quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Se um viajante numa noite de inverno, Italo Calvino


Se um viajante numa noite de inverno, Italo Calvino


Se você veio até este blog e está começando a ler este texto, é porque você é um leitor ou uma leitora voraz. Ou seja, você gosta de livros. Então, vai gostar de ler o livro de que pretendo falar um pouco: Se um viajante numa noite de inverno. E mais: você deve estar familiarizado com vários autores que aparecerão referenciados aqui e são citados pelo autor no livro em questão. Primeiro, não é possível resumir o livro de Calvino, sem tirar o prazer da leitura. Portanto, vou tentar falar dele sem exatamente falar dele, se é que você me entende. Segundo, a surpresa do livro do Calvino é que você, Leitor, e você Leitora, são os protagonistas do livro. Como? Isso você vai descobrir através das inúmeras surpresas que o autor nos traz nesse livro que pode ser definido como um romance caleidoscópico. E tiro essa ideia de um dos “romances” inventados ao decorrer do enredo que é, ao mesmo tempo, complexo e simples, por mais paradoxal que seja. Explico primeiro o caleidoscópio: uma das personagens se diz colecionadora de caleidoscópios, algo inusitado. Explico o paradoxo: perdemo-nos às vezes no cipoal de textos, mas tudo vai-se tornar bastante simples, ou aparentemente simples, no final, quando você, Leitor e Leitora, ficarão muito felizes, talvez como nos contos de “Mil e uma noites”. Há uma outra pista interessante dentro dos textos (inacabados, ouso antecipar) que o autor vai empilhando para nosso deleite e, às vezes, para nos desafiar: é quando ele cita o cãozinho Snoopy que, do alto de sua casinha, pretende sempre começar uma história e não passa da primeira linha: “era uma noite escura e tenebrosa” ... Outra chave do romance, entre várias outras, mas talvez a mais interessante, é Jorge Luis Borges. Se tivesse vivo à época do lançamento e lesse, com seus olhos cegos, o livro de Calvino, certamente o autor argentino se deliciaria e até mesmo imaginaria que esse é um livro que ele gostaria de ter escrito, por gostar de enigmas, por gostar de labirintos, por gostar acima de tudo de livros. E os vários círculos que se vão abrindo ou fechando em dez textos instigantes até nos lembram os círculos não do inferno, mas do purgatório e a ascensão de Dante até o paraíso, quando ele será guiado por sua musa Beatriz e vocês, Leitor e Leitora, também acharão o paraíso (ou não, isso será com vocês). Então, caros Leitor e Leitora, esse é um livro para os que adoram degustar um bom livro, um livro que diverte e, ao mesmo tempo, desfia nosso intelecto e nosso prazer de ler.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Um quarto com vista, Edward Morgan Forster (E. M. Forster)



Um quarto com vista, Edward Morgan Forster (E. M. Forster)


Publicado em 1903, o romance tem ainda o vezo dos românticos ingleses, com narrativas que envolvem a burguesia decadente, mas ainda sobrevivendo e gozando do ócio provindo de heranças milionárias. A história começa com uma viagem à Itália de um grupo de ingleses, entre eles a mocinha bem-comportada e de família tradicional, Lucy Honeychurch, sofrível pianista amadora, desconfortável com as relações de preconceito entre o próprio grupo e outros ingleses que participam da trama, por questões de classe e também sofrendo com um certo choque cultural em relação aos italianos, vistos, muitas vezes, como sem finesse, a famosa e artificial finesse inglesa. Num dos passeios pelos arredores de Florença, um pequeno episódio, que hoje diríamos de paquera, entre ela e o jovem George Emerson, em que rola até mesmo um beijo, algo extremamente perturbador para as jovenzinhas recatadas da época, vai alterar profundamente as ideias e aspirações de Lucy que, ao voltar para a Inglaterra, se vê envolvida numa promessa de casamento por interesse com um jovem inglês extremamente convencional e machista, Cecil Vyse. Suas convicções são postas à prova, quando George e o pai alugam uma casa próxima à vila onde ela mora com a mãe. Paremos por aqui, quanto ao resumo do livro, para não revelarmos demais do enredo. A história toda se sustenta principalmente através de um narrador onisciente, muito onisciente, que perscruta os pensamentos das personagens e tece considerações de natureza até mesmo filosófica, mas principalmente reflexões sobre a situação, as dúvidas e os anseios das personagens, ao longo de todo o romance. Embora pareça uma dessas histórias açucaradas de amor, já vislumbramos, no entanto, uma certa condescendência e até mesmo alguma defesa da libertação das mulheres, em termos de condução de seu próprio destino e de suas vidas, sem as amarras dos preconceitos e das imposições sociais. Enfim, li e me diverti com a narrativa de Forster, notando no autor alguns aspectos modernos, além dos ranços ainda arraigados da burguesia inglesa, ociosa, preconceituosa e enrolada em inúmeras regras de conduta social.

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

A narrativa de Artur Gordon Pym, Edgar Allan Poe

A narrativa de Artur Gordon Pym, Edgar Allan Poe


Positivamente, não é romance “comum”, principalmente por ter sido o único escrito pelo autor, em 1838, renomado contista e poeta. Complexo e detalhista, tem como narrador o jovem que dá título ao livro, o que nos leva a uma estranheza, principalmente pelo final brusco e inacabado. Não é fácil lidar com todos os termos e detalhes náuticos, tanto em relação às denominações ligadas às diversas peças dos navios da época, quanto às posições geográficas das viagens narradas, embora tais termos, se o leitor não se preocupar com eles, não interferem significativamente na leitura. Vamos a um breve resumo da obra. A história se passa entre 1827 e 1828 e narra a trajetória do jovem Arthur Gordon Pym, que embarca clandestinamente em um baleeiro chamado Grampus. Isolado num compartimento insalubre, espera durante muitos e muitos dias o aviso do amigo Augusto para sair daquele local, o que só acontece depois de um motim a bordo. A partir daí, diversas aventuras e desventuras acontecem com Pym, incluindo naufrágio, canibalismo, muita fome e sede, antes de ser salvo pela tripulação do Jane Guy. A bordo deste navio, Pym e um marinheiro chamado Dirk Peters continuam suas aventuras rumo ao sul, já que somente eles dois se salvaram do naufrágio do Grampus. Numa região do Pacífico próxima ao polo sul, encontram, numa ilha, nativos hostis de pele negra, que massacram toda a tripulação da escuna Jane Guy. Somente Pym e Peters conseguem escapar e voltar para o oceano numa embarcação precária capturada aos indígenas. O romance termina abruptamente com Pym e Peters seguindo em direção ao Polo Sul. Uma breve nota pós-escrita, aparentemente escrita pelos editores do livro, explica que Pym morreu em um acidente e especula que seus dois ou três últimos capítulos se perderam com ele, embora assegurem ao público que os capítulos serão restaurados ao texto caso sejam encontrados. A nota explica ainda que Peters está vivo em Illinois, mas não pode ser entrevistado no momento. Há muitas referências náuticas de navegadores do século XVIII e influência de vários autores, como Daniel Dafoe (Robinson Crusoé), e outros que defendiam teorias estranhas, como a da terra oca, o que explica alguns detalhes das águas polares, de cores e temperaturas não condizentes com a realidade. Para terminar esse breve comentário, acrescento que, apesar de toda a estranheza e mesmo toda a violência de algumas cenas, essa aventura náutica teve defensores (e também detratores) ferrenhos e influenciou muitos autores posteriores, como, Henry James e Arthur Conan Doyle, além de ter sido fortemente elogiado por Jorge Luís Borges.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

