conta o seguinte episódio: Lila e Elena jogam no porão, num vão da calçada, as bonecas uma da outra. É a casa do temível Don Achille. Num surto de coragem, resolvem resgatar as bonecas e, como não as encontram no porão, sobem as escadas do sobrado, tocam a campainha da casa do “monstro” e o encaram, pedindo que lhes devolva as bonecas. Don Achille murmura algo como “deve ter sido meu filho caçula que pegou suas bonecas”, mas resolve lhes dar algum dinheiro para que comprem outras. No entanto, já na rua, decidem comprar um novo exemplar do livro “Mulherzinhas”, que o antigo já está todo desgastado pela leitura constante. Esse foi gatilho para que eu resolvesse ler o tal romance, publicado em 1868 e até há bem pouco tempo leitura quase obrigatória das moças adolescentes, conforme o relato da escritora italiana. A história se passa numa vila do interior dos Estados Unidos e começa no natal de 1960 e termina no natal de 1961. O pai das “mulherzinhas” – as quatro irmãs de 17, 16,13 e 10 anos – foi para a guerra e a família, durante esse ano, passa por várias dificuldades e aventuras, contadas detalhadamente ao longo da longa narrativa. Não vou resumir o enredo ou me referir a essas dificuldade ou aventuras, porque, além de serem muitas, há nelas um único objetivo: reforçar a ideia de que as jovens devem ser preparadas para um futuro casamento. E mais: que só o trabalho e a esperança forjam temperamentos (principalmente os femininos) para a vida adulta, num lar constituído com amor e dedicação total ao marido. São, portanto, o suprassumo da defesa dos valores conservadores da família e do cristianismo. A lição fundamental de toda a saga das “mulherzinhas”: devemos todos ser bons. Valores conservadores que estão na contramão de tudo por que passam as protagonistas da “Série Napolitana”, o que torna a leitura desse livro um interessante contraponto às concepções modernas do feminismo nascente nos anos 70 e 80 que povoam as páginas da escritora italiana no final do século passado. E para não dizer que não me toquei com a tradução de “Little women” para “mulherzinhas” no título em português, concluo com a observação de que o erro de português desse título não justifica o sucesso de um livro tão obsoleto, nos dias atuais, mas, cuja leitura pode servir de testemunha de uma época quando as mulheres ainda não tinham voz, embora ainda estejamos muito distantes do ideal da igualdade e do respeito que todas, absolutamente todas as mulheres, merecem. Inclusive na tradução correta do título de um livro de ideias tão conservadoras.