terça-feira, 19 de abril de 2022

História da menina perdida, Elena Ferrante

 História da menina perdida, Elena Ferrante



“Toda relação intensa entre seres humanos é cheia de armadilhas e, caso se queira que dure, é preciso aprender a desviar-se delas”. Essa frase talvez resuma a Série Napolitana, de Elena Ferrante. Está no último volume do quarteto, “A história da menina perdida”, que aborda a fase adulta das personagens centrais – Lina e Elena. Os fatos se sucedem numa catadupa de tirar o fôlego. A relação de Elena com o seu amor de infância azeda de vez, deixando-a com mais uma filha. Volta para Nápoles e ali se passam quase todos os acontecimentos de sua vida turbulenta. A cidade aparece, agora, com toda a sua complexa rede de histórias de violência e de disputas políticas e de domínio, com muitos assassinatos e drogas. Localizada à sombra do Vesúvio que há muito tempo se mantém inativo, é, no entanto, abalada por forte cismo que, mais do que destruir a cidade, parece levar à destruição interior das personagens do livro. Lila obtém grande sucesso financeiro, graças à sua empresa de informática, quando os computadores ainda estão começando a se popularizar, até que sua filha, a que ela teve com Guido (o mesmo amor de infância de Elena) desparece. E então sua vida vira um rol de desconforto e infelicidades. Enquanto isso, Elena obtém grande sucesso com seus livros, torna-se uma escritora requisitada pela mídia e viaja muito. A trajetória de ambas – Lila e Elena – se entrelaça de forma quase oposta, mas sempre numa relação tensa de subalternidade de Elena em relação a Lina, a amiga genial que não cumpre, no entanto, as promessas de seu talento, enquanto ela, Elena, mantém uma vida de estudos e publicações. As armadilhas entre ambas são duramente ultrapassadas, nem sempre de forma tranquila para uma ou para outra, mas levam-nas a permanecerem em contato, ainda que distantes, quando Elena, depois de ficar praticamente sozinha, resolve ir embora da cidade em que nasceu e viveu por tantos anos, e que ela pensa conhecer profundamente. Impossível não relacionar os quatro volumes da “Série Napolitana” com outro grande sucesso editorial publicado entre 1957 e 1960: “O quarteto de Alexandria”, de Lawrence Durrel. Em ambas as obras – longas e confessionais – as duas cidades ganham vida, como personagens míticas (mais em Durrel do que em Ferrante) de grande força narrativa, já que ambas têm históricos milenares, além de várias outras “coincidências” que o leitor atento das duas obras poderá identificar. Se Durrel organiza sua obra numa estrutura que lembra uma espécie de círculos concêntricos em que os três primeiros volumes praticamente contam a mesma história sob pontos de vista diferentes, Ferrante leva sua história quase linearmente, mas sem deixar o leitor respirar, com os acontecimentos se sucedendo como num rio caudaloso, num estilo contundente e envolvente.