A natureza da mordida, Carla Madeira

A natureza da mordida, Carla Madeira


O relato é recheado de citações. Podem-se reconhecer algumas, não todas. Felizmente a autora nos dá um regalo: ao final do livro, um apêndice com a relação de todas as referências. Mas isso é o menos importante. Vamos à história. Olívia tem um mistério – que parece banal – a resolver na sua vida: porque, aos 16 anos, sua amiga de infância e adolescência, sua melhor amiga, de repente, do nada, rompeu a amizade: “Vai embora. Não volte.” Esse mistério vai-se enlaçar com outro mistério, o da filha de uma amiga recente: por que o pai, marido exemplar, amorosíssimo com a filha, aos 16 anos da garota, vai embora de casa, de repente, sem dizer nada. Simplesmente, some. Os dois mistérios se entrelaçam, e iremos descobrir com a narradora, que um é fruto de mal-entendido moral e o outro, de um motivo também profundamente moral. Não vamos revelá-los aqui, é óbvio. Um resumidíssimo relato do enredo. Aos domingos, no centro de Belo Horizonte, uma feira tem entre seus expositores a barraca de um sebo, cujo dono oferece cadeiras de leitura e café com pão de queijo aos seus clientes, entre eles, uma senhorinha aposentada, muito culta, psicanalista e leitora voraz, que se diz chamar Biá, mas na verdade se chama Emma, que se senta sempre no mesmo lugar. Um domingo, esse lugar está ocupado por uma jovem de pouco menos de 30 anos, muito bonita, que, ali sentada, escreve e chora. Biá aproxima-se, querendo retomar seu lugar preferido, mas aceita compartilhá-lo com Olívia, e ambas firmam uma amizade que prosseguirá por vários domingos, por vários encontros, em que compartilham confidências. Quando Biá adoece, Olívia vai visitá-la e lê para ela toda a história de sua relação com a melhor amiga, num longo capítulo que resume bem a vida de uma cidade conservadora, mas que tem points de reunião onde sua juventude gasta a libido que a sociedade reprime. O capítulo é estranho, parece que a autora caiu num relato de clichês e eu, como leitor, apesar de me divertir um pouco com a narrativa, achei que ela não estava à altura do que prometiam os primeiros curtos e belos capítulos do romance. Ledo engano: é o prólogo para uma aventura complexa, de relações humanas profundas e confusas, onde mergulhamos com a autora na busca de mistérios insondáveis das tragédias humanas e dos mais profundos e inconfessáveis desejos do ser humano, num relato que nos revela a potência de uma escritora que não deixa a peteca cair (para fazer um trocadilho com um dos esportes preferidos dos moradores de Belo Horizonte, pelo menos nos tempos em que se passa a história de Olívia e sua linda e elegante mãe, e a amiga de infância que um dia rompeu com ela; de Biá, a intelectual e “detetive” que dá a pista do mistério, e sua filha Teresa, inconformada com o desaparecimento do pai fotógrafo). Não preciso dizer que é o segundo livro de Carla Madeira que me impactou. O primeiro foi “Tudo é rio”.

domingo, 4 de outubro de 2026

Relato de um certo oriente, Milton Hatoum

Relato de um certo oriente, Milton Hatoum


O romance de exílio de uma família libanesa que aporta na cidade de Manaus no final do século XIX, começo do XX, um exílio que é, ao mesmo tempo, uma forma de fixação no tempo e num determinado lugar da cultura oriental que se mistura à complexa miscelânea de povos e gentes da Amazônia, naqueles idos, e talvez ainda agora. A narradora, uma mulher, volta à cidade em que nascera, depois de muitos anos, para reconstituir em termos de recordação e lembrança, a vida da matriarca dessa família libanesa, Milie, de formação católica, por ter vivido um tempo num convento no Líbano, que se casa com um libanês muçulmano, aferrado a suas crenças de origem. Há um pacto entre eles de nunca se estranharem por motivo de estranhamento religioso, ou seja, cada um segue sua fé e os filhos, que são quatro, que sigam cada um seu próprio desígnio. E é isso o que mantém a chama desse casamento, revigorado ao longo do tempo pelas brasas noturnas, que muitas vezes acendem também a curiosidade dos filhos. Mas, são muitos os infortúnios por que passa essa família, em Manaus, desde a morte da neta surda-muda, filha espúria de uma menina que pouco tem de mulher e que sofre as consequências do segredo dessa gravidez, até a debandada dos demais filhos, naturais ou adotados, dos agregados que trabalhavam na casa enorme e cheia de vida e de animais silvestres, até a morte do patriarca e a solidão final de Milie. O tempo e os longos momentos tanto de festas e de comemorações quanto de dor e de desesperança são rememorados com ecos longínquos da tradição oral dos narradores orientais, alternando as vozes narrativas, em aparentes missivas ou diários, numa linguagem – que é a própria essência do livro – de grande beleza poética e construção literária, o que consagra o autor amazonense como uma das nossas vozes mais potentes da literatura brasileira contemporânea. Vale sempre ler não só este, mas todos os livros de Milton Hatoun.


