sábado, 12 de setembro de 2026

O gato que atravessa paredes – uma comédia de costumes, Robert A. Heinlein

O gato que atravessa paredes – uma comédia de costumes, Robert A. Heinlein


Dos chamados “três grandes” da ficção científica de língua inglesa, Arthur C. Clark, Isaac Asimov e Robert A. Heinlein, não havia ainda lido esse último. E a surpresa de “O gato que atravessa paredes”, para mim, foi a constatação de uma ficção quase delirante, irônica e divertida, embora não seja esse um livro fácil de ler. A história de passa em futuros distantes, e eu digo futuros, porque não há exatamente a fixação de um tempo, mas viagens estranhas e extraordinárias no tempo, quando as pessoas podem viver centenas e talvez milhares de anos, em planetas distantes ou aqui na velha Terra ou em Luna/Lua. E é exatamente em Luna onde começa a história do coronel Colin Campbell, conhecido também como Dr. Richard Ames ou como senador Richard Johnson, que não tem um pé, à mesa de um restaurante em companhia de sua provável nova namorada, a pequenina, bela, sensual e enigmática Gwen Novak, quando um estranho se senta à sua frente e lhe diz que ele precisa matar alguém chamado Tolliver, ou ambos morrerão. Esse estranho pedido ocorre logo que Gwen saíra para ir à toalete. Quando, enfim, o estranho se dispõe a lhe entregar uma carteira de identidade e o show na boate começa, surge um ponto negro no peito do estranho, um dardo que explode em seu corpo o mata instantaneamente. Os garçons imediatamente livram-se do corpo. A partir daí, a vida do coronel se transformará numa sucessão incrível de acontecimentos, em que ele é ferido numa briga, levado para um hospital, ganha um pé novo transplantado e viaja no tempo e no espaço, em naves pilotadas por computadores superinteligentes, que a tudo proveem, sempre com sua companheira, Gwen, com quem se casara e de quem pouco sabe, apenas soube que ela tem mais de duzentos anos, apesar da aparência jovem e de toda a sua sensualidade. Entra em contato com uma sociedade que vive num futuro tecnológico, mas também um tanto hedonista, de liberdade sexual, onde há estranhas relações de parentesco e nem ele nem nós, leitores, sabemos muito bem por que o perseguem e por que ele tem sempre que fugir. Enfim, um enredo complexo, mas divertido, em que a ironia do autor nos diverte com os inspirados diálogos de puro non sense, como, aliás, é toda a história, sem dúvida, narrada por uma imaginação extremamente criativa.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Hilda Furacão, Roberto Drummond

Hilda Furacão, Roberto Drummond


A jovem chamada “Garota do Maiô Dourado”, que frequentava a piscina e as “missas dançantes" de um clube tradicional de Belo Horizonte, e atraía a atenção de jovens e velhos e ricos da alta sociedade, num dia 1º de abril de 1969, resolve mudar-se para o quarto 304 do Maravilhoso Hotel, na zona boêmia da cidade e tornar-se a prostituta que irá incendiar as mentes e a libido da sociedade mineira, principalmente dos ricos coronéis, que lhe prometem fortunas por um casamento que ela sempre rejeita. Enquanto isso, três rapazes provindos da cidade interiorana de Ferros tentam a sorte na capital: o primeiro queria ser santo e torna-se frade franciscano; o segundo queria ser ator e conquistar Hollywood, mas se torna apenas um conquistador de aluguel, encaminhando moças virgens para um riquíssimo colecionador de mulheres, que pretendia ter mil filhos com mil mulheres; o terceiro é o próprio narrador/autor do livro. Muitas são as histórias que se cruzam, muitos os folclores que precisam ser contados, principalmente na trajetória do narrador, jornalista que passa por várias redações e se torna amigo de Hilda e lhe promete escrever um romance contando sua vida, desde que ela lhe desvende o grande mistério: por que se tornou prostituta, se podia ter-se casado com um milionário e ter uma vida de luxo e riqueza. Muitos personagens aparecem na narrativa, misturando ficção e realidade, num tempo de grande efervescência política, que vai desaguar no golpe militar de 1964. E é justamente no dia 1º de abril de 1964, data do golpe, que Hilda Furacão resolve abandonar a vida de prostituta e passar a viver com seu grande amor, o padre franciscano que ela conheceu numa situação inusitada quando, alguns anos antes, a sociedade mineira liderada por senhoras conservadoras e carolas convidou o frade a participar de uma caminhada que terminaria com o exorcismo de Hilda Furacão, para livrar Belo Horizonte do pecado. Para encerrar esse breve comentário sobre um livro que, como Hilda, incendiou as mentes brasileiras nos anos 90, ao ser transformado em uma série televisiva, passada na Rede Globo, devo dizer ao leitor destas linhas que há muito mais histórias relacionadas à sociedade mineira conservadora (e isso, para mim, é um pleonasmo) da época do que propriamente a história de Hilda Furacão, já que, embora sua figura perpasse por todas as páginas, como um ente abstrato, sua trajetória, seus amores e suas motivações são muito pouco explorados por Roberto Drummond. Para encerrar definitivamente: pode ser que pareça datado, mas “Hilda Furacão”, o livro, ainda hoje permanece uma leitura extremamente agradável, daqueles livros que pegam o leitor desde a primeira página e o levam a degustar a prosa solta, irreverente e irônica de Roberto Drummond, falecido aos 68 anos, em 2002, até o desfecho dúbio da trajetória de uma personagem que se tornou símbolo de um país cujos sonhos se transformaram em pesadelo e, por isso, uma personagem inesquecível.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Encaixotando minha biblioteca: uma elegia e dez digressões, Alberto Manguel

Encaixotando minha biblioteca: 
uma elegia e dez digressões, Alberto Manguel


Quem gosta de livros, gosta de ler livros que falem de livros, que contem histórias de livros. É o caso desse livro de Alberto Manguel. O escritor argentino é um leitor voraz e chegou a ter uma biblioteca de mais de 35 mil volumes. Por força da profissão de seu pai, desde criança mudou inúmeras vezes de país, desde Israel até Canadá e países da Europa. Adulto, também não teve paradeiro e sua mudança de Paris para Nova Iorque, em 1915, levou-a a encaixotar mais uma vez sua imensa biblioteca. A partir dessa mudança, o autor relembra sua trajetória de nômade e, principalmente, resolve compartilhar com o leitor suas experiências com os livros e com as bibliotecas que frequentou, fossem públicas ou privadas. São reflexões que variam enormemente, desde as divertidas manias de bibliófilos até comentários e análises sobre eventos históricos relacionados a antigas bibliotecas, como, por exemplo, o estranho incêndio que destruiu a antiga biblioteca de Alexandria. Seu amor pelos livros e pela leitura levou-o a aceitar mais tarde o cargo de bibliotecário da Biblioteca Nacional de Buenos Aires, para onde o autor se muda (mais uma vez), depois de longa ausência do país. Suas reflexões sobre o ato da leitura são sempre muito perspicazes e, sem dúvida, seu livro é uma elegia aos livros, um incentivo a quem gosta de ler a continuar a ler e um convite a todos que leiam, já que só os livros, parece nos dizer Manguel, nos torna mais humanos e nos dá a capacidade de entender melhor o mundo em que vivemos.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Revolução, crime político e loucuras – os discursos criminológicos e o anarquismo no Brasil (1890-1930), Bruno Corrêa de Sá Benevides

