domingo, 3 de novembro de 2024

Se os gatos desaparecessem do mundo, Genki Kawamura

Se os gatos desaparecessem do mundo, Genki Kawamura


Quem não gosta de gatos vai achar que a história desse livro é muito emotiva, quase sentimentaloide e independe de que os gatos desapareçam ou não do mundo; quem gosta de gatos vai achar que a história desse livro é muito , quase sentimentaloide, emotiva e vai ficar torcendo para que os gatos não desapareçam do mundo. Seja qual for a sua visão em relação aos gatos, a verdade é que estamos diante de uma ficção muito bem elaborada para falar de seres humanos e suas relações complicadas. E com muita sensibilidade. Já escrevi algures que a literatura ficcional no propõe um jogo, ao começarmos a ler um conto, um romance, uma novela: se aceitamos as regras que o autor nos coloca, viajamos para uma espécie de mundo além do mundo que reflete a existência humana em todas as suas nuances e, então, sempre estaremos, mesmo que a história seja a mais surreal e fantástica, no mundo humano. O jogo que nos propõe o autor japonês é acreditarmos que o narrador, um carteiro de 30 anos, ao descobrir que tem pouco tempo de vida, encontra um demônio divertido que lhe diz que pode aumentar seu tempo de vida fazendo desaparecer do mundo alguma coisa. E o primeiro objeto que ele faz desaparecer é o telefone celular. Enquanto as coisas vão desaparecendo, ele nos fala de sua vida, da morte da mãe, dos conflitos com o pai, dos dois gatinhos que lhe trouxeram conforto em momentos cruciais da família, da primeira namorada, enfim, de tudo que passou nesses trinta anos e por que se tornou entregador de cartas. Mas, quando chega o momento em que o diabo lhe propõe fazer desaparecer os gatinhos do mundo, o narrador descobre em si mesmo mais sentimentos e dúvidas sobre a vida do que tudo o que passara até esse momento. Prepare o lenço, porque o livro emociona e nos traz reflexões bastante interessantes sobre a nossa existência e a nossa essência como seres humanos.

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Quem matou meu pai, Édouad Louis

Quem matou meu pai, Édouad Louis


Um romance curto, apenas 48 páginas, mas de grande força emotiva e confessional. O jovem autor, fenômeno da literatura francesa contemporânea, tem a pena afiada e um estilo cativante, para narrar seu acerto de contas com o pai, ao mesmo tempo que faz uma crítica social e política à direita de seu país, que tira dos pobres para dar aos ricos, que mantém, numa Europa economicamente rica, ilhas de pobreza e de exclusão. A relação com o pai, marcada pela indiferença e pela vergonha, porque no garoto já se manifesta uma sexualidade não aceita pelo preconceito social; marcada ainda por conflitos familiares oriundos do machismo; essa relação fraturada e sofrida nos comove e nos leva a refletir seriamente sobre que tipo de sociedade estamos construindo ou destruindo, através de valores arraigados que não deviam persistir, mas insistem em permanecer atormentando inúmeras vidas que não se enquadram nesses valores. Progredimos, sim, mas ainda tempos em nossa sociedade muitas e imensas ilhas de rancor, de preconceito, de racismo, de homofobia e machismo. Pequenas, mas dilacerantes obras como “Quem matou meu pai” ajudam-nos a compreender um pouco mais sobre o mundo em que vivemos e sobre o mundo em que queremos viver e deixar para nossos filhos.

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Sete monstros brasileiros, Bráulio Tavares

 Sete monstros brasileiros, Bráulio Tavares


São sete contos baseados em figuras mitológicas do folclore brasileiro, com histórias recriadas ou inspiradas livremente nesses seres que povoam nosso imaginário. Histórias assustadores, que nada têm a ver com as versões infantis ou infantilizadas desses monstros, alguns bastante conhecidos somente pela tradição oral, como o papa-figo, e outros mais famosos, como o lobisomem. São os seguintes os contos e as referências: 1. A Sétima Filha: uma mulher vira lobisomem e come seu marido; 2. Bradador: o corpo-seco ressurge do cemitério; 3. Papa-Figo: o homem que come fígados de crianças; 4. A Porca de Soledade: a porca que come sem parar e morre de fome; 5. Mortos-Vips: zumbis que perseguem jovens; 6. Expedição Monserrat: um lagarto que tem uma pedra vermelha na testa persegue jovens e rasga seus corpos; 7. Uma Gota de Sangue: mulher encanta um homem, suga sua massa encefálica e levando seu corpo para o fundo da piscina, sem derramar uma gota de sangue. Para ler num fim de semana, à luz de velas, durante um apagão...