segunda-feira, 28 de setembro de 2026

A idade do ferro, J. M. Coetzee

A idade do ferro, J. M. Coetzee


Já quase ao final do livro ficamos sabendo o nome da protagonista, Mrs. Curren, mas isso absolutamente não importa. Estamos diante de uma senhora branca, culta, professora aposentada, que mora na África do Sul durante o regime do apartheid, doente com um câncer terminal, que escreve uma longa missiva para sua filha que mora nos Estados Unidos, onde se casou e teve filhos, nunca mais voltando ao seu país de origem. Mora sozinha, essa senhora, já que o marido a abandonou há muitos anos. E então, um dia, encontra dormindo em seu quintal um vagabundo e seu cão, um homem de idade indefinida. Resolve deixá-lo morar lá e, aos poucos, esse homem, de nome Vercueil, ganha sua confiança e torna-se uma espécie de acompanhante de sua complexa trajetória de final de vida. Não é de meu feitio fazer ilações literárias ou análises dos livros que leio, mas não posso deixar de registrar a impressão que me ficou de um certo paralelismo entre os acontecimentos por que passa a nossa heroína e a trajetória de Dante, no Inferno, acompanhado pelo poeta Virgílio. Vercueil é uma espécie de Virgílio inculto, até um tanto grosseiro, taciturno e silente, mas presente em quase todos os percalços infernais da vida de Mrs. Curren. Vamos a um brevíssimo relato do que ela escreve a sua filham ou seja, da sua vida. Para ajudá-la nas tarefas domésticas, conta com a ajuda de uma empregada negra que vem dos bairros miseráveis onde vive e sobrevive em meio à violência e o abandono dos poderes públicos. Tem ela três filhos: duas meninas, com nomes fortes como Hope (Esperança) e Beauty (Beleza), e um garoto adolescente que se envolve com a resistência, juntamente com um amigo de escola. Ambos acabam mortos pela polícia e isso determinará, entre outros fatores, como solidão, inconformismo, progressão da doença, limitação física, idade, sua trajetória de tristeza, abandono e desesperança, principalmente desesperança em relação a seu país, diante das lutas fratricidas entre brancos e negros que incendeiam a África do Sul, por causa da situação de desigualdade da população negra diante dos brancos, situação contra a qual ela militou durante toda a vida. E agora, fraca e no final da vida, só tem mesmo a companhia de Vercueil, para ajudá-la a tentar superar todo o horror que ela vive diante da repressão policial e de sua própria situação de impotência. É um romance curto, não exige muito tempo de leitura, mas tem muitas páginas de reflexão sobre a vida, o envelhecimento, a solidão, que não nos permitem ficar insensíveis diante da vida dessa mulher, lendo sua carta à filha distante e, nessa carta, todo o seu inconformismo diante da situação de seu país. Um livro realmente extraordinário, por um dos maiores nomes da moderna literatura africana.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

A ilha do dia anterior, Umberto Eco


A ilha do dia anterior, Umberto Eco


Um livro excepcional que exige uma leitura lenta e atenta, pois a história é recheada de referências a grandes obras do passado e a praticamente toda a ciência até então conhecida, pois nos leva ao século XVII, na Itália e na França, para narrar a trajetória de um jovem piemontês da pequena nobreza de Monteferrato que, durante uma missão secreta a serviço do cardeal Mazarino, tem seu navio Amarillis naufragado por uma forte tempestade nos mares do Sul. Toda a tripulação do navio desaparece, exceto Roberto, salvo por uma tábua que, depois de muitos dias à deriva, leva-o ao costado de um outro navio, o Daphne. A bordo do Daphne, descobre ser ele uma espécie de navio fantasma: toda a sua tripulação desaparecera (embora vá encontrar um sobrevivente mais tarde), mas repleto de objetos antigos, metais, até aves e animais vivos, tonéis com aguardente e água. Ali sobrevive por algum tempo, quando sua imaginação começa criar um duplo, uma espécie de doppelgänger, mas um “irmão” que o perseguia em Paris, tomando seu lugar, e que está a bordo. Na busca quase insana por esse duplo, encontra, escondido por medo, um padre muito culto, Caspar, que o incentiva a aprender a nadar para conseguir chegar à ilha próxima, onde ele esteve e construiu uma espécie de telescópio. Quando o padre também desaparece, Roberto começa a delirar com o “irmão” e com a mulher a quem amou em segredo, na Paris barroca dos salões e da pequena nobreza do século XVII, criando em sua mente uma espécie de romance dentro do romance, esse último narrado por um escritor onisciente do século XX (o autor, Eco), que teria encontrado os papéis com as anotações do náufrago que deseja encontrar a longitude que lhe permita alcançar a ilha inatingível no dia anterior, pela mudança de fuso horário. Enfim, um romance barroco, longo e complexo, mas extremamente prazeroso de ser lido.

sábado, 12 de setembro de 2026

O gato que atravessa paredes – uma comédia de costumes, Robert A. Heinlein

O gato que atravessa paredes – uma comédia de costumes, Robert A. Heinlein


Dos chamados “três grandes” da ficção científica de língua inglesa, Arthur C. Clark, Isaac Asimov e Robert A. Heinlein, não havia ainda lido esse último. E a surpresa de “O gato que atravessa paredes”, para mim, foi a constatação de uma ficção quase delirante, irônica e divertida, embora não seja esse um livro fácil de ler. A história de passa em futuros distantes, e eu digo futuros, porque não há exatamente a fixação de um tempo, mas viagens estranhas e extraordinárias no tempo, quando as pessoas podem viver centenas e talvez milhares de anos, em planetas distantes ou aqui na velha Terra ou em Luna/Lua. E é exatamente em Luna onde começa a história do coronel Colin Campbell, conhecido também como Dr. Richard Ames ou como senador Richard Johnson, que não tem um pé, à mesa de um restaurante em companhia de sua provável nova namorada, a pequenina, bela, sensual e enigmática Gwen Novak, quando um estranho se senta à sua frente e lhe diz que ele precisa matar alguém chamado Tolliver, ou ambos morrerão. Esse estranho pedido ocorre logo que Gwen saíra para ir à toalete. Quando, enfim, o estranho se dispõe a lhe entregar uma carteira de identidade e o show na boate começa, surge um ponto negro no peito do estranho, um dardo que explode em seu corpo o mata instantaneamente. Os garçons imediatamente livram-se do corpo. A partir daí, a vida do coronel se transformará numa sucessão incrível de acontecimentos, em que ele é ferido numa briga, levado para um hospital, ganha um pé novo transplantado e viaja no tempo e no espaço, em naves pilotadas por computadores superinteligentes, que a tudo proveem, sempre com sua companheira, Gwen, com quem se casara e de quem pouco sabe, apenas soube que ela tem mais de duzentos anos, apesar da aparência jovem e de toda a sua sensualidade. Entra em contato com uma sociedade que vive num futuro tecnológico, mas também um tanto hedonista, de liberdade sexual, onde há estranhas relações de parentesco e nem ele nem nós, leitores, sabemos muito bem por que o perseguem e por que ele tem sempre que fugir. Enfim, um enredo complexo, mas divertido, em que a ironia do autor nos diverte com os inspirados diálogos de puro non sense, como, aliás, é toda a história, sem dúvida, narrada por uma imaginação extremamente criativa.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Hilda Furacão, Roberto Drummond

