sábado, 18 de novembro de 2023

Bem-vindos à livraria Hyunam-dong, Hwang Bo-reum

 Bem-vindos à livraria Hyunam-dong, Hwang Bo-reum



Gosto de ler livros que falem de livros. Já há várias resenhas sobre eles neste blog. E sempre algum título chama a minha atenção. Desta vez foi a jovem e estreante escritora coreana Hwang B-reum, com um romance que me atraiu não só por ter como tema uma livraria, mas por ser, talvez, o primeiro livro traduzido do coreano que leio. E surpreendo-me com uma narrativa simples e deliciosa. A trama gira em torno de Yeongiu, uma mulher talvez na casa dos trinta anos, recém-divorciada, desmotivada, vivendo uma vida vazia e sem sentido. Para preencher esse vazio e para buscar um motivo para viver, resolve recuperar um antigo sonho: ser dona de uma livraria. Leitora compulsiva, julga encontrar entre os livros conforto para seus males. Escolhe um bairro de classe média de Seul e, no início, a livraria tem poucos frequentadores e ela mergulha na solidão da leitura. Depois de uns dois meses, talvez por tédio, talvez para que o sonho não esmoreça, decide dar um upgrade no negócio. Começa contratando um jovem, também meio desiludido da vida, Minjun, como barista da livraria e iniciar uma série de atividades que possam motivar os leitores e compradores, transformando o espaço num lugar de conforto e acolhimento. Assim, aos poucos, através de diálogos interessantes e do desvelamento de algumas vidas que passam a frequentar a livraria, a autora vai nos envolvendo na trajetória de vida de sua protagonista, na sua busca por uma vida que faça sentido para ela, sem grandes arroubos, mas satisfatória o suficiente para que consiga estar em paz consigo mesma, já que a livraria, cujo tempo de duração ela previra para apenas uns dois anos, começa a fazer sentido como um negócio que não vai enriquecê-la materialmente, mas o contato com livros, com escritores, com leitores e frequentadores mitigará seu desencanto de viver. Enfim, não é, absolutamente, um livro de lições moralistas sobre o sentido da vida, mas dá ao leitor o conforto de saber que, afinal, a vida que temos é a vida que deve ser vivida da melhor forma possível e, muitas vezes, apesar das dificuldades, valorizada com o esforço do trabalho e de valores realistas, para que não se torne desmotivada e vazia.



sábado, 11 de novembro de 2023

O reino da fala, Tom Wolfe

 


O reino da fala, Tom Wolfe


A Linguística é uma ciência complexa. Estuda a linguagem humana, em todos os seus aspectos. Tem oferecido explicações para muitos fenômenos ligados à fala, usando métodos estatísticos, pesquisa de campo, comparações entre os milhares de idiomas, contribuindo para o entendimento da evolução humana. Mas, há um aspecto da linguagem que a linguística e nenhuma outra ciência conseguiu dar uma resposta satisfatória: a origem da fala. Como o ser humano aprendeu a falar? Os evolucionistas, Darwin à frente, levantam a hipótese de que os humanos aprenderam a falar quando começou a imitar o canto e os ruídos dos pássaros. Um dos maiores linguistas do século XX, Noan Chomsky, lançou uma hipótese que foi aceita por vários anos: o ser humano tem um órgão da fala, localizado em algum lugar do cérebro, o que lhe permite nascer com uma espécie de gramática universal. No entanto, “em uma noite clara do ano de 2016”, Tom Wolfe, premiado jornalista estadunidense, “surfando na rede”, encontrou uma página que dizia: “O mistério da evolução da linguagem”. O texto dizia que oito evolucionistas famosos, dentre eles Noan Chomsky, jogavam a toalha e afirmavam que a origem e evolução da fala continuavam um mistério para a ciência, ou seja, depois de 150 anos – desde a publicação da teoria da evolução – e após inumeráveis avanços da ciência, nada havia sido descoberto que afirmasse com absoluta certeza como o ser humano adquiriu a fala e como ela evoluiu. A curiosidade jornalística levou-o, então, a escrever este livro – “O reino da fala” – no qual nos conta as peripécias dos evolucionistas e dos linguistas em buscar a origem da linguagem humana, praticamente sem sucesso, a não ser... Bem, há então a história incrível de Daniel Everett, um missionário e dublê de linguista, que passa dez anos de sua vida numa pequena tribo amazônica, os pirahãs, que se comunicam através de uma língua que foge a todos os princípios linguísticos até então aceitos. Uma língua de vocabulário mínimo, com ruídos e gritos e cantos imitativos de pássaros; uma língua que só usa o presente, ou seja, não possibilita narrativas de passado ou de futuro. A publicação do livro que narra as aventuras e, principalmente, a estrutura da linguagem desses indígenas brasileiros abala completamente os conceitos até então disseminados por Chomski e seus seguidores. O que Wolfe escreve, portanto, não é um estudo sobre a fala humana, mas uma reportagem, às vezes irônica, sobre um quebra-cabeças que nos leva a conclusões bastante interessantes sobre a fala, a linguagem, como o principal artefato da evolução humana. Mas, para entender bem isso, é preciso que você leia o livro. E acredite: é uma leitura extremamente agradável. E até divertida. Mesmo que você não entenda nada de linguística e até mesmo tenha algum ranço para com a gramática, principalmente a gramática da nossa “última flor do Lácio”.