Revolução, crime político e loucuras 
– os discursos criminológicos e o anarquismo no Brasil (1890-1930), 
Bruno Corrêa de Sá Benevides


Quando li “Anarquistas, graças a Deus”, de Zélia Gattai, a prosa sensível e nostálgica da autora deixou-me a impressão de que o anarquismo quase ingênuo e algo romântico de sua família, ocorreu numa época tranquila para eles e para o país. Não condeno a autora, por isso, ao contrário: continuo achando sua visão e seu livro uma das melhores páginas que já li sobre essa doutrina que era demonizada, agora eu sei, no começo do século, pelas autoridades brasileiras. O livro de Bruno Benevides, na verdade uma alentada tese de doutoramento do autor, revela-nos traços complexos, para dizer o mínimo, da política brasileira do nos anos abordados pela obra: 1890-1930. O livro é longo, quase 500 páginas, muito bem documentado e muito bem embasado em obras e autores da Europa e do Brasil e em farta documentação, num retrato minucioso de como foi considerado o anarquismo no Brasil, nessas quatro décadas. Primeiro, sob o aspecto médico e científico: a medicina brasileira e, em especial, a medicina legal, abraçou a tese de Lombroso e seus inúmeros seguidores de que os indivíduos que defendiam teses libertárias, leia-se: anarquistas, eram doentes mentais, loucos, esquizofrênicos etc. Ou seja, lutar contra as injustiças sociais condenava os operários, principalmente, não só à prisão, mas ao asilo de loucos. Segundo, sob o aspecto policial: com a devida desculpa de que eram loucos, que pretendiam derrubar o governo e as instituições, a polícia de praticamente todos os estados, mas principalmente da capital Rio de Janeiro, dava-se o direito de prender sem mandado, de torturar e expulsar todo e qualquer “perigoso anarquista” que caísse em suas garras, através de patrulhas violentas e de relatórios de “secretas”, policiais infiltrados nos movimentos operários. Terceiro, sob o aspecto jurídico: às vezes, mesmo sem leis específicas, os tribunais, o Supremo Tribunal Federal à frente, condenavam e permitiam a expulsão de quaisquer estrangeiros acusados de serem anarquistas, essa “praga” internacional. Quarto: sob o aspecto político: deputados e senadores, em sua maioria, se esmeravam em condenar através de discursos irados toda e qualquer ideia anarquista, baseados, claro, nas informações científicas de médicos, psicólogos e psiquiatras que seguiam a linha de raciocínio lombrosiana e apresentavam, com sucesso, leis e mais leis que permitiam e incentivam as prisões arbitrárias de anarquistas. Tudo isso, o leitor já pode concluir, muito bem documentado pelo autor em seu livro, que é um libelo contra a arbitrariedade, contra o absurdo de perseguições a movimentos operários que, principalmente na época, lutavam por direitos mínimos de sobrevivência, por melhores salários e melhores condições de trabalho, em geral condições insalubres e salários de fome. Enfim, um tempo de sofrimento, de terror, de perseguições e tortura de pessoas que queriam somente uma vida melhor. Um livro imperdível, para quem deseja conhecer um pouco mais da história recente de nosso Brasil, desse país que insiste ainda em eleger indivíduos golpistas que defendem teses neonazifascistas.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

A maçã envenenada, Michel Laub

A maçã envenenada, Michel Laub


Em 1993, em Porto Alegre, o narrador tem 18 anos e namora Valéria, uma jovem um pouco mais experiente que ele e um tanto complicada. Combinaram assistir juntos ao show do Nirvana, no estádio do Morumbi, em São Paulo. Compraram os ingressos e passagens. Ela viajou primeiro, com um amigo dele. Mas, o rapaz fazia o CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva), como serviço militar obrigatório e não conseguiu fugir do quartel, o que o levaria à prisão. Em 1994, o líder da banda, Kurt Cobain se suicidou com um tiro de espingarda. Na mesma época, a jovem ruandesa Immaculée Ilibagiza ficou presa dentro de um banheiro, juntamente com outras sete mulheres, para fugir ao genocídio praticado por uma organização paramilitar hutu contra outras minorias, principalmente tutsis, no qual morreram quase todos os membros de sua família. Em torno desses dois acontecimentos, o autor/narrador entretece sua passagem pelo exército, seu romance com Valéria, sua vida de estudante e músico de uma banda de garagem, sua vida em Porto Alegre e, depois, suas viagens, para comentar com emoção, lirismo e, às vezes, uma certa secura e desalento, as diferenças de universos tão díspares quanto o mundo da música e do quartel, sobre o que pensam, o que leem e que música ouvem os jovens dessa época, seus sonhos e dissabores e sobre a própria vida, num tempo de idolatrias e mudanças. O livro é também sobre perdas e solidão, sobre conseguir sobreviver apesar de todos os percalços, e ainda uma reflexão sobre o suicídio. Parece mórbido? Não para a forma como tudo se mistura na prosa muito bem articulada do autor, para que essa história – às vezes triste, às vezes um tanto irônica – não chegue ao leitor como um fardo pesado, mas com a leveza de uma pluma, apesar da carga de uma maçã envenenada, como na canção de Kurt Cobain, Drain you.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A desumanização, Valter Hugo Mãe