Hilda Furacão, Roberto Drummond


A jovem chamada “Garota do Maiô Dourado”, que frequentava a piscina e as “missas dançantes" de um clube tradicional de Belo Horizonte, e atraía a atenção de jovens e velhos e ricos da alta sociedade, num dia 1º de abril de 1969, resolve mudar-se para o quarto 304 do Maravilhoso Hotel, na zona boêmia da cidade e tornar-se a prostituta que irá incendiar as mentes e a libido da sociedade mineira, principalmente dos ricos coronéis, que lhe prometem fortunas por um casamento que ela sempre rejeita. Enquanto isso, três rapazes provindos da cidade interiorana de Ferros tentam a sorte na capital: o primeiro queria ser santo e torna-se frade franciscano; o segundo queria ser ator e conquistar Hollywood, mas se torna apenas um conquistador de aluguel, encaminhando moças virgens para um riquíssimo colecionador de mulheres, que pretendia ter mil filhos com mil mulheres; o terceiro é o próprio narrador/autor do livro. Muitas são as histórias que se cruzam, muitos os folclores que precisam ser contados, principalmente na trajetória do narrador, jornalista que passa por várias redações e se torna amigo de Hilda e lhe promete escrever um romance contando sua vida, desde que ela lhe desvende o grande mistério: por que se tornou prostituta, se podia ter-se casado com um milionário e ter uma vida de luxo e riqueza. Muitos personagens aparecem na narrativa, misturando ficção e realidade, num tempo de grande efervescência política, que vai desaguar no golpe militar de 1964. E é justamente no dia 1º de abril de 1964, data do golpe, que Hilda Furacão resolve abandonar a vida de prostituta e passar a viver com seu grande amor, o padre franciscano que ela conheceu numa situação inusitada quando, alguns anos antes, a sociedade mineira liderada por senhoras conservadoras e carolas convidou o frade a participar de uma caminhada que terminaria com o exorcismo de Hilda Furacão, para livrar Belo Horizonte do pecado. Para encerrar esse breve comentário sobre um livro que, como Hilda, incendiou as mentes brasileiras nos anos 90, ao ser transformado em uma série televisiva, passada na Rede Globo, devo dizer ao leitor destas linhas que há muito mais histórias relacionadas à sociedade mineira conservadora (e isso, para mim, é um pleonasmo) da época do que propriamente a história de Hilda Furacão, já que, embora sua figura perpasse por todas as páginas, como um ente abstrato, sua trajetória, seus amores e suas motivações são muito pouco explorados por Roberto Drummond. Para encerrar definitivamente: pode ser que pareça datado, mas “Hilda Furacão”, o livro, ainda hoje permanece uma leitura extremamente agradável, daqueles livros que pegam o leitor desde a primeira página e o levam a degustar a prosa solta, irreverente e irônica de Roberto Drummond, falecido aos 68 anos, em 2002, até o desfecho dúbio da trajetória de uma personagem que se tornou símbolo de um país cujos sonhos se transformaram em pesadelo e, por isso, uma personagem inesquecível.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Encaixotando minha biblioteca: uma elegia e dez digressões, Alberto Manguel

Encaixotando minha biblioteca: 
uma elegia e dez digressões, Alberto Manguel


Quem gosta de livros, gosta de ler livros que falem de livros, que contem histórias de livros. É o caso desse livro de Alberto Manguel. O escritor argentino é um leitor voraz e chegou a ter uma biblioteca de mais de 35 mil volumes. Por força da profissão de seu pai, desde criança mudou inúmeras vezes de país, desde Israel até Canadá e países da Europa. Adulto, também não teve paradeiro e sua mudança de Paris para Nova Iorque, em 1915, levou-a a encaixotar mais uma vez sua imensa biblioteca. A partir dessa mudança, o autor relembra sua trajetória de nômade e, principalmente, resolve compartilhar com o leitor suas experiências com os livros e com as bibliotecas que frequentou, fossem públicas ou privadas. São reflexões que variam enormemente, desde as divertidas manias de bibliófilos até comentários e análises sobre eventos históricos relacionados a antigas bibliotecas, como, por exemplo, o estranho incêndio que destruiu a antiga biblioteca de Alexandria. Seu amor pelos livros e pela leitura levou-o a aceitar mais tarde o cargo de bibliotecário da Biblioteca Nacional de Buenos Aires, para onde o autor se muda (mais uma vez), depois de longa ausência do país. Suas reflexões sobre o ato da leitura são sempre muito perspicazes e, sem dúvida, seu livro é uma elegia aos livros, um incentivo a quem gosta de ler a continuar a ler e um convite a todos que leiam, já que só os livros, parece nos dizer Manguel, nos torna mais humanos e nos dá a capacidade de entender melhor o mundo em que vivemos.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Revolução, crime político e loucuras – os discursos criminológicos e o anarquismo no Brasil (1890-1930), Bruno Corrêa de Sá Benevides

Revolução, crime político e loucuras 
– os discursos criminológicos e o anarquismo no Brasil (1890-1930), 
Bruno Corrêa de Sá Benevides