terça-feira, 29 de outubro de 2024

As aventuras de PI, Yann Martel

 

As aventuras de PI, Yann Martel

Talvez uma das histórias mais extraordinárias que se possa ler. Ainda que a ideia central, o leitmotiv do livro, não seja original: foi baseado numa história do escritor brasileiro Moacyr Scliar, Max e os felinos”, em que um garoto alemão foge do nazismo num velho cargueiro, junto com animais do zoológico, e sobrevive a um naufrágio criminoso, ele e um jaguar. Na história do canadense Yann Martel, o garoto é Piscine Molitor Patel, Pi Patel, indiano de 16 anos, filho de um proprietário de um zoológico falido que embarca para o Canadá num cargueiro, com a família e vários animais que foram vendidos a zoológicos canadenses. No meio do Pacífico, o navio afunda. Pi é jogado num bote salva-vidas, onde encontra uma fêmea de orangotango, uma hiena, uma zebra e... um tigre-de-bengala, o “senhor” Richard Parker. O tigre mata os outros animais e ficam apenas os dois sobreviventes, e a narrativa se estende em nos contar detalhadamente todas os estratagemas do menino para sobreviver, durante os quase 250 dias em que fica à deriva, tendo por companhia um felino carnívoro de 200 quilos. A luta pela sobrevivência em ambiente inóspito é uma fábula inúmeras vezes relatada pela literatura universal, desde Homero e sua Odisseia, até (para destacarmos a literatura brasileira) Vidas secas, de Graciliano Ramos. No entanto, mesmo que a ideia central do livro não seja original, por mais insólita que a vejamos, estamos diante de uma narrativa poderosa, que nos cativa desde as primeiras páginas e nos leva a uma aventura realmente incrível. O filme de Ang Lee, de 2012, vencedor de vários Oscars, baseado no livro, é bom, mas não substitui a leitura do romance original, que traz detalhes, reflexões e sugestões impossíveis de serem levados à tela. Se você gosta de literatura de aventura, sem dúvida que as aventuras do menino Pi (cujo nome Piscine, em francês, é mesmo “piscina”, o que o levou a sofrer bullying nas escolas onde estudou) irão levá-lo às alturas da criatividade e da imaginação, numa história incrível, comovente e extraordinária.

terça-feira, 22 de outubro de 2024

As dores do mundo, Arthur Schopenhauer

As dores do mundo, Arthur Schopenhauer

Sem dúvida, todo o pessimismo do filósofo com relação ao ser humano está presente em “As dores do mundo”. Principalmente, porque se trata de uma série de reflexões muito pessoais sobre temas como o amor, a morte, a arte, a moral, a religião, a política, a sociedade e o próprio ser humano. Para ele, a existência só traz dor e expiação a todos, mas é através dessa dor que o ser humano atinge a plenitude, se consegue suportá-la e compreendê-la ou mesmo sublimá-la. Sua visão do casamento e da mulher tem todo o viés do pensamento do século XIX, quando a mulher era considerada um ser inferior intelectualmente ao homem, devendo a ele ser submissa, e isso perdura até nossos dias, o que nos leva a entender que todo o movimento feminista desencadeado principalmente a partir da segunda metade do século XX ainda tem muito a conquistar, principalmente porque é preciso mudar uma mentalidade arraigada na mente masculina, o que torna tudo mais difícil. Talvez, através da compreensão do pensamento de Schopenhauer, como toda a sua misoginia, possam as mulheres de hoje adotar estratégias que implodam na cabeça masculina a ideia de diferença entre os sexos, para que a convivência não seja tão tóxica como ainda é tóxica em pleno século XXI. Enfim, é um livro que poderia ser de leitura difícil, por tratar de temas filosóficos complexos, mas o autor tem um estilo extremamente acessível, desenvolvendo suas ideias com precisão e clareza, de tal forma que, mesmo que não concordemos inteiramente com elas, podemos tirar de suas palavras lições importantes para nosso crescimento pessoal e intelectual. Ninguém precisa ter medo de ler um filósofo como Schopenhauer, principalmente esse pequeno manual de assuntos variados e importantes.