sábado, 16 de abril de 2022

História de quem foge e de quem fica, Elena Ferrante

 História de quem foge e de quem fica, Elena Ferrante



O terceiro volume da “Série Napolitana” privilegia a fase adulta das protagonistas nos conturbados anos 60, uma década de revoltas, de lutas de classes, de protestos e assassinatos. Aliás, é com um assassinato que se inicia esta terceira narrativa da saga de Elena, a narradora, e Lila, a amiga especial. Lila vai ao fundo do poço, quase morre, mas consegue dar a volta por cima com a ajuda de Elena e de Enzo, um antigo apaixonado por ela. Também à custa de jogar para o alto seus princípios e aceitar a ajuda do “inimigo”: Enzo e ela estudam a incipiente informática, através de apostilas não muito confiáveis, mas a inteligência de ambos e a perseverança, com um empurrãozinho da amigo, fazem com que obtenham um bom emprego e superem todas as dificuldades. Já a amiga Elena finalmente se casa com um promissor acadêmico, oriundo de uma família influente, muda-se para Florença, publica seu primeiro livro e obtém com ele um rápido e fulgurante sucesso. Nascem suas duas filhas. Mas o envolvimento com um amor do passado, com o instável amigo de infância e ex-amante de Lila, Nino, vai levá-la a caminhos tortuosos de uma paixão adolescente renascida de forma inesperada e enlouquecedora. O que perpassa a longa narrativa, com inúmeras personagens e vidas que se cruzam, entrecruzam, num bailado virtuosístico de histórias e acontecimentos de tirar o fôlego do leitor talvez possa ser resumido na palavra subalternidade, aquilo que liga as duas protagonistas e faz que Elena sempre se subestime em relação à amiga, embora seus destinos sejam tão diferentes e suas trajetórias sejam opostas: enquanto uma sobe, a outra cai e vice-versa. A relação entre elas é marcada por um misto de amor e ciúmes, de amor e inveja, mas sobrevive. A outra presença, fantasmagórica, é de Nino, na vida de ambas, com sua inteligência, seu charme, seu poder de sedução. É o “quase-pai” do filho de Lila e, quando se materializa na vida de Elena, chega para arrasar tudo e a todos. Enquanto Lila permanece vivendo em Nápoles, Elena se muda para Florença, depois de estudar em Pisa, mas a cidade natal de ambas mantém a escritora presa aos mesmos paradigmas arraigados de quando vivia na periferia e na pobreza, apesar de haver ascendido em termos de classe social. Também o lado político e social da década tece um interessante pano de fundo da primeira fase da conscientização das mulheres em relação ao mundo masculino. Ainda não se fala de feminismo, mas já está latente um movimento feminino de emancipação, no qual se engaja, embora timidamente, a narradora. Enfim, sem nenhuma dúvida, essa fase da longa narrativa das duas amigas e suas encrencas pela vida prende o leitor numa malha de acontecimentos de tirar o fôlego.


quarta-feira, 13 de abril de 2022

História do novo sobrenome, Elena Ferrante



História do novo sobrenome, Elena Ferrante

Neste segundo livro da “Série Napolitana”, a autora/narradora, agora no início da fase adulta, conta as aventuras e desventuras das duas protagonistas, Lila e Elena, em suas trajetórias ao mesmo tempo enlaçadas pela amizade e tão diversas nos caminhos escolhidos. Lila, depois do casamento e da cena lamentável da lua de mel, parece aos poucos entregar-se ao marido e aos negócios do marido, que são muitos, envolvendo interesses vários nas charcutarias e nas lojas de calçados. Elena, por sua vez, dedica-se cada vez mais aos estudos, apesar de todas as dificuldades. O que as une: Elena reencontra Nino, sua paixão de infância, mas quem acaba conquistando o rapaz é Lila, quando seu casamento, que parecia decolar, não é aquilo que aparenta. Com ele tem um filho. Separa-se do marido e vai viver com o filho em um bairro distante, com outro amigo das duas, que é por ela apaixonado, com o qual não tem, porém, vida marital. Está pobre e trabalhando numa fábrica de embutidos. Já a trajetória de Elena, em termos profissionais, vai de vento em popa, apesar de todos os contratempos: consegue uma bolsa para estudar em Pisa, para onde se muda, tem vários namorados, depois de se entregar ao pai de Nino, numa das viagens de veraneio, numa praia. Inicia uma carreira de escritora e só vai reencontrar a amiga e o filho de Nino quando a situação da amiga já está bastante deteriorada, numa tarde na fábrica de embutidos. O que perpassa a obra, nesse segundo volume, são, portanto, as lutas e frustrações das duas jovens, principalmente a autodepreciação constante de Elena, seu complexo em relação à capacidade e à inteligência da amiga que, no entanto, está-se perdendo pelos caminhos da indigência. Desvenda-nos a autora um mundo complexo, rico de possibilidades e, ao mesmo tempo, um mundo de dificuldades, de tensões, de lutas sociais, políticas e, principalmente, de luta pela sobrevivência através do esforço pessoal, num mundo, enfim, em que não bastam a inteligência e a genialidade, mas é preciso ter berço, ter uma base familiar tradicional, coisa que as duas garotas não têm, embora uma delas esteja conseguindo furar a bolha.