Quando li “Anarquistas, graças a Deus”, de Zélia Gattai, a prosa sensível e nostálgica da autora deixou-me a impressão de que o anarquismo quase ingênuo e algo romântico de sua família, ocorreu numa época tranquila para eles e para o país. Não condeno a autora, por isso, ao contrário: continuo achando sua visão e seu livro uma das melhores páginas que já li sobre essa doutrina que era demonizada, agora eu sei, no começo do século, pelas autoridades brasileiras. O livro de Bruno Benevides, na verdade uma alentada tese de doutoramento do autor, revela-nos traços complexos, para dizer o mínimo, da política brasileira do nos anos abordados pela obra: 1890-1930. O livro é longo, quase 500 páginas, muito bem documentado e muito bem embasado em obras e autores da Europa e do Brasil e em farta documentação, num retrato minucioso de como foi considerado o anarquismo no Brasil, nessas quatro décadas. Primeiro, sob o aspecto médico e científico: a medicina brasileira e, em especial, a medicina legal, abraçou a tese de Lombroso e seus inúmeros seguidores de que os indivíduos que defendiam teses libertárias, leia-se: anarquistas, eram doentes mentais, loucos, esquizofrênicos etc. Ou seja, lutar contra as injustiças sociais condenava os operários, principalmente, não só à prisão, mas ao asilo de loucos. Segundo, sob o aspecto policial: com a devida desculpa de que eram loucos, que pretendiam derrubar o governo e as instituições, a polícia de praticamente todos os estados, mas principalmente da capital Rio de Janeiro, dava-se o direito de prender sem mandado, de torturar e expulsar todo e qualquer “perigoso anarquista” que caísse em suas garras, através de patrulhas violentas e de relatórios de “secretas”, policiais infiltrados nos movimentos operários. Terceiro, sob o aspecto jurídico: às vezes, mesmo sem leis específicas, os tribunais, o Supremo Tribunal Federal à frente, condenavam e permitiam a expulsão de quaisquer estrangeiros acusados de serem anarquistas, essa “praga” internacional. Quarto: sob o aspecto político: deputados e senadores, em sua maioria, se esmeravam em condenar através de discursos irados toda e qualquer ideia anarquista, baseados, claro, nas informações científicas de médicos, psicólogos e psiquiatras que seguiam a linha de raciocínio lombrosiana e apresentavam, com sucesso, leis e mais leis que permitiam e incentivam as prisões arbitrárias de anarquistas. Tudo isso, o leitor já pode concluir, muito bem documentado pelo autor em seu livro, que é um libelo contra a arbitrariedade, contra o absurdo de perseguições a movimentos operários que, principalmente na época, lutavam por direitos mínimos de sobrevivência, por melhores salários e melhores condições de trabalho, em geral condições insalubres e salários de fome. Enfim, um tempo de sofrimento, de terror, de perseguições e tortura de pessoas que queriam somente uma vida melhor. Um livro imperdível, para quem deseja conhecer um pouco mais da história recente de nosso Brasil, desse país que insiste ainda em eleger indivíduos golpistas que defendem teses neonazifascistas.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

A maçã envenenada, Michel Laub

A maçã envenenada, Michel Laub


Em 1993, em Porto Alegre, o narrador tem 18 anos e namora Valéria, uma jovem um pouco mais experiente que ele e um tanto complicada. Combinaram assistir juntos ao show do Nirvana, no estádio do Morumbi, em São Paulo. Compraram os ingressos e passagens. Ela viajou primeiro, com um amigo dele. Mas, o rapaz fazia o CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva), como serviço militar obrigatório e não conseguiu fugir do quartel, o que o levaria à prisão. Em 1994, o líder da banda, Kurt Cobain se suicidou com um tiro de espingarda. Na mesma época, a jovem ruandesa Immaculée Ilibagiza ficou presa dentro de um banheiro, juntamente com outras sete mulheres, para fugir ao genocídio praticado por uma organização paramilitar hutu contra outras minorias, principalmente tutsis, no qual morreram quase todos os membros de sua família. Em torno desses dois acontecimentos, o autor/narrador entretece sua passagem pelo exército, seu romance com Valéria, sua vida de estudante e músico de uma banda de garagem, sua vida em Porto Alegre e, depois, suas viagens, para comentar com emoção, lirismo e, às vezes, uma certa secura e desalento, as diferenças de universos tão díspares quanto o mundo da música e do quartel, sobre o que pensam, o que leem e que música ouvem os jovens dessa época, seus sonhos e dissabores e sobre a própria vida, num tempo de idolatrias e mudanças. O livro é também sobre perdas e solidão, sobre conseguir sobreviver apesar de todos os percalços, e ainda uma reflexão sobre o suicídio. Parece mórbido? Não para a forma como tudo se mistura na prosa muito bem articulada do autor, para que essa história – às vezes triste, às vezes um tanto irônica – não chegue ao leitor como um fardo pesado, mas com a leveza de uma pluma, apesar da carga de uma maçã envenenada, como na canção de Kurt Cobain, Drain you.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A desumanização, Valter Hugo Mãe

A desumanização, Valter Hugo Mãe


Halla, a personagem principal do livro, tem apenas 11 anos e sofre a perda de sua irmã gêmea, Sigridur, cujo corpo é “plantado” no alto de uma geleira na gélida Islândia, onde transcorre um dos dramas mais pungentes jamais narrados em língua portuguesa. A memória da irmã irá pautar e permanecer durante toda a trajetória dessa garota que vive e percorre os caminhos e os fiordes, contaminada pela solidão da paisagem de sua terra natal. Um conselho que ela traz da irmã – jamais namore o Einar, um jovem mais velho e, na descrição inicial da menina (que é a narradora) um tanto feio. No entanto, será ele o companheiro que irá conquistá-la e de quem vai se engravidar aos 12 anos. A criança nasce morta e a descrição desse fato é um dos trechos (entre vários outros) de grande potência emotiva. Halla tem a compreensão e a camaradagem do pai, um sonhador e poeta, mas sofre com a frieza e até uma certa violência da mãe, o que a leva a sair de casa e passar a morar num pequeno cômodo na igreja, arranjado por Steindór, um solteirão amável e amigo de todos, que é uma espécie de sacristão, já que a paróquia está sem um prior. No entanto, a chegada de uma tia, irmã de sua mãe, irá complicar a vida do casal, quando essa tia e o sacristão resolvem se casar, provocando em Einar memórias de um passado terrível. Toda a narrativa é desenvolvida a partir do ponto de vista de Halla, numa linguagem poética e de grande poder de sedução para o leitor, ao retratar a melancolia, o desamparo, a transitoriedade da vida e, principalmente, o luto, o que deixa marcas profundas não só no desenvolvimento das personagens, como também na lembrança de quem se aventura por esse livro que, na sua simplicidade extremamente poética, constitui uma das obras mais belas e interessantes da literatura contemporânea.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O ar que me falta – história de uma curta infância e de uma longa depressão, Luiz Schwarcz