A desumanização, Valter Hugo Mãe


Halla, a personagem principal do livro, tem apenas 11 anos e sofre a perda de sua irmã gêmea, Sigridur, cujo corpo é “plantado” no alto de uma geleira na gélida Islândia, onde transcorre um dos dramas mais pungentes jamais narrados em língua portuguesa. A memória da irmã irá pautar e permanecer durante toda a trajetória dessa garota que vive e percorre os caminhos e os fiordes, contaminada pela solidão da paisagem de sua terra natal. Um conselho que ela traz da irmã – jamais namore o Einar, um jovem mais velho e, na descrição inicial da menina (que é a narradora) um tanto feio. No entanto, será ele o companheiro que irá conquistá-la e de quem vai se engravidar aos 12 anos. A criança nasce morta e a descrição desse fato é um dos trechos (entre vários outros) de grande potência emotiva. Halla tem a compreensão e a camaradagem do pai, um sonhador e poeta, mas sofre com a frieza e até uma certa violência da mãe, o que a leva a sair de casa e passar a morar num pequeno cômodo na igreja, arranjado por Steindór, um solteirão amável e amigo de todos, que é uma espécie de sacristão, já que a paróquia está sem um prior. No entanto, a chegada de uma tia, irmã de sua mãe, irá complicar a vida do casal, quando essa tia e o sacristão resolvem se casar, provocando em Einar memórias de um passado terrível. Toda a narrativa é desenvolvida a partir do ponto de vista de Halla, numa linguagem poética e de grande poder de sedução para o leitor, ao retratar a melancolia, o desamparo, a transitoriedade da vida e, principalmente, o luto, o que deixa marcas profundas não só no desenvolvimento das personagens, como também na lembrança de quem se aventura por esse livro que, na sua simplicidade extremamente poética, constitui uma das obras mais belas e interessantes da literatura contemporânea.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O ar que me falta – história de uma curta infância e de uma longa depressão, Luiz Schwarcz

O ar que me falta – história de uma curta infância 
e de uma longa depressão, Luiz Schwarcz


O subtítulo entrega o que se vai ler, mas essa entrega nada tem de lamentação, porque a perspicácia do autor ao contar sua história não permite em nenhum momento a autocomiseração. Como centenas ou milhares de famílias judias que conseguiram escapara à sanha nazista, seu avô e outros familiares, inclusive de sua mulher, acabaram por virem para o Brasil em busca de uma nova vida, em busca da paz. São histórias semelhantes a essa que pode levar a algum leitor desavisado a pensar que é só mais uma história de sofrimento de judeus perseguidos. No entanto, as milhares das vidas que sobreviveram precisam, sim, ser contadas, porque o sofrimento causado aos milhões de judeus (e a outras etnias) pelos nazistas parece não ser suficiente para que se convençam da maldade absoluta do nazismo, é preciso que se individualizem os casos, que se deem nome às pessoas, e só então, talvez, possamos erradicar para sempre de nossa sociedade ideias neonazifascistas. Mas, vamos ao livro: o pai do narrador, húngaro, foi empurrado pelo pai de dentro de um trem a caminho de um campo de extermínio e conseguiu sobreviver. A mãe, croata, fugiu com a família, ainda muito pequena, primeiro para a Itália e depois para o Brasil. Aqui, os dois se encontraram e se casaram, tendo um filho único, Luíz. O passado doloroso e sombrio da família vai aos poucos sendo desvendado por esse filho que, desde menino, começa a desenvolver um quadro crônico de depressão, que se agrava na vida adulta, mesmo quando, já um empresário de sucesso, à frente de uma grande editora, as crises se tornam agudas e os múltiplos tratamentos psiquiátricos e medicamentosos teimam em falhar. É essa depressão, que o autor insiste em dizer que não sabe se tem origem genética, a grande personagem do livro. E, repito, não há autocomiseração, apenas o relato de vidas complexas e de uma síndrome que afeta milhares de pessoas e que exige tratamento caro e especializado que, como o autor diz, nem sempre está ao alcance de famílias menos abastadas. Enfim, um relato sensível e bem articulado, para se ler como uma história de sofrimento, mas também de superação e de advertência quanto a esse mal terrível que, muitas vezes, não é compreendido, a depressão.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Morte em pleno verão, Yukio Mishima

 Morte em pleno verão, Yukio Mishima


O título do livro refere-se ao título do primeiro dos dez contos dessa obra de um autor que trafega entre o tradicional e a modernidade num Japão de pós-guerra. Todos os contos são primorosos e têm sempre um final aberto, aberto para a imaginação do leitor, ainda que trate temas espinhosos. O primeiro conto trata de uma longa reflexão sobre o luto, já que uma família perde três membros num mesmo evento: dois filhos e a irmã do marido. O segundo conto, “O biscoito de um milhão de ienes” leva-nos a um detalhado momento da vida de um casal que não se define entre um “trabalho estranho” de ambos ou ganhar mais dinheiro. Em “A garrafa mágica”, um reencontro de dois amantes em Nova Iorque traduz as preocupações do autor com a ocidentalização, além de nos levar a um ambiente de sexo e mistério. Já em “O amor do homem santo de Shiga”, Mishima trata da tradição japonesa tanto histórica quanto literária e religiosa, para nos trazer a tensão entre o mundano e o sagrado. Chegamos ao quinto conto, “Até a última ponte”, em que quatro mulheres buscam realizar seus desejos num cerimonial que inclui passar por sete ponte no mais absoluto silêncio. Será que conseguirão? Ironia e um humor sutil pontua o conto. O que faz um trágico contraponto com “Patriotismo”, onde o autor descreve com minúcias uma relação de amor, sensualidade e morte, ao relatar o suicídio ritualístico do casal, talvez antecipando sua própria morte. De arrepiar. Em “Dojoji”, o autor volta-se para o que ele chama de “moderno teatro nô”, misturando elementos europeus e tradicionais na encenação de uma peça de teatro. “Omnagata”traz alguns dos temas obsessivos do autor, com amor, ciúme e transexualidade. Com humor e ironia, os dois últimos contos, “As pérolas” e “Papel-jornal” trazem reflexões sobre ética, quando um grupo de mulheres se reúne para um chá e a pérola de um anel desaparece; e quando a jovem e bela esposa de um ator famoso não se conforma com o destino do bebê da babá de seu filho e imagina reencontrá-lo já adulto dormindo num parque, num final surpreendente e misterioso, como quase todos os textos desse livro mais do que interessante, instigante e de leitura absolutamente envolvente. A milenar literatura japonesa não nega fogo, nunca. Seus autores modernos e contemporâneos constituem uma deliciosa surpresa para quem gosta de boas histórias e excelente literatura.