domingo, 10 de abril de 2022

A amiga genial, Elena Ferrante

 A amiga genial, Elena Ferrante


Viver para contar. Escrever para viver. Desde que a literatura moderna seguiu pelas trilhas abertas por Proust, as biografias ou autobiografias relatadas no compasso da ficção (ou mesmo da não ficção) constituem rios caudalosos por onde, em geral, o leitor navega com prazer, principalmente quando bem escritas e bem articuladas. E a busca do tempo perdido é daqueles temas sempre caiados de novo e, se bem caiados, sempre muito bem-vindos. E Elena Ferrante, a misteriosa escritora italiana, não nega fogo em sua proposta de uma vasta exumação do passado em Nápoles, de cujo primeiro volume dos quatro escritos, tratamos neste breve comentário. Elena Greco, a narradora, neste primeiro livro, escreve sobre sua infância num subúrbio violento de sua cidade na década de 50 e 60 do século passado, entendendo-se aí a violência que tem origens muitas vezes desconhecidas no ódio entre famílias, nas lutas de jovens mais pobres contra os mais ricos etc., não a violência a que nos acostumamos atualmente. Entrelaçam-se várias histórias, mas o eixo narrativo se concentra na amizade entre ela e sua amiga genial, Raffaella Cerulo, chamada de Lina por todos e de Lila pela autora. Há entre elas uma espécie de disputa pelas melhores notas, levando sempre a melhor a amiga que, ainda menina, desenha croquis de sapatos, inspirados na profissão do pai sapateiro e um desses modelos, longamente criado e montado às escondidas por ela e seu irmão mais velho, também sapateiro, vai-se imiscuir na história e mudar, talvez, o rumo de sua vida. Seu talento e sua inteligência fazem prever para a menina um futuro brilhante nos estudos. Mas as dificuldades da vida levam Lila a trilhar um caminho diverso, abandonando a escola e os livros e casando-se aos dezesseis anos com um rapaz rico que promete tirá-la e à sua família da pobreza, enquanto Elena, mesmo lutando com as mesmas dificuldades, prossegue seus estudos. A narrativa é lenta, mas nos conduz aos meandros e às incertezas das duas garotas, suas relações com vizinhos e amigos, os conflitos familiares etc., de forma envolvente, graças à habilidade da autora. O primeiro “capítulo” dessas vidas se encerra justamente com a festa do casamento de Lila, um casamento que deixa no leitor a sensação de que tem tudo para dar errado. Veremos.




quinta-feira, 7 de abril de 2022

A hora da estrela, Clarice Lispector

 A hora da estrela, Clarice Lispector


Clarice Lispector voltou: exposições baseadas em suas obras, comentários nas redes sociais, traduções para outras línguas, novos leitores. Isso é ótimo. Que se revise a literatura dessa grande escritora, que se comentem suas crônicas e contos, que todos comemorem Clarice. Sua literatura nem sempre é fácil, mesmo nos livros menos complexos, como é o caso de “A hora da estrela”. A história da jovem nordestina Macabéa está, neste livro, contada por uma espécie de alter-ego da autora, o escritor Rodrigo S. M. que, à medida que narra, também escancara seu processo de criação. Comenta, no início, que não há muito o que dizer de sua protagonista, com sua vida sem nenhum atrativo. E realmente pouca coisa acontece ao longo de sua trajetória de rotina pontuada pelo tique-taque da antiga Rádio Relógio, que dava a hora certa a cada minuto, enquanto fornecia a seus ouvintes, nesse intervalo, “pérolas” de conhecimentos de almanaque, que é praticamente tudo de informação que alimenta o intelecto de Macabéa e sua vida vazia e sem perspectiva que, no entanto, se “engravida de futuro”, quando ela consulta uma cartomante e essa lhe diz que ela conhecerá um estrangeiro rico, com quem se casará. Mas a previsão se transforma em tragédia. E ao narrador só resta, ao fim e ao cabo, lamentar e chorar o amor que parece ter por sua “heroína”. Esse mesmo tema, de “vidas vazias” e aparentemente sem sentido, é também abordado de forma magistral por Autran Dourado, em “Uma vida em segredo”, num registro estilístico completamente diferente de Clarice, o que nos permite concluir com Machado de Assis que “só existem ideias velhas caiadas de novo”. Mas, quando a caiação é de boa qualidade, que nos empapucemos com as ideias velhas. Salve Clarice. Salve Autran.