O ar que me falta – história de uma curta infância 
e de uma longa depressão, Luiz Schwarcz


O subtítulo entrega o que se vai ler, mas essa entrega nada tem de lamentação, porque a perspicácia do autor ao contar sua história não permite em nenhum momento a autocomiseração. Como centenas ou milhares de famílias judias que conseguiram escapara à sanha nazista, seu avô e outros familiares, inclusive de sua mulher, acabaram por virem para o Brasil em busca de uma nova vida, em busca da paz. São histórias semelhantes a essa que pode levar a algum leitor desavisado a pensar que é só mais uma história de sofrimento de judeus perseguidos. No entanto, as milhares das vidas que sobreviveram precisam, sim, ser contadas, porque o sofrimento causado aos milhões de judeus (e a outras etnias) pelos nazistas parece não ser suficiente para que se convençam da maldade absoluta do nazismo, é preciso que se individualizem os casos, que se deem nome às pessoas, e só então, talvez, possamos erradicar para sempre de nossa sociedade ideias neonazifascistas. Mas, vamos ao livro: o pai do narrador, húngaro, foi empurrado pelo pai de dentro de um trem a caminho de um campo de extermínio e conseguiu sobreviver. A mãe, croata, fugiu com a família, ainda muito pequena, primeiro para a Itália e depois para o Brasil. Aqui, os dois se encontraram e se casaram, tendo um filho único, Luíz. O passado doloroso e sombrio da família vai aos poucos sendo desvendado por esse filho que, desde menino, começa a desenvolver um quadro crônico de depressão, que se agrava na vida adulta, mesmo quando, já um empresário de sucesso, à frente de uma grande editora, as crises se tornam agudas e os múltiplos tratamentos psiquiátricos e medicamentosos teimam em falhar. É essa depressão, que o autor insiste em dizer que não sabe se tem origem genética, a grande personagem do livro. E, repito, não há autocomiseração, apenas o relato de vidas complexas e de uma síndrome que afeta milhares de pessoas e que exige tratamento caro e especializado que, como o autor diz, nem sempre está ao alcance de famílias menos abastadas. Enfim, um relato sensível e bem articulado, para se ler como uma história de sofrimento, mas também de superação e de advertência quanto a esse mal terrível que, muitas vezes, não é compreendido, a depressão.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Morte em pleno verão, Yukio Mishima

 Morte em pleno verão, Yukio Mishima


O título do livro refere-se ao título do primeiro dos dez contos dessa obra de um autor que trafega entre o tradicional e a modernidade num Japão de pós-guerra. Todos os contos são primorosos e têm sempre um final aberto, aberto para a imaginação do leitor, ainda que trate temas espinhosos. O primeiro conto trata de uma longa reflexão sobre o luto, já que uma família perde três membros num mesmo evento: dois filhos e a irmã do marido. O segundo conto, “O biscoito de um milhão de ienes” leva-nos a um detalhado momento da vida de um casal que não se define entre um “trabalho estranho” de ambos ou ganhar mais dinheiro. Em “A garrafa mágica”, um reencontro de dois amantes em Nova Iorque traduz as preocupações do autor com a ocidentalização, além de nos levar a um ambiente de sexo e mistério. Já em “O amor do homem santo de Shiga”, Mishima trata da tradição japonesa tanto histórica quanto literária e religiosa, para nos trazer a tensão entre o mundano e o sagrado. Chegamos ao quinto conto, “Até a última ponte”, em que quatro mulheres buscam realizar seus desejos num cerimonial que inclui passar por sete ponte no mais absoluto silêncio. Será que conseguirão? Ironia e um humor sutil pontua o conto. O que faz um trágico contraponto com “Patriotismo”, onde o autor descreve com minúcias uma relação de amor, sensualidade e morte, ao relatar o suicídio ritualístico do casal, talvez antecipando sua própria morte. De arrepiar. Em “Dojoji”, o autor volta-se para o que ele chama de “moderno teatro nô”, misturando elementos europeus e tradicionais na encenação de uma peça de teatro. “Omnagata”traz alguns dos temas obsessivos do autor, com amor, ciúme e transexualidade. Com humor e ironia, os dois últimos contos, “As pérolas” e “Papel-jornal” trazem reflexões sobre ética, quando um grupo de mulheres se reúne para um chá e a pérola de um anel desaparece; e quando a jovem e bela esposa de um ator famoso não se conforma com o destino do bebê da babá de seu filho e imagina reencontrá-lo já adulto dormindo num parque, num final surpreendente e misterioso, como quase todos os textos desse livro mais do que interessante, instigante e de leitura absolutamente envolvente. A milenar literatura japonesa não nega fogo, nunca. Seus autores modernos e contemporâneos constituem uma deliciosa surpresa para quem gosta de boas histórias e excelente literatura.


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Nossa parte de noite, Mariana Enriquez