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Nossa parte de noite, Mariana Enriquez

Nossa parte de noite, Mariana Enriquez


A violenta ditadura militar na Argentina durou de 1976 a 1983, tempo suficiente para atrocidades como tortura, prisão e morte de milhares de pessoas, bebês sequestrados etc. O tempo do romance “Nossa parte de noite” ultrapassa o tempo da ditadura, tanto para trás como para frente, mas tem como pano de fundo principal os horrores cometidos pelos militares. A história do romance é longa e complexa. Uma sociedade secreta, trazida da África para a Argentina há séculos é comandada pela família Reyes, cujos membros, em busca da eternidade, realizam rituais para uma entidade chamada Escuridão, para os quais há necessidade de um médium. Menino ainda, Juan foi detectado com um poderoso xamã para a seita e a família o adotou, principalmente porque ele precisava de cirurgias complexas para salvar sua vida. Juan cresceu dentro dos rituais, como médium, sabendo, no entanto, que a Escuridão consumia sua vida e ele teria pouco tempo de vida, além do fato de que esses rituais eram extremamente violentos: a entidade exigia muitos sacrifícios humanos, principalmente de crianças e jovens, mantidos engaiolados pela família. Casa-se com uma herdeira dos Reyes, Rosario, e com ela tem um filho, Gaspar. A partir daí, dedica sua vida a tentar proteger esse filho da sanha dos rituais violentos, já que ele seria seu sucessor. Como pai, justamente por saber que a família faria tudo para aprisionar a criança e porque sofre dores terríveis em consequência dos rituais, tem crises alternadas de violência e carinho para com o filho, que cresce sem entender por que o pai tinha tais atitudes para com ele, principalmente depois da morte misteriosa da sua mãe, aos 4 ou 5 anos. Depois que seu pai também morre, Gaspar, herdeiro não só da tradição mediúnica da família, mas também da sua enorme riqueza, é criado por um tio, Luís, irmão de seu pai. Depois que sua melhor amiga de infância desparece misteriosamente, quando seu grupo de amigos invade uma casa assombrada no bairro onde moram, Gaspar cresce com crises diagnosticadas por médicos como sendo várias doenças mentais, sem que se chegue a um diagnóstico definitivo, porque o que ele sofre são as consequências de sua origem. Vai, então, em busca de explicações e se depara com os mistérios da Ordem e da Escuridão, contra as quais trava um combate mental e físico, para não ser envolvido pelos seus rituais, como não desejava seu pai. Uma história, repito, complexa, contada com detalhes de horror e medo, num romance de estilo gótico, por uma escritora que domina a técnica literária com que envolve o leitor da primeira à última página, ao combinar todo o mistério da trama ficcional com os dramas humanos da população argentina, não só relacionados à ferocidade da ditadura, mas também à chegada da Aids. Talvez uma grande metáfora de um período de trevas e sofrimento. P.S.: aqui mesmo, neste blog, o leitor pode encontrar a resenha de outro livro seu: “As coisas que perdemos no fogo”.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Nomadland: Sobrevivendo aos Estados Unidos no século XXI, Jessica Bruder

Nomadland: Sobrevivendo aos Estados Unidos no século XXI, Jessica Bruder


A paixão dos estadunidenses por RVs (veículos de recreação) e trailers teve um primeiro boom na década de 30, mas arrefeceu nos anos seguintes. Mas voltou com tudo, quando a bolha imobiliária estourou em 2008, milhares perderam as casas e os empregos, principalmente a classe média constituída de pessoas mais velhas, os 50+, expulsos do mercado por uma série de motivos, inclusive por etarismo. A solução para essas pessoas não era morar nas ruas, tornar-se homelless (sem teto). Eles passaram a ser sem-casa, não sem teto, porque começaram a adaptar RVs, trailers, ônibus e vans como moradia nômade, para cruzar os Estados Unidos em busca de trabalho temporário e mal pago em grandes empresas, como em galpões da Amazon, ou em colheitas sazonais que exigiam aumento de mão de obra não especializada, para complementar os baixos rendimentos de aposentadorias ou mesmo como forma de sobrevivência. O país se tornou a terra dos nômades. E é dessa população que trata o livro de Jessica Bruder, na verdade uma longa reportagem que mergulha nos Estados Unidos profundos, aquele país que não aparece nas propagandas e não é visto nas grandes cidades ou nas cidades turísticas. O fio condutor da história, que podemos chamar de protagonista, é Linda May, uma semiaposentada de pouco mais de 60 anos ex-quase-tudo: garçonete, caixa de loja de departamento, empreiteira e avó Linda May. A jornalista pega a estrada num veículo de segunda mão, apelidado de “Van Halen”, para se aproximar de seus alvos e conhecer pessoas, além de Linda, como um ex-professor, um executivo do McDonald's, um ministro de igreja, um policial aposentado e veteranos de guerra, entre muitos outros. Relata com sensibilidade suas vidas, seus perrengues, sua criatividade na busca de empregos, na reforma de seus veículos, na busca de lugares seguros para estacionar, na tentativa de evitar encontros com policiais mal-humorados, na realização de encontros e festas em lugares distantes e ermos. Mas, também é uma população que não perde nunca a esperança e tem na força do trabalho, ainda que mal pago, a busca da realização de sonhos que podem parecer até mesmo absurdos, como a da protagonista Linda, que sonha construir em algum local distante uma earthship, casa autossustentável (projetada pelo arquiteto Michael Reynolds), construída com pneus compactados e materiais reciclados. Estamos diante de uma nova realidade que deixa distante a ideia do “sonho americano” de segurança e prosperidade. A autora afirma que os Estados Unidos são, entre os países desenvolvidos, aquele que possui a maior desigualdade social: nas médias salariais, a diferença entre o menor e o maior salário é de 81 vezes. Esse o lado sombrio da “grande nação”, hoje governada por um idiota que gasta bilhões numa guerra absurda contra o Iraque e ameaça o mundo não só com tarifas, mas também com anexação de territórios. Não sei como estão sobrevivendo à era Trump os sem-casa, os nômades que aceitam até mesmo os empregos anteriormente tidos como degradantes, como lavar latrinas, já que o livro termina em 2017, quando a autora nos conta que Linda está começando a realizar seu sonho de uma “earthship”, num terreno localizado na fronteira com o México, no sul dos Estados Unidos. Uma grande reportagem para ser lida por quem não acredita na “terra dos sonhos” ou, para quem ainda acredita tomar um banho de realidade sobre o “grande irmão” do Norte.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Vento em setembro, Tony Bellotto