segunda-feira, 4 de abril de 2022

O animal agonizante, Philip Roth



O animal agonizante, Philip Roth


Uma história de amor entre um velho professor e uma aluna (ou ex-aluna) bem mais nova: banal? Nenhuma história é banal na pena de Roth. Primeiro, vejamos o enredo. Sim, o professor tem 62 anos, dá todos os anos um curso de crítica literária para uma turma de mais ou menos 25 alunos, a maioria garotas. Seu lema: jamais sair com alunas, enquanto alunas. Mas, o curso termina e o professor oferece uma festa de encerramento em seu apartamento, a que comparecem quase todos os ex-alunos; a maioria, ex-alunas. E ele sempre pesca alguma para sua cama. Já são ex-alunas e não há mais nenhum risco de escândalo. Numa dessas turmas, encanta-se com a filha migrantes cubanos, Consuela, de 24 anos, corpo escultural e belos, belíssimos seios (e isso será muito importante, ao final do livro, mas não vou dizer por quê!). Segue o ritual de sempre e ele a leva para cama no final do curso, depois da famosa festa em seu apartamento. E entre eles surge uma paixão avassaladora, para usar um clichê. O professor tem uma longa ficha de conquistas e um filho de 42 anos, “abandonado” por ele, porque ambos não se suportam, por motivos de extremo moralismo do filho. Mas, fiquemos por aqui. Já é o suficiente para tecermos algumas considerações sobre o livro. A narrativa é rápida: não nos toma muito tempo. Mas, haja fôlego! O autor não perde tempo em nos apresentar todas as nuances do enredo. Com a competência de sempre. Afinal, estamos diante de um dos maiores escritores estadunidenses do século XX. Sua prosa é sempre agradável ou, melhor dizendo, agrada-nos por sua competência em nos enredar em suas histórias, mas... nunca é exatamente agradável. Está sempre abordando temas que nos incomodam. Desse livro, só adianto que se trata da aproximação de dois grandes arquétipos da humanidade: Eros e Tânatos. Amor e Morte. O erotismo de Roth vem sempre com palavras muito precisas, nunca foge ao real, àquilo que precisa ser dito. Quando fechamos o livro, ficamos com a dúvida, em relação a Tânatos: quem é o animal agonizante, afinal? A pergunta é retórica: sabemos, sim, quem é o animal agonizante.


sexta-feira, 1 de abril de 2022

Os amores difíceis, Italo Calvino

 Os amores difíceis, Italo Calvino



Nesse livro, Calvino abre seu fabulário, para falar de amores complicados, com a sutileza de sempre. Quando se lê uma fábula, espera-se que haja, ao final, um preceito moral. Não é o que acontece com as fábulas de Calvino: ele nos conduz, através de detalhes internos e externos para o mundo de seus personagens, e nos convida para o jogo, o lúdico jogo da ficção, a que interpretemos suas motivações, ou seja, chega-se a um ponto, depois de se degustar todos os meandros de enredos que parecem simples, que ele nos diz: agora é com você, leitor, as cartas estão na mesa, decifre-as você com sua imaginação. Assim acontece com a história do soldado tímido que tenta seduzir uma viúva durante uma viagem de trem; com uma respeitável senhora que vive o drama de perder no mar a parte de baixo de seu maiô,  quando a praia está cheia; com um leitor que oscila entre a realidade densa da ficção e a fantasia erótica da realidade; com um míope que enfrenta as ambiguidades do uso de óculos; com uma esposa que descobre o adultério e o mundo no botequim da esquina; com um bandido e o sargento que o procura quando resolvem passar a noite na cama da mesma prostituta. E há, ainda, as duas novelas, mais longas, em que um casal e seu filho pequeno alugam uma casa repleta de formigas, e a história do intelectual preocupado com a poluição da cidade, ao mesmo tempo que convive com as frustrações amorosas e do dia a dia na redação de uma revista. Enfim, se o leitor entra no jogo proposto, sentirá o prazer de ler um dos escritores mais sutis da Europa, com sua prosa elegante, irônica e precisa.