Nossa parte de noite, Mariana Enriquez


A violenta ditadura militar na Argentina durou de 1976 a 1983, tempo suficiente para atrocidades como tortura, prisão e morte de milhares de pessoas, bebês sequestrados etc. O tempo do romance “Nossa parte de noite” ultrapassa o tempo da ditadura, tanto para trás como para frente, mas tem como pano de fundo principal os horrores cometidos pelos militares. A história do romance é longa e complexa. Uma sociedade secreta, trazida da África para a Argentina há séculos é comandada pela família Reyes, cujos membros, em busca da eternidade, realizam rituais para uma entidade chamada Escuridão, para os quais há necessidade de um médium. Menino ainda, Juan foi detectado com um poderoso xamã para a seita e a família o adotou, principalmente porque ele precisava de cirurgias complexas para salvar sua vida. Juan cresceu dentro dos rituais, como médium, sabendo, no entanto, que a Escuridão consumia sua vida e ele teria pouco tempo de vida, além do fato de que esses rituais eram extremamente violentos: a entidade exigia muitos sacrifícios humanos, principalmente de crianças e jovens, mantidos engaiolados pela família. Casa-se com uma herdeira dos Reyes, Rosario, e com ela tem um filho, Gaspar. A partir daí, dedica sua vida a tentar proteger esse filho da sanha dos rituais violentos, já que ele seria seu sucessor. Como pai, justamente por saber que a família faria tudo para aprisionar a criança e porque sofre dores terríveis em consequência dos rituais, tem crises alternadas de violência e carinho para com o filho, que cresce sem entender por que o pai tinha tais atitudes para com ele, principalmente depois da morte misteriosa da sua mãe, aos 4 ou 5 anos. Depois que seu pai também morre, Gaspar, herdeiro não só da tradição mediúnica da família, mas também da sua enorme riqueza, é criado por um tio, Luís, irmão de seu pai. Depois que sua melhor amiga de infância desparece misteriosamente, quando seu grupo de amigos invade uma casa assombrada no bairro onde moram, Gaspar cresce com crises diagnosticadas por médicos como sendo várias doenças mentais, sem que se chegue a um diagnóstico definitivo, porque o que ele sofre são as consequências de sua origem. Vai, então, em busca de explicações e se depara com os mistérios da Ordem e da Escuridão, contra as quais trava um combate mental e físico, para não ser envolvido pelos seus rituais, como não desejava seu pai. Uma história, repito, complexa, contada com detalhes de horror e medo, num romance de estilo gótico, por uma escritora que domina a técnica literária com que envolve o leitor da primeira à última página, ao combinar todo o mistério da trama ficcional com os dramas humanos da população argentina, não só relacionados à ferocidade da ditadura, mas também à chegada da Aids. Talvez uma grande metáfora de um período de trevas e sofrimento. P.S.: aqui mesmo, neste blog, o leitor pode encontrar a resenha de outro livro seu: “As coisas que perdemos no fogo”.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Nomadland: Sobrevivendo aos Estados Unidos no século XXI, Jessica Bruder

Nomadland: Sobrevivendo aos Estados Unidos no século XXI, Jessica Bruder


A paixão dos estadunidenses por RVs (veículos de recreação) e trailers teve um primeiro boom na década de 30, mas arrefeceu nos anos seguintes. Mas voltou com tudo, quando a bolha imobiliária estourou em 2008, milhares perderam as casas e os empregos, principalmente a classe média constituída de pessoas mais velhas, os 50+, expulsos do mercado por uma série de motivos, inclusive por etarismo. A solução para essas pessoas não era morar nas ruas, tornar-se homelless (sem teto). Eles passaram a ser sem-casa, não sem teto, porque começaram a adaptar RVs, trailers, ônibus e vans como moradia nômade, para cruzar os Estados Unidos em busca de trabalho temporário e mal pago em grandes empresas, como em galpões da Amazon, ou em colheitas sazonais que exigiam aumento de mão de obra não especializada, para complementar os baixos rendimentos de aposentadorias ou mesmo como forma de sobrevivência. O país se tornou a terra dos nômades. E é dessa população que trata o livro de Jessica Bruder, na verdade uma longa reportagem que mergulha nos Estados Unidos profundos, aquele país que não aparece nas propagandas e não é visto nas grandes cidades ou nas cidades turísticas. O fio condutor da história, que podemos chamar de protagonista, é Linda May, uma semiaposentada de pouco mais de 60 anos ex-quase-tudo: garçonete, caixa de loja de departamento, empreiteira e avó Linda May. A jornalista pega a estrada num veículo de segunda mão, apelidado de “Van Halen”, para se aproximar de seus alvos e conhecer pessoas, além de Linda, como um ex-professor, um executivo do McDonald's, um ministro de igreja, um policial aposentado e veteranos de guerra, entre muitos outros. Relata com sensibilidade suas vidas, seus perrengues, sua criatividade na busca de empregos, na reforma de seus veículos, na busca de lugares seguros para estacionar, na tentativa de evitar encontros com policiais mal-humorados, na realização de encontros e festas em lugares distantes e ermos. Mas, também é uma população que não perde nunca a esperança e tem na força do trabalho, ainda que mal pago, a busca da realização de sonhos que podem parecer até mesmo absurdos, como a da protagonista Linda, que sonha construir em algum local distante uma earthship, casa autossustentável (projetada pelo arquiteto Michael Reynolds), construída com pneus compactados e materiais reciclados. Estamos diante de uma nova realidade que deixa distante a ideia do “sonho americano” de segurança e prosperidade. A autora afirma que os Estados Unidos são, entre os países desenvolvidos, aquele que possui a maior desigualdade social: nas médias salariais, a diferença entre o menor e o maior salário é de 81 vezes. Esse o lado sombrio da “grande nação”, hoje governada por um idiota que gasta bilhões numa guerra absurda contra o Iraque e ameaça o mundo não só com tarifas, mas também com anexação de territórios. Não sei como estão sobrevivendo à era Trump os sem-casa, os nômades que aceitam até mesmo os empregos anteriormente tidos como degradantes, como lavar latrinas, já que o livro termina em 2017, quando a autora nos conta que Linda está começando a realizar seu sonho de uma “earthship”, num terreno localizado na fronteira com o México, no sul dos Estados Unidos. Uma grande reportagem para ser lida por quem não acredita na “terra dos sonhos” ou, para quem ainda acredita tomar um banho de realidade sobre o “grande irmão” do Norte.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Vento em setembro, Tony Bellotto