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

Chove nos campos de Cachoeira, Dalcídio Jurandir



Chove nos campos de Cachoeira, Dalcídio Jurandir


Encantamento. Essa a palavra que me veio, ao terminar de ler “Chove nos campos de Cachoeira”, esse longo e complexo romance de Dalcídio Jurandir, com toda a sua carga de regionalismo, eivado de usos e costumes e de vocabulário da região Norte, mais especificamente, da Ilha do Marajó, na então vila de Cachoeira, onde se passa toda a ação contida nessa história de inúmeros personagens. Os principais, em torno dos quais gira todo o enredo do livro, são: Alfredo, o menino que sonha com a cidade grande, no caso Belém, onde poderia estudar e ter um futuro; Eutanázio, seu irmão mais velho, de 40 anos, sempre doentio, apaixonado por Irene, que zomba de seus sentimentos e se entrega ao namorado, engravida, é abandonada, e isso faz que o mundo real do rapaz, que já era sem sentido e sem qualquer atrativo, se desmorone, aumentando os seus males. Além de Irene, há inúmeras mulheres e homens que fazem parte do universo de Alfredo e Eutanázio: a mãe, Amélia, tratada com preconceito pela sociedade, por ser negra e dividir o leito com o Major Alberto, depois de sua viuvez; a prostituta Felícia, cujo quarto miserável é frequentado por Eutanázio e outros; Lucíola, a solteirona que se encantou com o menino Alfredo e o mimou durante toda a sua primeira infância, como um filho, o que a leva a ter conflitos com dona Amélia; Dr. Campos, juiz substituto de Cachoeira, personagem pândego, tão cristão quanto dionisíaco, tão erudito quanto vicioso na cessão aos desejos e prazeres e muitos e muitos outros. E a vila de Cachoeira, talvez a personagem mais presente em toda a narrativa, com seus campos, seu rio, suas ruas miseráveis, mas despertando a cobiça de investidores mal intencionados por verem possível lucro em suas terras inundáveis, durante o período das chuvas, no primeiro quarto do século XX, quando se passa a ação do romance. Destaco a perícia do autor em trabalhar com um universo povoado de muitas personagens, num ambiente pouco conhecido para o leitor comum, o universo de uma ilha quase mítica do Amazonas, trazendo toda a força de um gênero, o romance regionalista, numa linguagem que conserva toda a riqueza da região e ao mesmo tempo nos encanta com um lirismo raramente encontrável na literatura atual. Um livro para se degustar aos poucos, como uma cuia de tacacá bem temperado.

sexta-feira, 11 de outubro de 2024

Uma questão pessoal, Kenzaburo Oe

Uma questão pessoal, Kenzaburo Oe


Um protagonista que não tem nome, conhecido apenas por seu apelido Bird. Leciona inglês num cursinho em Tóquio e tem 27 anos. Sonha com a África, em ir para a África. Por isso, coleciona mapas da África. No entanto, sua esposa está no hospital, em trabalho de parto. Meio distante dela, tenta não retornar ao vício da bebida, enquanto aguarda o nascimento do bebê, mas não consegue. Bêbado, procura a companhia de uma ex-colega de faculdade, Michiko, uma jovem viúva, cujo marido se matou e que hoje leva uma vida livre. A ideia de paternidade mexe com a cabeça dele, Bird, porque imagina que seus sonhos naufragarão. A situação se complica quando fica sabendo que o nascituro tem uma anomalia cerebral e o menino, possivelmente, terá uma vida vegetativa. Sua angústia cresce à medida que se envolve com Michiko, a ex-colega, e à medida que peregrina pelos bares, com a ideia fixa de que deverá matar a criança. Em torno dessa obsessão, o autor nos leva aos meandros da mente de Bird, sem nenhum julgamento moral, apenas narrando o que se passa com o homem que sonhava com a África, que tinha um bom emprego (foi despedido, porque vomitou em plena aula, por estar bêbado), que nunca se imaginara pai e agora se vê preso a uma criatura que vai depender dele para o resto da vida. Seu ressentimento vai num crescendo de angústia e de tormento, inclusive para o leitor que, embora também angustiado, não consegue despregar os olhos da narrativa, mesmo que ele possa vislumbrar, de forma intuitiva, ou levado pelas próprias circunstâncias do enredo complexo e difícil, que ainda haverá esperança de que tudo isso termine de alguma forma não muito cruel. Enfim, não é um romance fácil, todavia é fascinante, pela maestria do escritor que, mesmo através de um narrador onisciente, nos transmite toda a trajetória de desalento e angústia de seu personagem. A ressaltar, para finalizar esse breve comentário, que o autor, Kenzaburo Oe, passou exatamente por uma experiência semelhante, em 1964, quando recebeu a notícia de que seu primeiro filho nascera com uma anomalia cerebral.