Vento em setembro, Tony Bellotto


Há muito não mergulhava na voragem de uma boa literatura policial ou de mistério. Enquadra-se mais, aliás, na segunda categoria o romance de Bellotto. E é realmente não um vento, mas uma ventania que nos pega desde as primeiras páginas e nos obriga a ler na velocidade mesma dos acontecimentos narrados. Vou dar apenas um pequeno vislumbre da trama, para poder comentar um pouco mais esse livro. Na década de 70 do século passado (e isso está ali mesmo e parece que foi há muito tempo), um poderoso fazendeiro de soja da cidade do interior de São Paulo, Assis, promove uma orgia com inúmeros convidados e prostitutas da região, para o “descabaçamento” do filho mais novo, Alexandre. Contrata para o “evento” uma famosa prostituta de São Paulo, a deslumbrante Laura, que tem um irmão gêmeo homossexual. O garoto, tímido e desconfortável com tudo aquilo, resolve simplesmente desparecer da festa, que transforma, não só a festa, mas também a vida de Máximo Leonel e sua família, a mulher e seus dois outros filhos num pandemônio. Até aí, pensamos que estamos diante de um narrador onisciente, mas logo após a tal orgia, apresenta-se a nós a personagem Davi Zimmerman como sendo o narrador da história – e personagem! Jornalista e escritor, publicou um livro em que mistura fantasia e realidade sobre a vida de Aleijadinho. Numa sequência intrigante, baseada nas informações do livro, alguém começa a pichar os profetas e muros de igrejas de Congonhas e Ouro Preto, com a frase de Nietzsche, “Deus está morto”, o que o leva a se envolver numa complexa trama que resulta na busca, meio edipiana, de seu passado, de sua identidade, aí sim, numa voragem de acontecimentos de deixar o leitor sem fôlego. A literatura dita de mistério, ou policial, não tem por tradição mergulhos psicológicos ou digressões filosóficas, ou seja, as personagens não se verticalizam ou só o fazem através da ação. E ação é o que não falta no excelente romance de Tony Bellotto, além de uma quantidade enorme de referências culturais e citações, o que me deixou encantado por reconhecê-las quase todas, desculpando-me o leitor destas linhas a modéstia, Enfim, para quem gosta de literatura de mistério, sem dúvida, uma obra altamente recomendável para se ler num fim de semana friorento, degustando um vinho, que boa diversão não faltará.


sexta-feira, 10 de julho de 2026

História da Revolução Russa – 3º volume – O triunfo dos sovietes, Leon Trotsky

 História da Revolução Russa – 3º volume – O triunfo dos sovietes, Leon Trotsky



No estilo característico do autor, em que não se limita a narrar os fatos, mas comentá-los e descrever cada situação de forma detalhada, em suas minúcias políticas e sociais, esse terceiro volume da História da Revolução Russa, contempla os eventos que levaram ao “triunfo dos sovietes”, em outubro 1917. Detalha o planejamento estratégico dos bolcheviques a partir dos percalços provocados pela insurreição contrarrevolucionária de Kornilov em 27 de agosto; a prisão e a liberação de Trotsky; a formação do último governo de coalizão, com Kerensky como presidente; a tomada paulatina dos sovietes pelos bolcheviques e toda a preparação militar para o golpe final contra o governo de Kerensky. A insurreição começa às 2 horas da madrugada de 25 de outubro e o Conselho da República é fechado pelas tropas ao meio-dia. Lenine faz a sua primeira aparição pública numa sessão do Soviete de Petrogrado, às 3 horas da tarde e esse é um capítulo muito especial em todo o livro. A partir daí o Palácio de Inverno cai e o Governo Provisório é preso, o Segundo Congresso Nacional dos Sovietes decreta sobre paz e território e fixa o novo governo dos Conselhos dos Comissários do Povo, nos dias 26 e 27 de outubro. Estava consolidada a vitória bolchevique. Nas mais de 500 páginas do livro, Trotsky detalha o posicionamento de cada partido político, as divergências entre eles e até mesmo as divergências entre os próprios bolcheviques, as intervenções de Lenine, consideradas cruciais para a vitória final. Há em todo o texto uma profunda análise marxista e sociológica sobre a dinâmica das massas, ou seja, dos proletários, dos soldados e dos camponeses em todo o processo de união e de convencimento dessas populações, para tomarem consciência de sua situação e da possibilidade real de tomarem o poder. Consolidado o primeiro governo operário, Trotsky ainda discute longamente a internacionalização da Revolução, porque tanto ele quanto Lenine acreditavam que os sovietes só conseguiriam manter o poder na Rússia, se os operários também tomassem o poder nos demais países da Europa, já que as condições do capitalismo na Rússia e sua situação de país subdesenvolvido não conteria as condições ideais para manter um governo marxista, como ocorria na França, na Inglaterra etc. A saga da Revolução Russa, contada por alguém que participou diretamente dos eventos que levaram à vitória do primeiro governo marxista no mundo, num país complexo como a Rússia, tem realmente um sabor todo especial para qualquer leitor que se interesse por política, pela História e pelos destinos da humanidade, já que é um evento exemplar e único, apesar de seu término melancólico no final do século XX.

sábado, 20 de junho de 2026

História da Revolução Russa – 2º volume – Tentativa de contrarrevolução, Leon Trotsky

História da Revolução Russa – 2º volume – Tentativa de contrarrevolução, Leon Trotsky


A revolução de fevereiro de 1917 foi vitoriosa na sua finalidade de derrubar o tzarismo, mas o governo provisório liderado principalmente por Kerensky mergulhou em crises e não realizou os ideais das classes populares e, principalmente do bolchevismo, de entregar o poder ao povo. Acabou se aproximando muito mais da burguesia e aliou-se às forças golpistas do ministro da guerra, Kornilov, enquanto a própria guerra contra a Alemanha corroía as finanças do país. A tentativa de golpe de estado burguês ocorreu nas chamadas “jornadas de julho” que só foram esmagadas por incompetência dos golpistas, pelas contradições internas do governo e pela reação do povo e das forças progressistas. A politicagem, no entanto, continuava a pleno vapor dentro do governo provisório, dividido em várias correntes políticas que não se entendiam e disputavam o poder. A burguesia defendia pautas contrarrevolucionárias, defendendo seus privilégios. Nesse estado de conflitos políticos, os bolchevistas, que defendiam a entrega do poder aos sovietes, sofreram um rude golpe: seus líderes foram presos, principalmente Trotsky, enquanto Lenine se mantinha na clandestinidade, perseguido por uma notícia falsa, difundida pela burguesia, que quase liquidou o bolchevismo. As forças reacionárias conseguiram empastelar o principal jornal bolchevista e, donos da imprensa, acusaram os bolchevistas de serem espiões da Alemanha e Lenine, não só de ser espião, mas ser financiado pelo inimigo. A luta para recuperar o prestígio dos bolchevistas e todas as complexas negociações políticas dentro e fora do governo nesse período conturbado são detalhadamente relacionadas, historiadas e comentadas por Trotsky, no seu estilo de ir às minúcias e às entranhas da situação, o que faz que a leitura desse segundo volume exija uma atenção redobrada do leitor, principalmente pelas inúmeras personagens e citações nesse emaranhado de forças políticas de uma sociedade perplexa e complexa, que busca entender o que está acontecendo e realizar o seu destino, que é o ideal bolchevista de entregar o governo ao povo, o que vai acontecer, como todos sabem, somente em outubro. Mas a narrativa dessa revolução ficará para o terceiro volume.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