Vento em setembro, Tony Bellotto


Há muito não mergulhava na voragem de uma boa literatura policial ou de mistério. Enquadra-se mais, aliás, na segunda categoria o romance de Bellotto. E é realmente não um vento, mas uma ventania que nos pega desde as primeiras páginas e nos obriga a ler na velocidade mesma dos acontecimentos narrados. Vou dar apenas um pequeno vislumbre da trama, para poder comentar um pouco mais esse livro. Na década de 70 do século passado (e isso está ali mesmo e parece que foi há muito tempo), um poderoso fazendeiro de soja da cidade do interior de São Paulo, Assis, promove uma orgia com inúmeros convidados e prostitutas da região, para o “descabaçamento” do filho mais novo, Alexandre. Contrata para o “evento” uma famosa prostituta de São Paulo, a deslumbrante Laura, que tem um irmão gêmeo homossexual. O garoto, tímido e desconfortável com tudo aquilo, resolve simplesmente desparecer da festa, que transforma, não só a festa, mas também a vida de Máximo Leonel e sua família, a mulher e seus dois outros filhos num pandemônio. Até aí, pensamos que estamos diante de um narrador onisciente, mas logo após a tal orgia, apresenta-se a nós a personagem Davi Zimmerman como sendo o narrador da história – e personagem! Jornalista e escritor, publicou um livro em que mistura fantasia e realidade sobre a vida de Aleijadinho. Numa sequência intrigante, baseada nas informações do livro, alguém começa a pichar os profetas e muros de igrejas de Congonhas e Ouro Preto, com a frase de Nietzsche, “Deus está morto”, o que o leva a se envolver numa complexa trama que resulta na busca, meio edipiana, de seu passado, de sua identidade, aí sim, numa voragem de acontecimentos de deixar o leitor sem fôlego. A literatura dita de mistério, ou policial, não tem por tradição mergulhos psicológicos ou digressões filosóficas, ou seja, as personagens não se verticalizam ou só o fazem através da ação. E ação é o que não falta no excelente romance de Tony Bellotto, além de uma quantidade enorme de referências culturais e citações, o que me deixou encantado por reconhecê-las quase todas, desculpando-me o leitor destas linhas a modéstia, Enfim, para quem gosta de literatura de mistério, sem dúvida, uma obra altamente recomendável para se ler num fim de semana friorento, degustando um vinho, que boa diversão não faltará.


sexta-feira, 10 de julho de 2026

História da Revolução Russa – 3º volume – O triunfo dos sovietes, Leon Trotsky

 História da Revolução Russa – 3º volume – O triunfo dos sovietes, Leon Trotsky



No estilo característico do autor, em que não se limita a narrar os fatos, mas comentá-los e descrever cada situação de forma detalhada, em suas minúcias políticas e sociais, esse terceiro volume da História da Revolução Russa, contempla os eventos que levaram ao “triunfo dos sovietes”, em outubro 1917. Detalha o planejamento estratégico dos bolcheviques a partir dos percalços provocados pela insurreição contrarrevolucionária de Kornilov em 27 de agosto; a prisão e a liberação de Trotsky; a formação do último governo de coalizão, com Kerensky como presidente; a tomada paulatina dos sovietes pelos bolcheviques e toda a preparação militar para o golpe final contra o governo de Kerensky. A insurreição começa às 2 horas da madrugada de 25 de outubro e o Conselho da República é fechado pelas tropas ao meio-dia. Lenine faz a sua primeira aparição pública numa sessão do Soviete de Petrogrado, às 3 horas da tarde e esse é um capítulo muito especial em todo o livro. A partir daí o Palácio de Inverno cai e o Governo Provisório é preso, o Segundo Congresso Nacional dos Sovietes decreta sobre paz e território e fixa o novo governo dos Conselhos dos Comissários do Povo, nos dias 26 e 27 de outubro. Estava consolidada a vitória bolchevique. Nas mais de 500 páginas do livro, Trotsky detalha o posicionamento de cada partido político, as divergências entre eles e até mesmo as divergências entre os próprios bolcheviques, as intervenções de Lenine, consideradas cruciais para a vitória final. Há em todo o texto uma profunda análise marxista e sociológica sobre a dinâmica das massas, ou seja, dos proletários, dos soldados e dos camponeses em todo o processo de união e de convencimento dessas populações, para tomarem consciência de sua situação e da possibilidade real de tomarem o poder. Consolidado o primeiro governo operário, Trotsky ainda discute longamente a internacionalização da Revolução, porque tanto ele quanto Lenine acreditavam que os sovietes só conseguiriam manter o poder na Rússia, se os operários também tomassem o poder nos demais países da Europa, já que as condições do capitalismo na Rússia e sua situação de país subdesenvolvido não conteria as condições ideais para manter um governo marxista, como ocorria na França, na Inglaterra etc. A saga da Revolução Russa, contada por alguém que participou diretamente dos eventos que levaram à vitória do primeiro governo marxista no mundo, num país complexo como a Rússia, tem realmente um sabor todo especial para qualquer leitor que se interesse por política, pela História e pelos destinos da humanidade, já que é um evento exemplar e único, apesar de seu término melancólico no final do século XX.

sábado, 20 de junho de 2026

História da Revolução Russa – 2º volume – Tentativa de contrarrevolução, Leon Trotsky

História da Revolução Russa – 2º volume – Tentativa de contrarrevolução, Leon Trotsky


A revolução de fevereiro de 1917 foi vitoriosa na sua finalidade de derrubar o tzarismo, mas o governo provisório liderado principalmente por Kerensky mergulhou em crises e não realizou os ideais das classes populares e, principalmente do bolchevismo, de entregar o poder ao povo. Acabou se aproximando muito mais da burguesia e aliou-se às forças golpistas do ministro da guerra, Kornilov, enquanto a própria guerra contra a Alemanha corroía as finanças do país. A tentativa de golpe de estado burguês ocorreu nas chamadas “jornadas de julho” que só foram esmagadas por incompetência dos golpistas, pelas contradições internas do governo e pela reação do povo e das forças progressistas. A politicagem, no entanto, continuava a pleno vapor dentro do governo provisório, dividido em várias correntes políticas que não se entendiam e disputavam o poder. A burguesia defendia pautas contrarrevolucionárias, defendendo seus privilégios. Nesse estado de conflitos políticos, os bolchevistas, que defendiam a entrega do poder aos sovietes, sofreram um rude golpe: seus líderes foram presos, principalmente Trotsky, enquanto Lenine se mantinha na clandestinidade, perseguido por uma notícia falsa, difundida pela burguesia, que quase liquidou o bolchevismo. As forças reacionárias conseguiram empastelar o principal jornal bolchevista e, donos da imprensa, acusaram os bolchevistas de serem espiões da Alemanha e Lenine, não só de ser espião, mas ser financiado pelo inimigo. A luta para recuperar o prestígio dos bolchevistas e todas as complexas negociações políticas dentro e fora do governo nesse período conturbado são detalhadamente relacionadas, historiadas e comentadas por Trotsky, no seu estilo de ir às minúcias e às entranhas da situação, o que faz que a leitura desse segundo volume exija uma atenção redobrada do leitor, principalmente pelas inúmeras personagens e citações nesse emaranhado de forças políticas de uma sociedade perplexa e complexa, que busca entender o que está acontecendo e realizar o seu destino, que é o ideal bolchevista de entregar o governo ao povo, o que vai acontecer, como todos sabem, somente em outubro. Mas a narrativa dessa revolução ficará para o terceiro volume.