terça-feira, 7 de novembro de 2023

O rei branco, Gyorgy Dragomán

O rei branco, Gyorgy Dragomán


O cenário: o subúrbio da “mais bela cidade do mundo”, no Leste Europeu, atrás da Cortina de Ferro; narrador: Dzátà, um garoto de 11 anos. A polícia do estado levou seu pai para trabalhos forçados nas obras do Rio Danúbio. Por quê? O menino não sabe. Apenas o seu inconformismo e a saudade imensa do pai afloram na narrativa. Enquanto aguarda, ou melhor, deseja a volta paterna, o garoto conta seus perrengues de órfão, sua relação com os colegas, as travessuras próprias de sua idade, entretendo-se com aventuras complicadas e perigosas, com jogos de guerra nos campos de trigo, contra moleques mais velhos e mais fortes; as constantes surras desses mesmos moleques ou dos adultos, muitos deles seus professores autoritários e violentos; os campeonatos de futebol entre as escolas, sempre decididos de acordo com interesses políticos; a relação complicada com os avós, principalmente com o avô paterno, um ex-dirigente partidário de prestígio, que ele vê apenas duas vezes ao ano... E sempre, a saudade e as lembranças do pai, as dúvidas em relação ao motivo de sua prisão, principalmente ao presenciar o desespero da mãe nas tentativas, sempre frustradas, de saber pelo menos notícias do marido. Os capítulos são quase narrativas isoladas, em que o garoto-narrador revela algumas de suas traquinagens ou um pedaço de sua vida atribulada. Dois capítulos me chamaram a atenção, nessa narrativa entrecortada: aquele em que o avô praticamente sequestra o garoto e leva-o ao alto de uma colina, de onde se avista toda a cidade, e lhe diz que é “a mais bela cidade do mundo”, mas que o garoto deve reter sua imagem na memoria e prometer que vai abandoná-la para sempre, assim que puder; e aquele em que ele narra o funeral do avô: não vou entrar em detalhes, mas é uma das páginas mais belas da literatura europeia, em termos de protesto contra o totalitarismo, em tons emocionais e humanos e com detalhes que só podiam ser captados pelos olhos de um menino, agora aos 12 anos. O húngaro Gyorgy Dragomán mostra, embora não só neste capítulo, mas em todo o livro, por que é ganhador de prêmios importantes, na sua terra e na Europa, e por que é considerado um dos grandes escritores do nosso tempo.

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Marina, Carlos Ruiz Zafón

 Marina, Carlos Ruiz Zafón


Uma história deliciosamente absurda. Dizem alguns críticos que se trata de um “romance gótico”, talvez pelo barroquismo de seu enredo. Na Barcelona dos anos setenta, Óscar Drai, um garoto 15 anos, é um solitário estudante de um internato, praticamente esquecido pelos pais. Tem o hábito de usar seu tempo livre em caminhadas pelas ruas da cidade, atraído principalmente pela arquitetura de seus antigos casarões. E é num desses casarões que conhece a também adolescente Marina e seu pai, um pintor atormentado pela morte precoce da esposa. Tornam-se amigos e Óscar faz de sua paixão por Marina e a da amizade de seu pai a família de que ele sente falta, na solidão do internato, onde tem poucos amigos. Um dia, Marina leva-o a um cemitério abandonado, ao qual comparece sempre à mesma data e à mesma hora uma estranha mulher, que visita um determinado túmulo. Curiosos pela história dessa mulher, os dois adolescentes vão-se envolver num mirabolante enredo de mistérios que envolve palacetes e estufas abandonadas, manequins vivos, a marca de uma borboleta negra, e o conhecimento da vida de um imigrante de Praga que fez fortuna, se casou com uma cantora de ópera e tentou construir para ela um imenso teatro. Toda a investigação se complica para eles, numa aventura surreal pelas ruas e pelos túneis fétidos dos esgotos de Barcelona, em busca de uma verdade que lhes chega de forma trágica e através de reviravoltas de perder o fôlego, com o envolvimento de muitas outras personagens. Enfim, um livro realmente “gótico”, ao envolver perseguições e mortes misteriosas, num ambiente de ruas e casarões e construções antigas, dentro de esgotos onde vivem criaturas fantasmagóricas e assassinas, numa cidade-personagem que guarda memórias de traições, de vinganças, de busca frenética de um homem para driblar a morte e a decadência física, com muitos elementos de suspense e mistérios insondáveis, numa narrativa alucinante. O autor, Carlos Ruiz Zafón, cujo best-seller mundial, “A sombra do vento” (que já comentei aqui mesmo, neste blog), apresenta-nos, neste romance anterior, todos os elementos de um tipo de narrativa que conquistou e conquista milhões de leitores pelo mundo afora. E mais uma vez, aqui, como muitas vezes acontece na boa literatura, a história, mirabolante e absurda, transcende o inusitado, para levar ao leitor uma reflexão sobre a solidão e as perdas com que todo ser humano inevitavelmente tem que lidar um dia.