História da Revolução Russa – 1º volume – A queda do tzarismo, Leon Trotsky

História da Revolução Russa – 1º volume – A queda do tzarismo, Leon Trotsky


Vinha adiando a leitura dos três volumes da história da Revolução Russa, porque achava que iria ser uma leitura complexa, de um intelectual, Trotsky, de estilo rebuscado e baseado em teses complexas. No entanto, embora tenha sido, esse primeiro volume, uma leitura lenta, nele encontrei um estilo bastante agradável, fácil de ler e assimilar. Eu disse fácil? Não é bem assim: o estilo é, sim, fácil, mas estamos diante da narrativa de fatos complexos, a revolução de 1917 que levou ao poder os bolcheviques, na Rússia. E a Rússia não é um país fácil de entender: muitas são as forças que se entrechocam e se entrechocaram desde a primeira tentativa, em 1905, – fracassada – de derrubar o regime comandado por Nicolau II e seu influente curandeiro Rasputin. Os primeiros capítulos do livro traçam uma breve história da Rússia e dos imperadores, situando o leitor no contexto político da corte e do país. Em seguida o autor passa a nos relatar, numa crônica de grande precisão de detalhes, todo o contexto e todas as motivações que levaram à revolução de fevereiro de 1917, quando o poder muda de mãos, não ainda para os bolcheviques, mas para líderes que tinham ligações com a burguesia, o que contrariava imensamente o povo e os soldados que participaram da derrubada do tzarismo (ou czarismo). São relatados todos os movimentos dos partidos, que concorrem entre si; são lembradas todas as ideologias que conviviam nesse tempo confuso e de grande inquietação popular. A chegada de Lenin, pela estação Finlândia de Petrogrado, em 16 de abril de 1917, é uma das páginas mais interessantes do livro, pois o líder bolchevista volta de um longo exílio para unir os bolchevistas e atrair para o partido muitos outros seguidores, já que o bolchevismo ainda era minoria. Prepara-se, então, a tomada do poder pelo povo, o que só vai ocorrer em outubro, dez meses depois da deposição do tzar. Toda a movimentação política e ideológica que leva à revolução ocorre num momento em que a Rússia está envolvida com a primeira guerra mundial, sendo um dos países que formava a chamada Tríplice Entente juntamente com França e o Reino Unido, que combatia a chamada Tríplice Aliança, formada pela Alemanha, o Império Austro-Húngaro e a Itália. E esse fato é um grande complicador para os partidos de esquerda, envolvendo discussões sobre a continuidade da guerra e o interesse do partido no poder de usar a guerra para ampliar os domínios da Rússia, o que a tornaria um estado colonialista. Uma observação importante: citam-se dezenas de personagens que participaram dos eventos de 1917, alguns historicamente conhecidos, mas a maioria só pode mesmo ser lembrada por quem conhece profundamente a história desse momento na Rússia. No entanto, não se preocupe o leitor, já que isso não impede o entendimento dos fatos detalhadamente narrados por Trotsky. Enfim, esse primeiro volume não me assustou e não deve assustar a quem quer que deseje conhecer por dentro um dos acontecimentos mais marcantes da história do século XX.

terça-feira, 19 de maio de 2026

Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, Carolina Maria de Jesus

Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, Carolina Maria de Jesus


Por que ler Carolina Maria de Jesus hoje? Talvez esta não seja a pergunta correta, e sim: como ler Carolina Maria de Jesus hoje? Os tempos mudaram desde a publicação do livro “Quarto de despejo”, em 1960. Seu diário, que chocou a burguesia da época, cobre os anos de 1955-1960, parece um tanto ingênuo ao leitor de hoje, acostumado a ver nas “comunidades” (o nome politicamente correto para as favelas) a violência do tráfico juntamente com problemas recorrentes (embora num outro nível) dos anos cinquenta: falta de infraestrutura, ausência do Estado, preconceito das forças policiais, que veem em cada favelado um traficante, muita violência etc. etc. etc. Nossa escritora lá dos tempos do Juscelino, e é bom que marquemos isso, narra problemas de infraestrutura, muita pobreza, relacionamentos complicados e violência entre os moradores e, principalmente, a fome, muita fome (que é talvez a palavra que mais aparece no livro). Hoje a fome tem outros nomes, mais pomposos, como “insegurança alimentar”, mas ainda ronda muitas comunidades, ainda que em nível diferente do que acontecia na favela do Canindé, que existia às margens do Tietê, onde passa hoje uma grande e movimentada avenida, e onde tentava sobreviver catando papel nas ruas a nossa heroína e escritora. Tem ela noção exata de seu grau de pobreza e tem claras noções de política, já que critica todos os políticos, que só aparecem em tempos de eleição, eles, inclusive o presidente Juscelino, e com razão, já que seu governo se voltou para o desenvolvimentismo e esqueceu o lado social. É interessante notar que Carolina não fala de suas origens (ela é mineira de Sacramento, nascida provavelmente em 1914), nem como veio para São Paulo e acabou na favela. Também fala muito pouco de sua vida íntima, de seus amores. Só sabemos que tem três filhos pequenos (uma menina e dois meninos, provavelmente de pais diferentes). Seu diário foca, ressaltamos, o dia a dia da favela e os perrengues que todos passam para sobreviver à extrema pobreza, à desigualdades de classe, de gênero, de raça e à falta de perspectiva. Para concluir esse breve comentário, o diário de Carolina foi descoberto pelo repórter Audálio Dantas e foi um grande sucesso que, se permitiu que ela deixasse a favela, não lhe trouxe riqueza nem condições de viver dignamente até sua morte, de novo empobrecida, em 1977. Então, respondendo à pergunta, antes de encerrar: como ler Carolina hoje? – digo que se deve ler com o mesmo espanto de há mais de 70 anos, por ter o Brasil progredido tanto e não ter ainda resolvido a questão da desigualdade social.



domingo, 10 de maio de 2026

Elizabeth Costello, J. M. Coetzee

Elizabeth Costello, J. M. Coetzee


Elizabeth Costello é uma romancista australiana idosa que viaja pelo mundo dando palestras sobre temas variados, mas principalmente sobre as maldades que os seres humanos fazem com os animais, sobre a censura literária e vários outros temas. Numa viagem à Pensilvânia, com o filho John, para receber um prêmio, fala sobre Kafka, mas suas palavras não encontram boa repercussão entre o público, que não a compreende. Parece que ela se perdeu naquilo que era o seu principal métier de escritora de um antigo livro de sucesso, chamado A Casa da Rua Eccles, em que ela se apropria de uma personagem do romance Ulisses, de James Joyce, para contar a história da esposa do protagonista, Molly Bloom, sob a perspectiva feminista. Ou seja, está perdendo o jeito e a forma de encantar o público com suas palavras. Também num cruzeiro onde deve falar sobre realismo os aplausos são pouco entusiasmados. Na verdade, Elizabeth Costello é uma espécie de alter-ego de Coetzee que, através dela, desenvolve vários temas filosóficos e complexos da vida contemporânea. A palestra sobre o sofrimento dos animais, por exemplo, tem a coragem inaudita de tocar num tema sensível que é o holocausto, para comparar, grosso modo, o que os seres humanos fizeram uns com os outros no regime nazista e o que fazem com animais que consomem. Ao levar sua protagonista para a África, ao encontro de uma irmã que não vê há muito tempo e que realiza ali um trabalho humanitário, o autor discute através dela o conceito de humanidades e a filosofia grega, mostrando um certo desconforto para com os rumos que essas filosofias tomaram. No final do livro, a velha senhora se encontra numa espécie de limbo kafkiano, tentando explicar suas crenças diante de um tribunal absurdo, sem que se consiga chegar a uma conclusão satisfatória de sua filosofia de vida. Não é um romance fácil, ou melhor, nem tem exatamente a estrutura de um romance, mas sim de um quase um monólogo em que a personagem Elizabeth Costello está em busca de si mesma, através de suas palestras às vezes muito complexas e difíceis de entendimento pelo público a quem essas palestras se dirigem. Mas, tenho certeza de que um leitor atento e persistente ganhará muito com a leitura desse livro: a palestra sobre os animais, por exemplo, apesar de polêmica, é de arrepiar, pela beleza literária do texto e pelas questões éticas e humanas que levanta. Aliás, mesmo quando aborta temas como censura ou a dificuldade dos tempos atuais de entender os gregos ou aquilo a que chamamos humanidades, estamos sempre diante de um mestre da palavra a nos encantar com um estilo requintado e ao mesmo tempo envolvente.

sábado, 2 de maio de 2026

A cidade do sol, Khaled Hosseini

A cidade do sol, Khaled Hosseini


Um soco no estômago. Talvez o romance mais triste e cruel que já li. Uma coisa é ler reportagens sobre guerras, conflitos internos entre facções rivais, torturas de cidadãos por grupos que assumem o controle de uma região ou país, atentados terroristas etc. Outra coisa, muito diferente, é ler esses relatos todos sob a óptica de um escritor que ficcionaliza a realidade para melhor retratá-la. É o que faz o escritor afegão Khaled Hosseini, de quem já havia lido o também excelente “O caçador de pipas”. Este romance – “A cidade do sol” – foi lançado em 2007 e é importante marcar essa data. Conta a história de duas mulheres, duas jovens mulheres: Mariam, a mais velha, viveu até os 14 anos no interior do Afeganistão, filha bastarda de um rico comerciante que, ao morrer a mãe da garota, entrega-a como esposa a um violento sapateiro de Cabul; Laila nasceu e vive na capital, é filha de um intelectual e cresceu sendo incentivada a estudar e buscar uma carreira. Vizinhas, as duas só vão se encontrar mais tarde, quando, em pleno conflito entre facções políticas, entre os anos de 1990 e aproximadamente 2003, a família de Laila é dizimada pelos mísseis e ela é salva dos escombros por Mariam, que a leva para ser cuidada em sua casa, já que a infraestrutura do país está um caos e os hospitais, quando ainda existem, estão lotados de feridos e a cidade coalhada de mortos, além de patrulhada por bandos de milicianos armados e prontos a atirar em qualquer um. A juventude da garota não impede que o violento marido de Mariam, já desgostoso da mulher, que não consegue lhe dar um filho, a tome como segunda esposa. A partir daí, a vida de ambas vira um inferno, não só por causa da guerra, mas principalmente diante da violência do homem, incentivado pela tomada do poder pelos talibãs em 1996. A história do livro só termina em 2003, quando os talibãs são derrotados e a vida de uma das garotas, a sobrevivente, começa a melhorar, com a retomada da reconstrução do país. Marquei a data de lançamento do romance – 2007 – porque nessa época o Afeganistão ainda vivia sob um regime democrático e o autor comemora, quando encerra sua história em 2003, a condição de liberdade de suas personagens sobreviventes. No entanto, para terminar esse breve comentário sobre esse livro extraordinário, os talibãs voltaram ao poder em 2021, impondo de novo a interpretação estrita da sharia e transformando, de novo, a vida dos cidadãos e, principalmente restringindo e oprimindo as mulheres, com suas proibições absurdas. Ressalvado esse aspecto terrível da história do Afeganistão, o livro é uma lição e uma advertência para todos em relação aos sofrimentos causados pelas guerras e também em relação à mais do que perigosa mistura de política e poder com religião, além de ser uma grande obra da literatura mundial desse início de milênio tão conturbado por guerras e genocídios.


sexta-feira, 24 de abril de 2026

Mil tsurus, Yasunari Kawabata

 

Mil tsurus, Yasunari Kawabata


Admiro a literatura oriental, principalmente a japonesa. E, com certeza, Yasunari Kawabata tem sido uma leitura mais do que prazerosa (já comentei, do autor, “A casa das belas adormecidas” e “Beleza e tristeza”). Neste curto romance, “Mil Tsurus” (que, no Brasil, também recebeu o título de “Nuvens de pássaros brancos”), a prosa mágica e poética do autor voltou a me seduzir. Escrito entre 1949 e 1952, a história acontece em torno de uma tradição milenar japonesa: a cerimônia do chá, descrita sob vários pontos de vista das personagens e com a habilidade envolvente do autor. São poucas as personagens: Kikuji Mitani (um jovem adulto de 24 anos); Chikako Kurimoto e a viúva Ota (ambas ex-amantes de seu pai), Yukiko (a jovem pretendente ao casamento com Kikuji) e Fumiko (a jovem filha da senhora Ota). Os pais de Kikuji já morreram e, do passado, ele tem lembranças complexas do pai. Aos cinco anos, levado por ele à casa de sua amante Chickako, surpreende a mulher cortando pelos horríveis de uma mancha no seio. Isso marca o menino e se torna inesquecível na vida do adulto. Quase 20 anos depois, a mesma mulher, que é mestra na arte da cerimônia do chá, convida-o a vir à sua casa, porque lhe quer apresentar uma bela jovem e comemorar, com uma cerimônia do chá, os cinco anos da morte do pai dele, a se completar em breve. A partir dessa cerimônia do chá, Kikuji acaba se envolvendo também com a outra ex-amante do pai, a bela e ainda sensual senhora Ota, e com sua jovem filha, numa história complexa de resgate de valores familiares e de sentimentos conflituosos, numa trama envolvente de intrigas e ressentimentos, narrados, no entanto, com a sutileza e a delicadeza de Kawabata, um mestre no aprofundamento e na compreensão do universo feminino, através de personagens realmente inesquecíveis. Por isso e por muitos outros motivos, posso dizer que é um escritor que, sem dúvida, sempre nos surpreende pela capacidade de nos envolver em seus enredos, com histórias humanas, profundamente humanas.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Emma, Jane Austen