domingo, 29 de outubro de 2023

A resistência, Julian Fuks



A resistência, Julian Fuks


Cenário: Buenos Aires, final dos anos 70. Uma ditadura feroz persegue, prende, mata e desaparece com os corpos de milhares de cidadãos. É preciso resistir. Um casal de classe média, intelectuais e atuantes ambos na área da medicina, não consegue engravidar. Recorre à adoção de um menino recém-nascido, filho de uma “italianinha”, que é tudo o que sabem sobre a mãe. Exilados no Brasil, em São Paulo, têm mais dois filhos naturais, um casal. O narrador do livro é esse segundo filho. Abre a narrativa afirmando que seu irmão é adotado. E que nada se pode fazer a respeito. A partir daí, dúvidas e questionamentos não apenas sobre a situação do país de origem de seus pais, mas também sobre o próprio processo de adoção. As relações familiares em torno do menino, do adolescente e do adulto adotado se tornam complexas, já no filho adotado há, então, a resistência em torno de sua própria condição. A emoção prevalece em torno da situação em que se colocam os filhos legítimos em relação ao irmão adotado e o desconforto desse irmão, que às vezes se vê não devidamente acolhido. A sutileza e a inteligência com que o autor trata a questão toca profundamente nossa sensibilidade, já que o tema é não só complicado, mas também se refere a sentimentos humanos extremamente delicados. Um livro curto, apenas pouco mais de 150 páginas, mas um oceano de ideias, sentimentos, reflexões, ao abordar relações familiares que repercutem em milhares de outras famílias que lidam com a mesma situação. A adoção é um ato de amor, para usar um clichê, mas pode trazer consigo um cadinho de emoções, de dúvidas, e até mesmo de problemas, que precisam ser pensados, sentidos, meditados e resolvidos, rompendo qualquer tipo de resistência, para prevalecer a união e o bom senso, ao contrário da resistência necessária aos regimes totalitários e assassinos. Não sei se foi essa a mensagem desejada pelo autor, mas é, pelo menos para mim, a mensagem que ficou, quando acompanhei com emoção cada linha, cada parágrafo, cada capítulo desse excelente livro.


quarta-feira, 25 de outubro de 2023

A consciência de Zeno, Italo Svevo

 A consciência de Zeno, Italo Svevo


Consciência pode ser a capacidade que tem o ser humano de compreender aspectos ou a totalidade de seu mundo interior. Mas, pode ter também o significado de percepção que o ser humano possui daquilo que é moralmente certo ou errado. Zeno Cosini vive em Trieste, cidade italiana quase fronteiriça com a Áustria, no final do século XIX e início do XX. O vício do tabagismo leva-o a buscar tratamento psicanalítico, na tentativa de largar o cigarro. Seu analista sugere que ele registre suas memórias e sua vida, numa espécie de autobiografia, em busca do conhecimento de si mesmo. Essa a consciência que Zeno busca despertar. Mas, também, em sua trajetória de comerciante, quando se apaixona por uma das três filhas de outro comerciante mais velho e se vê rejeitado e acaba por se casar com uma outra irmã, provocando em si mesmo sentimentos complexos de amor e ódio, de fidelidade e traição, de práticas de negócio nem sempre pautadas pela melhor forma, Zeno também lida com aspectos morais típicos de um anti-herói disfuncional e burguês do romance do início do século. O desconforto em relação ao mundo e a capacidade de ultrapassar os obstáculos que se apresentam, para alcançar grandes feitos, acompanham os heróis clássicos, desde tempos de narrativas imemoriais. Até Cervantes. Dom Quixote, com sua inadaptação ao mundo, luta com gigantes imaginários, desvendando as misérias e a consciência interiores do ser humano renascentista, inaugurando o anti-herói moderno. O realismo, mesmo buscando resgatar os princípios gregos de heroicidade e de realidade, nunca jogou no lixo a luta interior de seus heróis, seus dilemas éticos e filosóficos. Italo Svevo, contemporâneo e amigo de James Joyce, havendo mesmo entre eles uma admiração recíproca, comunga com o inglês a capacidade de trazer para a literatura toda a disfuncionalidade e toda a complexa teia de dilemas morais, éticos e filosóficos dos humanos do século XX, anti-heróis que desbravam para nós, seus leitores, o fascínio da mente humana e de suas contradições, despertando, portanto, novas consciências diante de um mundo cada vez mais complicado, não só para o indivíduo, mas também para todas as sociedades e povos e nações, que não se entendem e vivem em pé de guerra. Talvez por isso, seja “A consciência de Zeno” considerado um dos melhores romances italianos de todos os tempos e um dos grandes romances do século XX. Não é uma leitura “de fim de semana”, mas um livro para se degustar lentamente, parágrafo por parágrafo, linha por linha, as suas quase quinhentas páginas.


segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Salvar o fogo, Itamar Vieira Junior

Salvar o fogo, Itamar Vieira Junior



Manto tupinambá. Costurado pelas mulheres indígenas, com penas de vários pássaros, colhidas na floresta, o manto cerimonial era usado pelos homens em ocasiões especiais, e devia dar ao seu possuidor um grande poder. As penas coloridas deviam ser cosidas uma a uma, num mosaico de cores variadas. Assim também, Itamar Vieira Junior vai juntando pacientemente os relatos de vidas de uma família numerosa da vila Tapera do Paraguaçu, no recôncavo baiano. O centro, porém, da narrativa é Luzia, moça estuprada ainda muito jovem, na qual nasce uma corcunda que a torna uma espécie de maldição ou feiticeira capaz de botar fogo em casas e pessoas, segundo os preconceitos da aldeia, cujo povo a persegue a pedradas, às vezes, pelas ruas tortas e miseráveis, como culpada de vários melefícios. A narrativa começa com uma mulher – que incialmente não sabemos quem é – dando à luz um menino nas águas do rio Paraguaçu, salvo da morte por uma das irmãs, filha do quase sempre ausente Mundinho, entregue à lida diária, à bebida e às mulheres. Da família de Mundinho, só ficaram mesmo na Tapera o “Menino”, batizado com o nome significativo de Moisés – agora também órfão de mãe – e Luzia, que o cria e educa com muita dificuldade. Para isso, ela se torna lavadeira do mosteiro da cidade, cujos padres (na verdade, monges) dominam a população local, não só em termos de fé, mas também economicamente, exigindo dos moradores o pagamente anual de um imposto para a igreja (que, significativamente também, Mundinho se recusa teimosamente a pagar). A proximidade com os padres permite que Luzia garanta a Moisés, o “Menino”, que comece a estudar e possa ter uma vida melhor. Mas ele interrompe bruscamente os estudos e também parte a cidade grande, levando as economias de Luzia. Motivos muito fortes provocaram esse rompimento. Motivos que marcarão profundamente a vida de toda a família. A narrativa ganha foros de catarse, de uma espécie de vingança que, se não alivia todo o sofrimento de Luzia e de suas irmãs e irmãos, leva o leitor ao regozijo de chegar ao final do livro pelo menos não tão amargurado, através de eventos que se vão revelando pouco a pouco, na escrita lenta e detalhista do manto tupinambá tecido pelo autor. Um resgate catártico, repito, sem dúvida, de nossas populações afro-indígenas desprezadas e espezinhadas ao longo de séculos de dominação religiosa, que lhes destrói a cultura e os costumes tradicionais; de dominação política e econômica, que os mantém em condição subumana, no Brasil profundo, de vilas e vilarejos esquecidos pelo poder público, mesmo em tempos muito recentes, já que a história se passa nos trinta e poucos anos finais do século passado. Confesso, sem constrangimento, e até com muita satisfação: um grande livro, sem dúvida nenhuma. Seus – poucos, pouquíssimos – defeitos literários não empanam a efusão dos meios literários ao surgimento desse autor que, esperamos, nos brindem com outras joias preciosas, que nossa cultura anda precisando, e muito, de bons autores que se debrucem a trazer à tona a cultura de nosso povo, seja dos escravizados, seja dos povos originários, que formam um cadinho vigoroso de esperança de uma nação enfim livre de racismos e preconceitos.