Emma, Jane Austen



Publicado em 1815, “Emma” é o típico romance de fim do século XVIII, quando ainda é tímida a mudança da sociedade inglesa, impactada pela revolução industrial, quando as elites entram em decadência e começam a surgir as classes burguesas, alimentadas pelo capitalismo. O cenário é uma pequena cidade a 25 km de Londres, na verdade quase um subúrbio. Ali ainda moram os “nobres” proprietários de terra, uma gente ociosa que vive do trabalho alheio, os “bem-nascidos”, detalhadamente retratados no romance, com seus usos e costumes fincados na tradição e no chamado “sangue”. Essa a primeira “camada” social. Em seguida, já se percebem alguns cidadãos que ascendem à sociedade, por serem fazendeiros, comerciantes etc., a nova e ainda tímida burguesia, constituindo a segunda “camada” social, aquela que, no romance, ainda causa com uma certa justiça arrepios na nobreza, pois irá, pouco a pouco, decretar sua decadência e uma mudança profunda de costumes. . A terceira “camada” são os criados, cocheiros, domésticas etc., ou seja, a classe de trabalhadores braçais que sustenta o luxo e a ociosidade dos nobres, cujos nomes raramente são citados no romance, uma gente praticamente “invisível”. Nesse cadinho da pequena cidade interirorana, pontifica a família Woodhouse, constituída pelo patriarca, viúvo sedentário e cheio de achaques e pelas suas filhas Emma e Isabelle, sendo que essa última já é casada e mora com o marido e os filhos em Londres. Emma cuida do pai e administra a casa. A história começa com o casamento da governanta que cuidou de Emma desde os cinco anos de idade, que vai morar com o marido a 800 metros da casa, o que mantém o vínculo de amizade que os Woodhouse sentem pelo casal. Esse casamento, lamentado profundamente pelo pai de Emma, que não se conforma em perder a governanta e é contra casamentos, ironicamente foi “arranjado” pela filha, jovem de 20 anos, muito bonita, inteligente e encantadora, que está decidida a jamais se casar, mas que se descobre, então, como um talento para aproximar casais. Por essa razão, resolve aproximar sua nova amiga, Harriet, uma jovem órfã e muito bonita, de um dos frequentadores da casa, o senhor Elton, para desespero de outro amigo e habitué dos Woodhouse: George Knightley, que ganhará grande importância no enredo do livro. Esse é o estopim para as inúmeras histórias e intrigas do romance. Bem, são muitas as personagens e muitas as tramas e subtramas desse microuniverso da sociedade inglesa. A autora não poupa detalhes e características da vida e das relações de cada uma, traçando um painel impressionante desse momento de transformações em que estão todos imersos, sem terem noção disso. Com humor e ironia sutis, leva o leitor pelos meandros dos sentimentos, dos amores, das decepções, dos sonhos, dos mistérios e segredos de cada personagem, numa prosa tranquila e bem articulada, numa lenta, mas, sem dúvida, interessante saga de uma jovem casamenteira e seus amigos e vizinhos, na Inglaterra do início do século XIX, justificando a fama de ser uma das grandes escritoras de língua inglesa. Um romance para se ler com calma, sem preconceitos, e usufruir cada capítulo, cada parágrafo, cada situação narrada e detalhada como típico romance de época. Uma época que parece tão distante da nossa, mas que, na realidade, forjou o mundo em que vivemos.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

O Verdadeiro Criador de Tudo, Miguel Nicolelis

O Verdadeiro Criador de Tudo, Miguel Nicolelis


Nos últimos 30 anos, a neurociência conseguiu avanços incríveis no estudo do cérebro humano, embora ainda haja muita coisa a ser estudada e descoberta com relação a essa incrível “criação” da evolução. Dentre muitos pesquisadores, sem dúvida Nicolelis tem uma posição de proa. Nesse livro, usa os primeiros capítulos para descrever inúmeras experiências e descobertas não só de suas pesquisas, mas também de outros cientistas, recheando as páginas do livro com descrições que eu, como leigo, tive muita dificuldade de compreender em sua totalidade. Mas essas dificuldades não devem servir de desânimo a qualquer leitor que também não seja versado em neurociência, pois, a partir desses relatos de experiências e teses complexas, o autor nos brinda, na segunda parte do livro, com suas teses sobre a origem e a evolução do cérebro humano, em textos de muita clareza e discernimento. E então, nos leva a uma viagem fantástica aos princípios mais importantes de suas teorias a respeito da capacidade do cérebro humano. É impossível resumir tudo numa resenha como esta, mas vou destacar duas das mais interessantes, pelo menos para mim, de suas teses. A primeira diz respeito à própria organização de nosso cérebro, ou seja, para o autor, ele é composto, a grosso modo, de duas grandes capacidades, que ele chama, a primeira de “capacidade de armazenar e processar conhecimentos”, que seria o seu lado, digamos, “computacional”; a segunda, a capacidade de criação, de imaginação, que levou o ser humano a criar as ciências, as artes, a civilização, enfim, ou seja, seu lado “orgânico”. E isso explica, segundo Nicolelis, por que é impossível que se venha a criar um “cérebro eletrônico” ou uma “inteligência artificial” que possa competir com o cérebro humano, pois lhe faltaria esse lado “orgânico”, a criatividade, a capacidade de criar algo novo a partir do conhecimento obtido: as máquinas só conseguem “processar” a partir do que elas armazenam, não conseguem e não conseguirão jamais inventar algo realmente novo. A segunda tese tem a ver com a capacidade de os cérebros humanos se conectarem no que ele chama de “Brainets”, redes cerebrais conectadas, para, num determinado momento histórico, muitos indivíduos desenvolverem novas ciências, novas ideias que promovem a evolução da sociedade humana. E cita vários exemplos, dando-nos uma verdadeira aula de história, de filosofia, de conhecimento das artes e de várias outras criações magníficas da capacidade humana. Ao final, ainda nos alerta que a capacidade orgânica do cérebro humano pode ser também o fator de “emburrecimento” (termo meu) do gênero humano, ao usar sua capacidade de adaptação às máquinas e, não exatamente, ser dominado por elas, mas se acomodar a não mais criar, ao deixar que elas, as máquinas, façam todo o trabalho. Esse tema e todos os temas do livro são complexos, mas são desenvolvidos ad nauseam. Concluo afirmando que há muito o que ler e aprender e discutir, como resultado da leitura dessa obra inequivocamente provocadora e fundamental para nos colocar a par do que vem sendo descoberto na área da neurociência. E do muito que ainda há para se descobrir.